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Tremores

28 de fevereiro de 2010 13

Olá!

Muitos de vocês devem saber que vivi oito meses em Santiago do Chile, de outubro de 1993 a junho de 1994. Foi uma época muito bacana da minha vida e até hoje tenho um carinho enorme pela cidade. Lembro que falavam muito sobre a possibilidade de terremoto por lá, em função da localização geográfica do país, que fica em cima da divisa de duas placas tectônicas. Felizmente nunca testemunhei nada como o que aconteceu na madrugada do último sábado, mas os “temblores” (pequenos tremores) eram quase corriqueiros. Eu morava no sexto andar de um predio e de vez em quando sentia um leve abalo, mas era muito sutil, nada que assustasse. A recomendação era de que, no caso de algo mais vigoroso, deveríamos nos proteger embaixo do batente da porta de entrada do apartamento. Nunca foi preciso. No entanto, um ano depois, em 1995, me assustei pra valer. Estava em Los Angeles, dormindo num hotel, de madrugada. De repente, acordei com a cama se mexendo. Fiquei paralisada. O lustre do quarto também sacudia. Isso durou dois ou três minutos, o suficiente para eu perceber que não estava tendo um pesadelo, era de verdade. Não saí da cama, fiquei deitada. No dia seguinte, fui direto comprar um jornal para saber o que havia acontecido. Na mosca: “Earthquake”!

*

Quando eu tinha uns 14 anos assisti ao meu primeiro filme catástrofe, que chamava-se justamente “Terremoto”, com Charlton Heston e Ava Gardner. Lembro que vi num cinema do Rio que tinha dolby stereo, uma novidade na época: cada vez que a terra tremia na tela, o cinema tremia junto. Os efeitos especiais seriam de dar risada hoje, mas na época as imagens impressionavam. Lembro que fiquei fã de uma atriz que também trabalhava no filme, chamava-se  Geneviéve Bujold, nunca mais ouvi falar dessa criatura.

*

O planeta não está para brincadeira. Ainda recordo bem dos momentos angustiantes que vivi em março de 2004 (era 2004?) quando um ciclone arrasou com Torres, cidade litorânea que fica na divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Naquela época, eu ainda era casada e tínhamos um apartamento na cidade. Acabei de reler o texto que publiquei na época sobre o episódio e achei curioso o fato de eu dizer que aquele fenômeno não se repetiria tão cedo: hoje eu não estaria tão certa. A natureza tem mandado seus recados com bastante frequência. Reproduzo abaixo o texto que foi publicado no jornal Zero Hora dias depois do susto.    

                                
   
                                      NO OLHO DO FURACÃO
 
             Já havia testemunhado tremores de terra em Santiago do Chile, onde vivi, mas nunca passei por nada parecido com o que ocorreu na madrugada de sábado para domingo, em Torres. Cheguei sexta à noite com minha família para passar o final de semana. Na manhã de sábado, a boataria sobre o tal ciclone já corria a cidade, mas o pessoal encarou o assunto como uma provável aventura, e não como uma ameaça real. Por via das dúvidas, fechei bem todas as janelas do nosso apartamento, que fica no oitavo andar de um prédio localizado a três quadras da praia. Retirei os móveis que costumam ficar na sacada e achei que com essas providências poderia dormir tranqüila. Às 23h, começou a ventar forte e fui deitar. Poucos minutos depois acabou-se qualquer possibilidade de sono e descanso. O barulho era ensurdecedor. O zunido do vento misturava-se ao estilhaçar de vidraças, alarmes disparados, transformadores explodindo, e tudo isso sem enxergar um palmo lá fora por causa do blecaute. Não bastasse essa trilha sonora do inferno, o prédio jogava. Parecia que estávamos num barco, com direito a todos os clichês do gênero, como lustres balançando e quadros tortos.
Pensamos em descer até o hall do edifício, mas uma inspeção prévia confirmou que não seria boa idéia. A porta do prédio estava em frangalhos, havia cacos de vidro, água da chuva e areia espalhados por tudo. Melhor ficar onde estávamos: no oitavo andar, à luz de velas, matando o tempo com umas ave-marias.      
         Depois de uma madrugada insone, a luz do dia mostrou o resultado da passagem do Catarina. Em frente ao meu prédio, uma praça, outrora florida, abrigava um poste de luz deitado sobre a grama. Ao lado dele, um sofá de vime, que havia voado de algum apartamento vizinho. Muitos estilhaços. Pedaços de cortina e de forro de gesso. Lâminas de zinco arrancadas de garagens. Praticamente nenhuma árvore de pé. Desolador.
         Eram 7 horas da manhã de domingo e toda a população estava nas ruas, tentando acreditar nos próprios olhos. A reação era de perplexidade. Por sorte, o prejuízo foi, em sua maior parte, material. E o que é material se reconstrói, se compra, se ergue outra vez. Telhas, janelas, letreiros, voltarão todos pro lugar. Bem diferente de uma guerra. Dizer que somos sobreviventes é um exagero e uma injustiça com aqueles que perdem suas famílias em combates estúpidos. Tivemos apenas um confronto incomum com a natureza. Foi apavorante, mas excepcional. Não deverá se repetir tão cedo. E, se acontecer, que a experiência ensine: na dúvida, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta – a população deve ser alarmada com seriedade e insistência, não se pode contar apenas com aquilo que “se ouviu dizer”. Boatos não provocam mobilização. Em contrapartida, nós, população, precisamos também aprender a confiar mais: totalmente desinformados não estávamos. 
 
                                      —————————–
                                                                 

 Minha solidariedade aos chilenos, bom início de semana e terra firme para todos!

  

 

   

Postado por martha medeiros

Comentários (13)

  • Zeca Pinto diz: 4 de março de 2010

    Pois é Martha você morou no Chile e se lembrou de enviar um texto e nele manifestou a sua solidariedade ao povo chileno,há vários políticos brasileiros que foram acolhidos durante o exilio e até agora eu não li nada sobre isso.

  • Adelino Pinto da Silva diz: 28 de fevereiro de 2010

    Martha, só tive duas experiências. Simples. Uma, por incrível que pareça, no Rio, em 1962/1963. Às 22:15 de uma noite, fiquei meio tonto, e ainda ouvi um estrondo ao longe. Não soube explicar. No dia seguinte ao passar por uma banca de jornais lá estava a manchete um tanto exagerada: TERREMOTO NO RIO ONTEM À NOITE… Pouca gente percebeu.
    Um abraço. E uma semana muito feliz.

  • Taynná Monteiro diz: 1 de março de 2010

    Bem, nunca presenciei um desastre natural ou algo do tipo, mas sempre fui bem fã dos filmes de catástrofe. Lembro de quando vi `Twister` e ficava me imaginando fugindo daquele caos…
    O mundo está uma loucura, vai ver é o fim dos tempos, vai ver é sinal de pouca fé, vai ver não é nada disso mesmo, é só o mundo sendo ele mesmo.
    O fato é que fico com vontade de fazer algo por todo esse povo, dá vontade de trazer todo mundo pro Brasil e dizer que aqui não tem isso…
    Mas o pior, é que tem.

    Beijos!

  • V. Linné diz: 1 de março de 2010

    Martha.
    Abalos bons são aqueles causados por alguma paixão.
    Tremores bons são aqueles causados por arrepios na pele.

    Fora isso, nosso destino é o batente da porta.

  • Nathi Hecz diz: 1 de março de 2010

    Oi, Martha! Sabia que tinha vivido no Chile, mas não sabia dessa tua experiência com o ciclone em Torres. Deve ter sido angustiante. Me impressiono muito com desastres naturais – que nem tem sido tão naturais assim, temos dado uma mãozinha. Fico com o coração na mão quando vejo situações como as dos chilenos. Beijo, flor! =)

  • Priscila M. diz: 2 de março de 2010

    Tenho ficado assustada com a resposta que a natureza está dando a nós depois de tanto tempo. E ainda há questionamentos sobre a veracidade das informações dos cientistas.
    Martha, você leu a coluna do Jabor de hoje? Chama-se “Acabou o tempo do `happy end`”. Gostaria de saber sua opinião. Eu achei a discussão muito interessante.
    Beijos.

  • Roseli Ferraz diz: 1 de março de 2010

    Pois é Martha, a natureza está nos respondendo de acordo com o desrespeito q estamos tendo. Os fenômneos naturais estarão cada vez mais deixando rastros de destruição e mortes. Ocupamos lugares que não eram para nós e o pior, sem cuidados nenhum, de forma bagunçada mesmo.
    um grande abraço e ótima semana para vc tbém

  • Juliana diz: 2 de março de 2010

    O fato de um grande números de pessoas acreditarem, erroneamente, de que no Brasil não há terremotos e furacões atrapalha quando há necessidade de avisos de urgência.
    A própria área científica confundiu-se quando o Catarina foi identificado nos radares. Uns desacreditavam que tal fenômeno chegaria à costa fazendo com que, assim, a população soubesse apenas em partes o que realmente iria acontecer.
    A população brasileira, infelizmente, não está preparada pra fenômenos naturais que vem ocorrendo

  • Anderson Garcez diz: 2 de março de 2010

    Olá! Martha!
    Gostaria de saber se você fez um poema sobre Mario Quintana?! Eu tive a impressão de ver este poema num ônibus de Porto Alegre naqueles “Poemas no Ônibus”! Caso exista este poema, onde o encontro?
    Abração!
    Anderson Garcez

  • Adelino Pinto da Silva diz: 1 de março de 2010

    Martha, eu esqueci de contar a segunda experiência com “tremores” de terra. Em 1968, por causa de meu trabalho, morávamos em Belém (PA). Estávamos de férias no Rio quando soubemos da ocorrência de um “terremoto” naquela cidade.
    Retornando, já em Belém, comentei o fato com o motorista. Ele nos contou com algum “orgulho” que chegou a cair da rede em que dormia… Dei pouco crédito mas quando chegamos em casa vimos nossa árvore de Natal caída no chão da sala.
    Abraços

  • Rodrigo diz: 1 de março de 2010

    Temos que respeitar mais a natureza. O Brasil deixou de ser um país totalmente seguro -como afirmara-se- sem terremotos e furacões. Os tremores sentidos no nordeste e os frequentes ciclones aqui no Sul.
    Força, união e perseverança, é o que desejo aos chilenos!

  • Sayonara Lino diz: 1 de março de 2010

    Não consigo imaginar tal situação. Temos a sensação de estarmos sãos e salvos em nossas casas e de repente tudo vem abaixo ou asistimos a cenas que parecem ser cinematográficas.
    Parabéns pelo texto!

    Abraço!

  • Soni de Mello Santos diz: 2 de março de 2010

    Em 1982 eu estava com 27 anos e presenciei um acontecimento catastráfico na minha cidade. Num fusca 1977, meu marido diria o mesmo, com minha filha de um ano e 10 meses e meu filho de 10 meses nos braços, fomos sacudidos por um tornado no´pátio da Escola Poncho Verde de minha cidade. Em um tempo muito curto (alguns minutos) vivenciamos uma eternidade de sofrimento. Sobrevivemos , mas ficamos marcados por muito tempo pelo pavor frente aos temporais.
    Esse acontecimento jamais esqueceremos.

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