Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de dezembro 2009

Resolução de fim de ano

29 de dezembro de 2009 17

Oi, pessoal.

Passei aqui para desejar a todos um belíssimo 2010! Estou indo amanhã cedo para Punta del Diablo, um pueblito no Uruguay ainda rústico, sem a agitação de Punta del Este. Quando voltar eu conto o que achei de lá, mas tenho a impressão de que vou gostar muito. Ficarei offline até domingo. Mas pra não deixar ninguém de mãos abanando, estou postando aqui e agora um texto da vulcânica Elisa Lucinda, poeta e atriz. Como eu sei que tem muita gente que planeja parar de fumar quando chega o final de ano, achei que seria uma boa ideia reproduzir a crônica que Elisa publicou recentemente sobre o assunto no jornal Correio Brasiliense (em tempo: ela autorizou que eu a reproduzisse aqui no blog). Elisa escreveu uma frase forte: “Cansei de comprar o meu câncer”. O texto não é patrulheiro não, e eu também não sou. Sei que é um vício difícil à beça de largar, mas pra quem está querendo realmente abandonar o fumacê, o texto da Elisa pode ser uma força. Se é essa a sua resolução de fim de ano, boa sorte!!! Ah, antes do texto, me permitam mais uma dica de livro: O seminarista, do genial Rubem Fonseca. Um  texto contundente, sintético e hipnótico, como sempre.  

Até o ano que vem! Com vocês, Elisa:

                                           PIRO NO SUSPIRO
 
              Pasmem os que sabiam e os que não desse meu segredo: parei de fumar. Sim, sou uma ex-fumante de um mês sem, e de trinta e seis anos com. Isto é, quase quatro décadas fumando esses cigarros que se compra em qualquer parte, nos bares, nos clubes, nos hotéis, nas portas dos colégios, nas boates, nos shoppings, nos supermercados, nos motéis, nas pousadas, nos postos, nos quiosques e outras bocas de fumo expostas e legalizadas espalhadas por aí, ao nosso dispor. Mas não escrevo para convencer ninguém a nada, não fiquei uma ex-fumante patrulhante. Sou recente e estou em estado de espanto pela nova vida. Vale dizer que eu era uma fumante cujo hábito se agravava nas festas e como delicioso acompanhante das bebidas. Falo da delícia de um gole e um trago. Quem é fumante sabe. Nessas ocasiões poderia fumar até oito cigarros, ou mais, dez. Mas em geral, dois cigarros por dia, três e pronto. Também era de hábito, depois de uma noite regada a fumaça, álcool, dança e tudo que tem numa festa, eu costumava ficar em uma abstinência natural durante todo o dia seguinte; mais que uma abstinência, uma certa ressaca, uma certa ojeriza ao cheiro do cigarro. Então me diziam: puxa, mas você fuma tão pouco que nem precisa parar. Não sei por que, há um mês, depois de um desses days after, resolvi subitamente parar de fumar, sem me preparar para isso. Aproveitei o nojo, a fala do corpo que me fazia rejeitar e pensei: acho que não volto a fumar. Logo depois, sequência direta, li num jornal que Mara Manzan tinha morrido; nossa querida, valente e divertidíssima atriz. Na matéria do óbito tinha uma declaração dela: “Não foi só o cigarro que me deu esse tumor nos pulmões, eu também cuspia fogo e engoli muito querosene nessa vida”. Na hora pensei, se eu não estivesse com esse foco, eu suprimiria a palavra e leria que não foi o cigarro, e sim o querosene. Mas como o meu desejo era outro, eu li exatamente o que as palavras diziam: que ,além do cigarro, o querosene também a matou. Então pensei, vou parar de comprar meu câncer. Esses donos de fábrica de tabaco devem ser sócios dos laboratórios de quimioterapia como os hakers precisam produzir a doença para vender o remédio.
Sei que escrevo agora uma crônica quase dura, principalmente para quem fuma, mas não posso deixar de compartilhar essa experiência com meus iguais. Estou chocada: sem usar nenhum emplastro, sem pastilhas e outros recursos para atravessar o processo, estou sem fumar a frio. No entanto, o mundo cintila com igual força ao meu redor e, como se um espírito não fumador estivesse encostado em mim, eu não tenho a mínima vontade de fumar desde esse dia, e nunca mais. E olha que passei por testes muito difíceis, aparentemente. A saber: aniversário de Márcia do Valle, minha querida amiga, aniversarau de Maria Paula, sarau de Totonho Villerois, todos com vinho, champagne, cerveja e wisky, e cigarros para quem quisesse, atravessando a madrugada. E eu lá, com as minhas tacinhas, sem incomdar a ninguém, sem virar um evangélico chato, só me divertindo com a nova vida, tão possível, meu deus!, e o melhor, sem perder a graça. A vida me convoca a me despedir de um velho vício. Há muitos anos eu não me despedia de um velho vício! Topei. Fui no fundamento dele e achei uma tola desobediência a meu pai, um jeito de me afirmar como jovem, um jeito datado de chocar; achei também uma oralidade, uma ansiedade, uma vontade de comer o mundo como se fosse uma chupeta que comecei a sugar na hora que estava me construindo, adolescente, como a gente grande que viria a ser. Desmontado o enigma, a sensação que me invadia nos primeiros dias sem fumar é a de que esse costume em mim parece ter perdido a validade, não sou mais aquela, saí daquela moda , mudei de formato, e essa é minha mais atual transformação. Bem, para quem nasceu careca, sem dente e sem saber andar, até que essa transformação não é tão radical assim. E depois, o show da mutação não para. Quem recebe a glória de ficar velhinho pode ter o álbum das diversas fases da grande viagem, para confirmar o que digo. Nos novos dias tenho “viajado” no paladar das coisas, sempre fui boa de sentido, mas agora estou melhor. Faz sentido. Minha voz também está mais bonita. Para completar a partitura, ainda ouvi de um gentil cavaleiro, doces palavras: “hum, você sem fumar, é um poema sem  palavras feito só de cheiro”; êxtase de ouvir isso.

Mas deixei para o final a invisível mão que mais me acolheu, subsidiou e deu patamar de fortaleza à minha decisão: Dona Poesia. Foi ela, meu Deus, outra vez, que numa displicente noite, ao abrir um livro de Quintana, lançou-me na cara: “Desconfia dos que não fumam: esses não tem vida interior, não tem sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar…”. Pirei! De novo Quintana tinha razão: ao fumar visitamos nossos interiores, refletimos, conversamos com nossas vozes íntimas, e é por isso que o Zeca Baleiro diz que “a solidão é o meu cigarro”, mas, para os meus propósitos, me agarrei foi no final, na função do verbo suspirar. Então comecei, só para brincar, a fumar um cigarro imaginário e tragá-lo profundamente, suspirar e soltar o ar. Dá uma onda parecida com yoga, parecida com amor. Sou romântica, e os românticos suspiram profundamente; o ar visita as vísceras, o diafragma, enche os pulmões, oxigena o cérebro e volta outro pra donde veio. Então é isso, agora eu ministro suspiros em mim quando lembro, quando quero, quando preciso, e sem me matar por isso. Espero assim, pelo menos desse jeito, adiar para muito longe o meu último suspiro. (Elisa Lucinda)

 

 

 

     

Postado por martha medeiros

Vida e cinema

26 de dezembro de 2009 33

Uau, quantos comentários sobre o caso Sean Goldman. Dessa vez não deu para ler todos, mas pelo que vi dá pra perceber que a maioria dos leitores é pró-pai americano. Entendo. Analisando de fora, parece mesmo que o pai é a vítima, mesmo tendo ficado quatro anos sem dar notícia (enquanto a mãe ainda estava viva). Concordo que a avó materna exagerou quando disse que, no caso da falta da mãe, é da avó a resposabilidade de cuidar de uma criança. Isso só se justifica se o pai não assume a responsabilidade – se bem que amor de avó não se deve dispensar nunca, estejam os pais vivos ou mortos. Mas isso é outro assunto. Me posicionei a favor da família brasileira porque já ouvi, em off, coisas de arrepiar os cabelos sobre o tal David, mas, claro, pode ser tudo fofocada, então só nos resta torcer para que o menino se adapte bem à nova vida e bola pra frente. 

*

Vamos falar de cinema? Acabei de assistir em DVD e com atraso ao filme O casamento de Rachel, com a fabulosa Anne Hathaway (de O Diabo Veste Prada) e dirigido por Johnatan Demme. Valeu a pena. Gosto muito de produções sem megaefeitos, amparadas por roteiros inteligentes e tocantes, e com atores que entram no personagem a ponto de se fundirem com eles. Histórias familiares como essa, em especial, me cativam, é como se eu estivesse espiando pelo buraco da fechadura de um universo particular, mas que todos nós reconhecemos. Anna Hathaway interpreta Kym, uma jovem que estava internada numa clínica de reabilitação há nove meses e que sai para assistir ao casamento da irmã. Durante o convívio em família no final de semana, explodem todos os conflitos imagináveis, uma tensão a cada cena, acertos de contas emocionais que não deixam ninguém impassível. Triste, verdadeiro, comovente, profundo, sensível: adjetivos relacionados com o bom cinema, mas raros quando se fala de televisão, por exemplo. Assim que o filme acabou, retirei o CD do aparelho e entrou uma cena de novela, e é sempre um choque essa transferência de clima. Mais ou menos como quando a gente sai do cinema e encara um corredor de shopping: parece que acordamos de um sonho e somos violentamente transferidos para o lado intranscendente do cotidiano. 

*

Mas pra não esculhambar muito com o trivial televisivo, admito que a cena que foi ao ar ontem na novela Viver a Vida, que mostrava o personagem de Alline Moraes, tetraplégica, embaixo de um chuveiro, imóvel, sendo banhada pela mãe, me emocionou. 

*

Volto qualquer hora, queria apenas dar a dica do filme, pra quem está curtindo esse feriado em casa. Na santa paz!

*

Beijos

 

Postado por martha medeiros

Natal

24 de dezembro de 2009 187

Oi!

Hoje, dia 24, véspera de Natal. Logo mais à noite estarei entre meus familiares celebrando mais uma noite feliz, mas admito que meu coração está meio murcho por uma razão que nada diz respeito a mim, pessoalmente, mas não há como não se sensibilizar. Estou falando sobre Sean Goldman, esse menino de 9 anos que hoje teve sua vida alterada em função de uma decisão judicial que o obriga a se mudar para os Estados Unidos e viver na companhia de um pai com quem ele não tem a menor intimidade. O assunto tem sido bem debatido na imprensa e acho que todo mundo sabe mais ou menos do que se trata: o garoto nasceu nos Estados Unidos, mas por volta dos quatro anos voltou com a mãe para o Brasil, que – aí foi a burrada dela - abandonou o marido americano e pediu o divórcio sem legalizar a situação do menino. Ela veio a falecer tempos depois, quando já estava casada com um brasileiro. Sean viveu até hoje com a avó materna, com o padrasto e com uma irmãzinha, mas o pai biológico requereu a guarda e venceu a ação. Em termos legais, entendo perfeitamente o desfecho da situação, mas fico pensando: e a vontade de um garoto de 9 anos, não conta? E o fato de esse caso ter criado uma crise diplomática entre os dois países, não é estranho? O Brasil recebeu vantagens econômicas depois que o pai americano recuperou a guarda da criança. Fico incomodada por um caso de caráter tão emocional ter tido  repercussões políticas e financeiras, mas, infelizmente, nada disso é estranho, assim é a vida. Eu sempre defendi a lógica das situações, mas também sempre levei em consideração que certas questões emocionais precisam estar acima da lógica. Me coloco no lugar do pai do garoto, que possui com ele uma relação praticamente inexistente, e penso se não era o caso de uma solução salomônica: que deixasse o garoto viver no Brasil com a avó, a irmã e o padrasto, família que lhe ofertou estabilidade emocional e a quem ele tanto ama e se sente feliz. O pai poderia vê-lo, fazer visitas, passar as férias juntos, até reestabelecer o vínculo e aí, com o garoto mais velho e mais familiarizado com o pai, as decisões seriam menos dolorosas, mais tranquilas. Mas arrancá-lo a força de casa, por decisão judicial, para viver em outro país, sem seus amigos, sem sua escola e sem que isso seja sua vontade, me parece de uma violência bárbara, a não ser que a criança estivesse sofrendo maus tratos, o que nunca aconteceu. Enfim, é complicado tudo isso, trata-se do direito de um pai sobre um filho, e a razão está com ele. A mãe do menino jamais poderia ter sumido dos Estados Unidos com a criança sem dar satisfação, por mais que tivesse motivos pessoais pra isso. Deu no que deu. Mas até ontem havia uma vida feliz em família, que hoje se parte ao meio, rumo a um futuro incerto. David Goldman e Sean Goldman, pai e filho que mal se conhecem, conseguirão criar um vínculo sincero de amor? Há como tudo isso não ser traumático para todos os envolvidos? Tomara que dê tudo certo, mas fico com o coração apertado só de imaginar uma criança sendo repatriada contra a vontade, para viver com uma família cujo vínculo é sanguineo, porém não emocional. Pena que o emocional conte tão pouco na hora de se fazer justiça. 

*

Desabafo feito, hora de lembrar daqueles que nunca passaram por tal infortúnio e estão bem berto de quem amam. Você, eu e a maioria de nós. Que tenhamos todos um Natal alegre, divertido, espirituoso, sem ranços familiares, apenas celebração e paz. Uma noite feliz pra você!!!!

*

Beijos

 

 

Postado por martha medeiros

O photoshop em discussão

17 de dezembro de 2009 16

Recebi de uma amiga o link para uma matéria que fala sobre um anúncio que foi tirado de circulação na Inglaterra. O anúncio era de um creme antirrugas da Olay, que mostrava a foto da modelo Twiggy, a mais famosa top model dos anos 60,  que hoje está justamente com 60 anos de idade. Porém o rosto do anúncio parecia o de uma mulher de não mais de 35 – qual o milagre? O creme da Olay? Não. O milagre chama-se photoshop. A matéria mostra a foto feita para o anúncio e a foto da modelo sem retoques, e a diferença é brutal. Dê uma conferida (não esqueça de ampliar a imagem). 

http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mulher/mat/2009/12/16/gra-bretanha-proibe-veiculacao-de-anuncio-de-creme-antirrugas-com-modelo-twiggy-retocada-com-photoshop-915234260.asp

*

A Europa está começando uma guerra contra o photoshop que ainda vai dar muito o que falar. A edição de novembro da revista Elle espanhola traz um ensaio com 12 mulheres famosas, entre 25 e 68 anos, que toparam fotografar para a revista sem um pingo de maquiagem e sem photoshop. São modelos, jornalistas e atrizes muito conhecidas em seu país (entre elas a deslumbrante Paz Vega) e todas elas foram unânimes ao declarar que o photoshop, quando usado com muita parcimônia, pode ser um aliado, mas o que está acontecendo é que a parcimônia foi pro espaço, e hoje os editores estão publicando fotos de mulheres com a cabeça mais larga que o quadril. Perfeitas alienígenas. Uma delas revelou que certa vez uma foto sua foi publicada praticamente sem o nariz. São verdadeiras aberrações que ganham as bancas de revistas e engambelam as leitoras, que acabam acreditando que aquilo é o retrato da realidade e, inconformadas ao se compararem com as beldades, passam a adotar hábitos prejudicias à saúde e que levam à anorexia.

*

Eu não acredito que o photoshop irá desaparecer de vez, mas é interessante que esteja ocorrendo essa campanha clamando pelo seu uso com mais bom senso. O fato de uma ferramenta tecnológica possibilitar retoques fotográficos não significa que possa ser usado indiscriminadamente. O photoshop é utilizado, entre outras coisas, para fotos de alimentos também. Tira-se uma sujeirinha do tomate, incrementa-se o seu vermelho, torna-se o fruto mais apetitoso. Nenhum problema: ninguém sonha em ser um tomate. Mas as mulheres sonham em ser uma Cameron Diaz.   

*

Eu tive essa experiência uma única vez, quando fui fotografada para uma matéria de uma revista feminina, acho que faz uns dois anos. Quando vi as fotos publicadas, bateu um estranhamento. Pensei: ok, tô bonitinha, só que não sou eu. Não que eu tenha rugas e bolsas embaixo dos olhos: não tenho quase nada, a genética da família é forte. Minha mãe, aos 72, tem pouquíssimas rugas, e minha avó, que faleceu aos 90, parecia ter uns 15 anos menos. Mesmo assim, a foto da revista era irreal. Os outros poderiam não notar, mas percebi na hora. Claro que, por um lado, a vaidade agradece, mas por outro, é um incômodo. Eu pensava: como vão acreditar no conteúdo da matéria, como vão confiar que estou sendo sincera, se meu rosto não corresponde à verdade?  

*

Segredos de beleza, meninas: um pouquinho de maquiagem, sim (mas não muita, porque maquiagem demais envelhece) e, no mais, uma boa iluminação, luz é tudo. Sem esquecer a luz que vem de dentro: felicidade rejuvenece. E também a personalidade, o carisma natural e uma noite bem dormida. Ah, na matéria da revista Elle, uma das entrevistadas diz que o momento em que as mulheres ficam mais bonitas é logo depois que fazem amor. Adorei. 

*

Belíssimas e belíssimos, até a próxima.

 

 

 

 

 

 

Postado por martha medeiros

Um filme, um livro

13 de dezembro de 2009 23

Olá!

Assisti ao mais recente lançamento de Pedro Almodóvar, Abraços Partidos. Apesar de não ter me provocado o mesmo encantamento de outros de seus filmes, como Fale com Ela (o meu preferido), ainda assim há inúmeros motivos para se assistir a mais essa obra do diretor espanhol. Pra começar, o filme é uma homenagem à sétima arte e a inúmeros diretores (em certo momento parecia que eu estava vendo um filme do Hitchcock) e uma homenagem ao seu próprio cinema, recriando dentro de “Abraços” a linguagem de “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, filme que o popularizou internacionalmente. É um melodrama bem aos moldes almodovarianos: kitsch e moderno ao mesmo tempo. Tem Penélope Cruz, lindíssima e talentosa como sempre; tem o cenário da ilha vulcânica de Lanzarote (onde mora o escritor Saramago) que é uma paisagem estranha e dramática; tem uma trilha sonora muito eficiente para pontuar momentos de clímax e tensão; e por fim tem a mão habilidosa de Almodóvar, que sempre desperta inúmeras sensações em seus espectadores, mas nunca a indiferença.

*

E estou lendo o novo livro de Lionel Schriver, a mesma autora do perturbador “Temos que falar sobre Kevin”. Agora ela vem com O Mundo Pós-Aniversário, em que narra a vida de um casal que vive junto há quase 10 anos, numa relação estável e satisfatória, até que a mulher sente, uma noite, uma vontade quase incontrolável de beijar outro homem, que vem a ser um amigo do marido. Um beijo, apenas um beijo, algo tão trivial nos nossos dias. No entanto, esse beijo é o estopim para uma profunda reflexão sobre as relações humanas. O livro se divide entre o que teria acontecido se ela realmente beijasse o homem por quem se sentiu atraída, e o que aconteceria se ela não beijasse, ou seja, a cada capítulo, mostra-se as consequências de a gente sucumbir a um desejo e as consequências de a gente reprimir um desejo. Não terminei o livro ainda, mas estou achando muito interessante e aguardo um final que me surpreenda – tudo indica que não vou me decepcionar.

*

Bom início de semana a todos, beijos.

 

Postado por martha medeiros

Ruídos na comunicação

09 de dezembro de 2009 49

Certa vez alguém disse (acho que foi o publicitário Nizan Guanaes, mas não sei se a frase é dele ou se estava citando alguém) que comunicação não é o que a gente diz, e sim o que os outros entendem. Através dos comentários deixados aqui sobre meu último post, dá pra perceber que me comuniquei muuuito mal, pois vários leitores não entenderam que eu estava fazendo uma analogia: aproveitei esse boato de que o programa Toma Lá Dá Cá (que nunca assisti, portanto não tenho nada contra, absolutamente nada) iria sair do ar para fazer um paralelo com o toma-lá-dá-cá da política brasileira. Achei que estava sendo clara, clareza que costuma ser característica dos meus textos, mas pelo visto, foi um tiro n´água. Ironizar, usar metáforas, tudo isso é sempre um perigo. Um dia eu aprendo. Mas pra não perpetuar a confusão, editei o texto, deixando minha ironia mais explícita na segunda frase. O resto está mantido. 

*

Para os interessados no calendário poético do Mario Benedetti, o site é

http://www.casadellibro.com/lectura-calendario-benedetti-2010/1484724/2900001340170

*

Beijos!!

 

Postado por martha medeiros

Toma lá, dá cá

08 de dezembro de 2009 55
                       
         Vai acabar o Toma Lá, Dá Cá, é o boato que corre.  
         Já pensou se fosse o toma-lá-dá-cá da vida real?
         Não precisaríamos mais testemunhar as cenas que se repetem há séculos na tevê e que ninguém acha engraçado. Atores de última categoria falando sempre o mesmo texto e interpretando o mesmo personagem. Um elenco canastrão que embolsa uma fortuna para perpetuar a própria caricatura e que apesar disso tem sempre um papel garantido: ano que vem eles estarão dando as caras na nossa telinha, de novo.
         Esse toma lá, dá cá está no ar desde muito antes de a gente nascer. E o que temos feito de prático contra esse repeteco imoral? Nada. Ligamos a tevê, sentamos no sofá e assistimos. No dia seguinte, comentamos com o vizinho, com o colega de trabalho: você viu aquela cena da meia? É só uma variação da cena da cueca feita por aquele outro. E o que você achou da cena dos atores rezando depois do golpe efetuado? Ah, essa ao menos foi original.
            Só tem bandido nesse enredo. E a emissora não dá a mínima pra baixa qualidade da produção: muda o dono do negócio de quatro em quatro anos, de oito em oito, e ninguém tira essa indecência do ar. Seguem todos na grade da programação. Atrás das grades, nem um único figurante. 
         Mas vai acabar o toma lá, dá cá, ouvi dizer.
         Eu só acredito não vendo. Não vendo mais o dinheiro passar de mão em mão entre as estrelas da vigarice instituída, enquanto a audiência de patetas segue assistindo toda essa encenação feita pelos “representantes” do povo.
         Só acredito não vendo mais esses charlatões soltos e se reproduzindo fora do cativeiro, ladrão gerando ladrão. Só acredito não vendo mais as imagens filmadas em Brasília, a maior cidade cenográfica do mundo, a ilusão de ótica da política brasileira, uma capital de fachada.   
         É a celebração do amadorismo: não há qualidade de áudio e vídeo, o figurino é uma pobreza, os diálogos são sofríveis, mas não é por falta de caixa. O dinheiro sobra e todos roubam a cena e o que mais conseguirem levar.      
         Esse toma lá, dá cá é um erro histórico e eterno. Um festival de falhas de gravação, em que ninguém faz nada direito e acabam rindo por último. Nunca deram a mínima pra quem está por trás das câmeras, assistindo tudo de dentro de casa. A audiência é algo que eles têm na mão, já que do lado de cá ninguém se move, ninguém faz nada pra tirar essa história do ar. Por isso ela se repete há gerações, o mesmo roteiro requentado, os mesmos tipos, o mesmo texto. Um deboche. Uma novela sem previsão de último capítulo e que abusa das reprises.  
         Dizem que o Toma Lá, Dá Cá vai acabar. O programa do Falabella, eu não sei, mas o toma lá dá cá dos políticos, pelo visto, terá vida eterna. Como a reação popular não salta dos jornais para ganhar as ruas, tudo indica que seguiremos na mão desses artistas.
Beijo!

Postado por martha medeiros

Consciência ambiental

07 de dezembro de 2009 13

Oi!! Já que hoje se está discutindo aquecimento global em Copenhagen, deixo aqui um vídeo que achei muito bacana. Mensagem simples e contundente. Beijos!!

 

 

Postado por martha medeiros

Um pacto com a esperança

05 de dezembro de 2009 31

Quando me perguntam o que existe de melhor na minha profissão, eu costumo citar muitas coisas: poder compartilhar o que penso e sinto com um monte de gente, poder trabalhar em casa, a vaidade de ver meu trabalho reconhecido, descobrir que o que escrevo pode se transformar em cinema, teatro, música, e ainda ganhar uns pilas honestos, que jamais farão de mim uma milionária, mas que permitem que eu viva dignamente e que sustente o meu maior prazer, que é viajar.  

*

Bom, mas faltou citar o mais importante de tudo. Através do meu trabalho, tive e tenho a oportunidade de conhecer pessoas com quem normalmente eu jamais cruzaria. Desde artistas de quem sou fã absoluta e que acabaram se tornando amigos com quem troco telefonemas, e-mails e encontro eventualmente quando vou ao Rio e S. Paulo, até pessoas “normais” que me conquistaram por sua gentileza e carinho. Sempre conto a história da Marcia Corban, uma brasileira que mora na Suiça há uns 20 anos, e que ao ler o Divã, se prontificou a traduzí-lo pro francês, de tanto que se apaixonou pelo livro. Depois de uma troca frenética de e-mails, eu autorizei e, pra encurtar a história, ela acabou virando minha agente literária para assuntos internacionais: através dela o Divã já foi traduzido para outros idiomas. Porém o mais incrível é que nos tornamos amigas íntimas, a ponto de a literatura deixar de ser o que nos une, e sim nossas profundas afinidades. 

*

Mas hoje quero citar algo que me comoveu. Há alguns anos, uma mineira simpaticíssima começou a me escrever e a me telefonar pedindo que eu fosse a Belo Horizonte para um bate-papo organizado por ela, numa entidade que agora não vou lembrar o nome, sorry. Acabei indo e conhecendo essa mulher vital, animada e energética que se chama Marilda Aquino, e conhecei também o enteado dela, Rodrigo Aquino, cantor e compositor que está se lançando no mercado musical já com uma repercussão ótima do seu trabalho, e também a Lucia, uma amiga da família, e a Selma, locutora de uma rádio local, e de quebra ainda fiz amizade com a Angela e a Ludmila, mãe e filha, duas fantásticas produtoras de eventos, que fazem BH vibrar no cenário artístico. Mas é da Marilda que quero falar. 

*

Hoje de manhã saí para dar minha caminhada diária e quando retornei ao prédio, o porteiro me entregou um pacote enviado por sedex. Olhei o remetente: Marilda Aquino. Pensei: será que a Marilda, tão afetiva, está me mandando uma lembrancinha de Natal? Abri o pacote e meu coração disparou, com o perdão da pieguice da cena. Mas foi assim, não tem como contar de outro jeito. Dentro do pacote estava o calendário poético do Mario Benedetti, aquele calendário que tentei comprar no aeroporto de Granada, na Espanha, aquele que pensei em roubar porque a vendedora simplesmente não facilitou minha vida, já que não havia um preço estipulado para o produto, enfim, aquele que acabou rendendo um post sobre roubo de livros, que coloquei no ar dias atrás. Marilda fez uma coisa muito simples, que eu poderia ter feito, mas não fiz. Ela garimpou o produto pela internet, o encontrou num site de compras, encomendou, recebeu a encomenda em sua casa, escreveu um belo cartão e agora fez a encomenda chegar ao meu apartamento, à minha escrivaninha, de onde escrevo neste instante pra vocês, com o calendário já aberto sobre a minha mesa. 

*

Parece uma coisa simples. Não é. É um ato amoroso, delicado e cada vez mais raro, feito por uma pessoa com quem não tenho intimidade, mas que de certa forma se sentiu impulsionada a me retribuir pelos textos que escrevo. Me diga: tem coisa mais bacana do que as pessoas manifestarem seu carinho assim, de forma tão elegante? Ou sou eu que ando muito sentimental… Que seja. Espero permanecer sentimental até 2012, quando, dizem, o mundo vai acabar. Mas se as pessoas seguirem exercitando gentilezas como as da Marilda, não acaba não.

*

Ah, tá me achando muito boazinha? Nada! Quem leu o post sobre minha frustração no aeroporto espanhol sabe que eu queria comprar o calendário pra dar de presente para um amigo. Vou dar. Vou tentar buscar esse site que a Marilda encontrou, vou copiar passo a passo a dedicação dela, mas este que chegou hoje aqui em casa é MEU!!!!

*

No calendário, há um poema para cada dia do ano. Deixo aqui transcrito o poema de primeiro de janeiro de 2010, totalmente dentro do clima do que aconteceu nessa minha manhã de sábado. 

“Tengo las manos llenas de caricias

para sembrar en uma carne fértil

y he hecho un pacto com mis esperanzas

para que nunca nos abandonemos”

(Mario Benedetti)

*

Beijos, bom findi!!!! 

 

 

 

Postado por martha medeiros

Vozes

02 de dezembro de 2009 19

Olá!

Ontem recebi um e-mail de uma amiga me recomendando o filme O Fantástico Sr. Raposo, em que George Clooney faz uma interpretação magistral usando apenas a voz, segundo ela. Fiquei curiosíssima pra assistir. Eu sempre me liguei muito na voz das pessoas, acho que é um atributo importante. Às vezes ouço uma pessoa falar e a voz me parece tão irritante que eu penso: “puxa, é uma pessoa legal, mas não sei se eu conseguiria ouvir essa voz o dia inteiro”. Maldade, maldade.

*

Quando penso na importância da voz, sempre lembro da Xuxa. Eu não tenho a menor dúvida de que uma das principais razões de ela ter feito tamanho sucesso junto às crianças foi sua voz, que parece a de um personagem de desenho animado. Coincidentemente, li outro dia numa revista que ela declarou que não gosta da sua voz. Não sei se é verdade, mas se for, compreendo. Essa voz infantilizada que ela tem ajudou a construir a personagem “rainha dos baixinhos”, mas hoje ela é uma mulher madura, não demora fará 50 anos, e a voz segue a de uma menininha de quatro anos. Uma menininha chata de quatro anos. Mas taí uma cirurgia plástica que não existe, ao menos que eu saiba. Alguém muda de voz, a não ser os meninos, durante a adolescência? A biografia do Caio Fernando Abreu escrita pela Paula Dip revela que ele odiava a própria voz quando era garoto. Todo mundo pegava no pé dele e isso o mantinha calado. Só quando adulto é que sua voz, de um dia pro outro, ganhou um tom que deixou de o envergonhar. 

*

Se eu pudesse escolher uma voz pra mim, seria a da Ana Maria Braga. Feche os olhos e ouça: ela tem uma voz classuda e sexy. Não que a minha faça feio, mas tampouco é memorável. Creio que entra na categoria das normais. Se for irritante, não me digam. Eu não tenho o menor talento pra ficar muda. 

*

Toda essa introdução pra falar de quem? Pois é, do Lombardi. Achei estranho ver minha filha de 18 anos entrar na sala hoje pela manhã dizendo que o Lombardi havia morrido. Como é que essa menina, com tão pouca idade, que vive grudada no computador, que só assiste programas de canais a cabo, que é viciada em cultura japonesa e vive conectada no mundo, conhece o Lombardi? Que ela conheça o Silvio Santos, ok, quem não? Mas ela não teve a convivência com o Lombardi que a minha geração teve: ele era locutor do SBT há 40 anos!! Fez parte do meu imaginário por muito tempo, quando eu ainda via alguns programas do Silvio Santos. Achei que minha filha jamais saberia quem foi o Lombardi, mas quando eu contei isso a ela, levei um puxão de orelhas: “Hello, né, mãe?”        

*

Eu nunca tinha visto uma foto dele. Não sabia se ele era moço, velho, loiro, moreno, caolho ou se a cara do George Clooney. E não me fazia falta saber. Era “a voz” e fim. Uma voz programada para responder as convocações do patrão nas tardes de domingo. Uma voz em silêncio nos outros dias da semana. O Lombardi era o Louro José do Silvio Santos, mas a voz do Louro José não vai deixar saudades, é mais uma entre tantas caricaturas. A voz do Lombardi tinha personalidade. Todo mundo queria imitar a voz do Lombardi, o que rendia boas piadas e selou seu reconhecimento. Foi um homem que não dependeu da própria imagem para existir e fazer parte da história da televisão brasileira. 

*

Beijos!!

 

Postado por martha medeiros