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Posts de março 2010

Antes da Páscoa

30 de março de 2010 20

Olá. Amanhã pego a estrada, vou fugir da cidade nesse feriadão, ando com saudades de ver o mar.

Como vou dar uma sumida do blog também, deixo com vocês o link para um vídeo que é uma preciosidade. É uma palestra de cerca de 20 minutos da escritora africana Chimamanda Adichie. Se você nunca ouvir falar dela, toque aqui, eu também não a conhecia, mas vale a pena ouvir o que ela tem a dizer sobre a importância de nunca nos conformarmos com uma única versão das histórias. As palavras delas deixam claro por que é tão importante lermos muito. Acredite: não é um papo chato. Ela é bonita, bem-humorada e inteligente. Vale a pena.

http://www.ted.com/talks/lang/por_br/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

*

E pra quem ainda não viu o argentino O Segredo de Seus Olhos, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, fica a dica também. Geralmente, quando sento na cadeira do cinema, tenho uma ideia prévia do que vou assistir, mas dessa vez fui pega de surpresa. Mesmo sendo um trhiller policial com muito suspense, há também espaço para o humor, e o humor que mais gosto, o humor sutil, irônico, verdadeiro, aquele que humaniza os personagens. O roteiro é mirabolante sem ser picotado, a tomada sem cortes na cena do estádio de futebol é de tirar o fôlego, e o final é surpreendente. Gostei muito, espero que vocês também.

*

Dizem que chocolate faz bem pra saúde. Lambuzem-se.

*

Beijos e boa páscoa!

Desculpe o sumiço

28 de março de 2010 28

Amigos, tolerância comigo. Atropelei a mim mesma, ando lotada de trabalho e com zero inspiração, o que é um inferno para quem escreve. Mas vai passar, tem que passar. Enquanto isso, deixo boas notícias. Meu livro de cartas fictícias Tudo que eu queria te dizer vai virar peça de teatro, com estreia já confirmada dia 16 de setembro no Teatro Leblon do Rio. Depois confirmo o elenco.

*

A peça Doidas e Santas, com Cissa Guimarães, estréia em Niterói dia 1 de abril e fica até dia 4. Depois desce para Porto Alegre e faz um tour pelo interior do Rio Grande do Sul. A programação:

10 e 11/04 – apresentações Porto Alegre – Teatro do Sesc

13/04 – apresentação GRAVATAÍ

15/04 – apresentação em SÃO LEOPOLDO
17 e 18 /04 – apresentações  em PASSO FUNDO
20/04 – apresentação em ERECHIM
E dia 28 de abril estréia no Rio, no Teatro Leblon – Sala Tonia Carrero – e fica até 25 de julho.
*
Confirmada minha presença em Bento Gonçalves dia 7 de abril, Joinville (SC) dia 15 de abril e Sapiranga (RS) dia 22.
*
Acabei de conhecer um site de moda e tendências que é muito bacana, acabo de dar uma entrevista pra eles, acessem: http://jjassessoria.wordpress.com/
*
Volto logo.
Beijos!

Poemas inéditos

20 de março de 2010 48

Conforme prometido, aí vão alguns poemas meus que nunca foram publicados. Saídos do forno só pra vocês. E assim encerramos essa semana poética. Gostaria de ter aberto espaço pra mais gente, gostaria de ter selecionado os poemas com mais calma, mas confesso que foi tudo feito na correria, tenho que reencontrar meu ritmo. Bom final de semana a todos!

*

meu caro estranho, nossa estranheza nos levou à cama
e seguimos nos desconhecendo
não perguntei de onde vieram tuas cicatrizes
e não me perguntaste se eu já havia usado o cabelo mais curto
simplesmente nos beijamos e dispensamos todos os porquês
fui uma mulher qualquer e fostes mais um homem
e se esse descompromisso não merece ser chamado de amor
ainda assim não carece ser desfeito e esquecido
meu caro estranho,
mesmo nos amores não há nada muito além disso
————————
o que eu lembro de nós, e teria tanto pra lembrar, são apenas as mãos entrelaçadas
naquela tarde numa mesa de calçada, era um bar, nada mais havia para conversar
tentamos dizer as últimas palavras, dar um epílogo decente ao nosso amor
mas nenhum sentimento era soletrável, parecíamos dois gagos rumo à desistência
então tuas mãos pegaram as minhas, teus dedos brincaram com meu anel
e nem era um anel dado por ti, jamais perguntaste sobre meu passado
e meus dedos encaixaram-se entre os teus, e as pontas dos polegares roçaram-se
e os chopes esquentaram, o silêncio tomou posse da mesa, nossas mãos de uma ternura que seríamos incapazes diante do final, e é delas que eu lembro, não envelheceram
te amo com as mãos até hoje, te escrevo, agora escreva pra mim, com as tuas
————————————————
que valentia é essa de que me vanglorio? a valentia de atravessar a rua
mas é da covardia de não me enfrentar que me alimento e sangro todo dia
apontassem uma arma para o meio da minha testa eu urinaria minha coragem
que eu sou valente é para a molecagem e não para o que presta
——————————————————–
Quantas histórias que eu não escrevi por recato
Da vez em que quase fui estuprada mas ele escapou antes
Da vez em que chorei dentro do ônibus com um cachorro-quente esfriando nas mãos
Não havia jantar em casa, estava sem dinheiro e tive pena de mim
O cobrador também, mas cobrou a passagem mesmo assim
———————————————————–
um, dois e quando me dou conta, já fui, me joguei
antes de contar até três disse o que não era para ser dito
fiz coisas que não era para ter feito
me arrebento rápido, nem dói de tão ligeiro
mentira, dói de qualquer jeito
————————————————————–
Beijos!

Ave, Quintana!

19 de março de 2010 23

Frases soltas, espirituosas e poéticas de um dos nossos maiores poetas, Mario Quintana.

*
Nós somos o que temos e o que sofremos
*
Diplomacia: ter a idade da pessoa com quem se fala
*
Filosofia é, em última análise, a triste arte de ficar do lado de fora das coisas
*
Que este mundo pode ser que não preste, mas é tão bom de ver.
*
Nunca me senti bem nas salas de estar. Salas de estar… Mas de estar o quê?
*
Sonhar é acordar-se para dentro.
*
Um poeta que se explica parece que está se desculpando.
*
Não se devia permitir nos relógios de parede esses ponteiros que marcam os segundos: eles nos envelhecem muito mais do que o ponteiro das horas.
*
Os extrovertidos são julgados normais. Quanto aos introvertidos, chegam a submetê-los a tratamento. Mas para curá-los de quê? De não poderem ser chatos, como os outros?
*
O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.
*
Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo.
*
Amizade: quando o silêncio a dois não se torna incômodo.
Amor: quando o silêncio a dois se torna cômodo.
*
Não gosto de estar dormindo nem de estar morto perto de ninguém.
*
Decifrar palavras cruzadas é uma forma tranquila de desespero.
*
O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.
*
Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.
*
Beijos!

Eles e os poemas

18 de março de 2010 12
Duas vezes Paulo Leminsky, que faz tanta falta.
Essa a vida que eu quero,
querida.
Encostar na minha
a tua ferida
*
abrindo um velho caderno
foi que descobri
antigamente eu era eterno
——————————————-
Um Michel Melamed sucinto:
Antes de mais nada, tudo.
———————————–
Rubem Braga!!!!! Resumindo a razão pela qual a gente não consegue
levar um rompimento adiante.
Tudo o que nos separava subitamente falhou
—————————————–
O sobrenome denuncia, ele é filho do homem: Francisco Bosco, tão
bom quanto o pai.
Quando alguém se torna um escritor?
Quando finalmente está insatisfeito.
*
Há os que só lutam quando são chamados
há os que só quando bem preparados
há os que sem luva- à mão livre, nua
*
Manuel Bandeira alertando:
A arte é uma fada que transmuta
e transfigura o mau destino
Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta.
Cada sentido é um dom divino.
—————————-
Antonio Cícero, irmão e parceiro musical de Marina Lima.
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la
Em cofre não se guarda coisa alguma
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-l, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
para guardá-lo:
para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarda o que quer que guarda um poema:
por isso o lance de um poema:
por guardar-se o que se quer guardar.
——————————
Quem ainda não conhece Fabricio Carpinejar? Conterrâneo. Conheça!
O que não chegou a ser dito existe
o que foi dito na hora errada existe
o que não quiseste dizer existe
————————-
E pra finalizar, um tal de Chico Buarque:
mesmo sendo errados os amantes
seus amores serão bons
————————————
Amanhã, apenas e muito Mario Quintana.
Beijos!

Versos de algumas mulheres

17 de março de 2010 19
Fala agora Vera Americano, poeta mineira de família goiana:
Postar-se
no desvão
entre dois argumentos,
por dois segundos
Respirar
economicamente
entre duas palavras,
duas ondas,
muito crespas
Decidir
em sãnscrita ilusão:
viver
ou deixar para mais tarde
*
Se não experimentas
o cimo
cala-se a montanha
Se a profundeza
não tocas
fecham-se as águas
*
E às palavras sem dono
o derradeiro aviso:
não estou
para ninguém
*
Nem longe,
nem perto:
esquerdo
Nem amor,
nem ódio:
sossego
Nem feliz,
nem triste:
humano.
*
Às vezes,
viver
é a pura dor
do nosso baú de enigmas
——————–
Aí vem ela, o furacão Elisa Lucinda, em pequenos drops poéticos e um poema completo no final.
alguém sempre chega
aguém sempre demora
*
eu te amo
pelo que nos acontece
*
Meu desespero
e quando até as aeromoças sentam
*
Talvez você se depare com seu medo
bem no meio
da sua coragem
*
A vida não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre em nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!
———————————-
Adélia Prado, a mestre de todas nós.
Casar, ter filhos,
foi tudo só um disfarce, recreio,
um modo humano de me dar repouso
*
Eu quero a revolução mas antes quero um ritmo
*
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
*
Nada nunca está morto
O que não parece vivo, aduba

O que parece estático, espera.

Beijos!

Poemas de Marcelo Pires

16 de março de 2010 9

Marcelo Pires. Talvez você já tenha escutado esse nome em algum lugar. Vai ver porque ele é um dos publicitários mais conhecidos do país, trabalhou muitos anos na W/Brasil. Talvez lembre de uma coluna que ele assinava na Capricho chamada PS do PS do PS. Ou de uma coluna que ele escrevia na revista da MTV. Mas se nunca ouviu falar, então mais do que nunca, guarde esse nome, por isso: 

O mar é orla, diz um,
horizonte, diz outro,
o mar é onda, diz um,
oceano, diz outro,
o mar é espuma, diz um,
estrelas, diz outro,
o mar é porto, diz um,
piratas, diz outro,
 
o mar é ilha, diz um,
leme e quilha, diz outro,
o mar é enjoo, diz um,
meu voo, diz outro,
o mar é âncora, diz um,
atlas, diz outro,
o mar é cais, diz um,
mais, muito mais, diz outro,
 
o mar é fundo, diz um,
espelho, diz outro,
o mar é concha, diz um,
infindo, diz outro,
o mar é areal, diz um,
portugal, diz outro
 
és argonauta, diz um,
gaivota, diz outro,
és o que vai, diz um,
e o que volta, diz outro,
maior o mar, diz um,
amor maior, diz outro.
 
*
 
cascos vazios de ontem
cacos de ontem à noite no chão
 
cascas e frutas de ontem à noite
nacos de ontem à noite no pão
 
manchas mechas prólogos
volte hoje à noite
 
a noite volte logo
 
*
 
Ninguém faz Amor
O Amor é que se faz,
o Amor é que nos faz
um homem, uma mulher
e tudo mais que a Ele
ou a Ela, Amor, convier
 
Amor só se desfaz
caso amantes insistam
em melhorar o Amor.
Não existe Amor pior,
Amor é escassamente
Amor, e já é tanto
 
Amor não faz de conta
Amor, não é ator, não é atriz.
E se agora nós dois
fazemos, refazemos,não foi por (nos) querermos
O Amor foi que nos quis.
 
*
 
Vai saber se o careca que dirige o carro
que acabei de deixar passar à minha frente
não é ex-torturador do exército brasileiro.
Se o mendigo que na esquina finjo ignorar
não é o maior poeta da lingua portuguesa.
Se o adolescente fedorento e barulhento
que me impacienta na videolocadora
não será o médico que, nesta mesma fila,
vá salvar minha vida daqui a alguns anos.
Se a menina que grita e chora na pracinha
vá se tornar o amor da vida do meu filho.
Se a autora de um livro que folhei por acaso
não venha a ser mãe desse filho, e meu amor.
Se o homem que todo dia não me cumprimenta
e eu não cumprimento no lento elevador
venha a ser, finalmente, o presidente íntegro
da quente república em que sobrevivemos.
Se a pessoa que liga e diz “desculpe, engano”
seja apenas uma pessoa que ligou,
desculpe, por engano. (Mas, a esta hora? Estranho).
Vá saber conviver com mil e tantas gentes
tanto passado, tanto futuro, presentes.
 
*
 
O que houve?
O que cala?
Algo se move?
Qual móvel estala?
Nunca soube o que tanto,

tanto silêncio fala.

 

Beijos!

Postado por martha medeiros

Plantão de notícias

16 de março de 2010 4

Interrompendo os poemas: só pra avisar que o evento Leitura em Ação que eu participaria amanhã no Rio foi cancelado. Adiamos para 18 de maio.

Logo mais entrarão aqui no ar os versos do gaúcho Marcelo Pires.

Beijo!

 

Postado por martha medeiros

Poesias de Viviane Mosé

15 de março de 2010 18

Hoje a página é dedicada a alguns versos da capixaba Viviane Mosé, grande poeta e filósofa. Aviso que nem sempre reproduzo o poema inteiro, apenas algumas frações. Mais adiante vem Leminsky, Quintana, Marcelo Pires… aguardem.   

 

Acho que a vida anda passando a mão em mim
Acho que a vida anda passando
Acho que a vida anda
Em mim a vida anda
Acho que há vida em mim
A vida em mim anda passando
Acho que a vida anda passando a mão em mim
 
Não é uma gripe, um joelho ralado.
Não é garganta inflamada.
Nem piolho.
Não é sinusite, otite, cansaço.
Não é o que passa com antibiótico, analgésico.
Picada de inseto, bicho-de-pé, dor de cabeça, não é
É um desacerto, um desconforto, um desatino, uma dispersão
A terra chama alguém pro chão
Mas eu não, eu não
Ainda não sei morrer
Ainda não sei não
*
 
A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos
Abcessos, tumores, nódulos, pedras são palavras
calcificadas,
poemas sem razão
 
*
 
Cada um só sabe mesmo as coisas que suporta saber
Não sabe outras
 
*
Ando pensando em você e
isso engravida um pouco as coisas
*
E você, com quais palavras você se despe?
*
Beijos!

Postado por marthamedeiros

Poesia

14 de março de 2010 49

Fiquei sabendo por um amigo poeta que hoje, 14 de março, é dia nacional da poesia, e que domingo que vem, 21, é o dia mundial da poesia. Ele me sugeriu que aproveitasse esse meu espaço no blog para, de domingo a domingo, encharcar vocês de poemas. E aí, topam o mergulho? Pra mim será legal pesquisar livros e selecionar poemas que gosto, estou precisando mesmo me buscar em algumas rimas e palavras oníricas, e dependendo do meu ânimo, até postarei algum poema inédito meu. Mas enquanto ainda não começo a pesquisa, deixo hoje uma crônica  que nunca publiquei em jornal algum. Chama-se “Poesia Oculta”, essa que nos cerca diariamente e a gente não vê. Escrevi esse texto há alguns anos e ele ficou guardado, mudo, sem respirar. Vou soltá-lo agora para abrir a semana da poesia. E a partir de amanhã, autores diversos (de versos!!). Beijão.

 

 
                                        POESIA OCULTA
 
  
            Não, hoje não vou trabalhar. Acordei tão cedo que consegui ver os primeiros raios solares refletidos nos vidros dos edifícios, dando a eles uma coloração rósea que deixou a cidade com uma cara diferente da que ela costuma ter.  Havia ali, naquele instante, 6h47 da manhã, poesia. Uma poesia com a qual nossos olhos desacostumaram. Hoje não vou trabalhar, preciso procurar por ela, essa poesia oculta.
            E sei que vou encontrá-la em todo lugar, bastando pra isso a minha intenção. Começou. Já consigo vê-la na lombada dos livros que estão dispostos na estante, vários, um ao lado do outro, compondo um mosaico de cores e possibilidades. E vejo também na xícara de cafezinho, a louça branca, ao lado do jornal aberto, em cima da mesa, e um copo d´água, os três em colóquio matinal, clássicos do cotidiano. Ali: a poesia da caixa de fósforos quietinha na cozinha. Da mulher passando o batom na frente do espelho fingindo que não está vendo que seu marido a espia escondido, ele próprio também fingindo que já não se deslumbra com a cena.
            A letra caprichada da criança na primeira folha do caderno. A fila de táxi no ponto em frente ao parque, enquanto os motoristas conversam e fumam aguardando os passageiros. O carrinho de supermercado abandonado no meio do estacionamento depois que todos se foram, esquecido na noite. Os cachos ruivos que estão no chão de um salão de beleza mixuruca, onde alguém cortou o cabelo e
se arrependeu. A poesia oculta não é tão oculta assim.
            Um varal com roupas puídas, penduradas numa janela de um edifício antigo. A torcida de um estádio explodindo ao ver entrar em campo o seu time. Duas adolescentes de cabelos longos cochichando e rindo à saída do cursinho. O olhar perdido da mulher dentro do ônibus. Um guarda-chuva preto.
            Sua amiga que piscou o olho pra você lá do outro lado da festa, o afeto atravessando o salão e desviando dos convidados que separam vocês duas. A chama da vela que balança porque você está gargalhando. O casal que caminha na noite escura na beira da praia, agasalhados e agarrados, achando que ninguém os vê. Um resto de bolo dentro da geladeira.
            O canhoto do cartão de embarque no fundo da bolsa. A almofada que caiu do sofá da varanda por causa do vento. O vapor que embaçou o espelho do banheiro depois do banho. A mochila em cima da cama da sua filha. Seu filho dormindo.
            A poesia é uma fatalidade do olhar. Basta um frame de segundo e ela se revela, para então se esconder novamente atrás da pressa, do tédio, do desencanto, do hábito, do medo do ridículo que paralisa todos nós. Eu hoje não vim aqui para trabalhar, vim estimular o mistério.
 
 

                                           —————————–                                         

 

Postado por martha medeiros