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Inhotim e David Lodge

28 de junho de 2010 17

Olá!

Nesse último final de semana realizei um desejo: conhecer o Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, MG. Inhotim é um parque enorme que reúne diversas galerias de arte contemporânea junto a um jardim botânico de tirar o fôlego. A ideia, em si, é bárbara: unir obras de arte feitas pelo homem a obras de arte criadas pela natureza. Além das galerias, há também obras expostas a céu aberto. É um passeio imperdível. Brumadinho fica a cerca de 50km de Belo Horizonte, mas quem quiser saber detalhes mais precisos, pode acessar www.inhotim.org.br

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Gosto de arte e gosto de natureza, mas não deu empate: dessa vez, a natureza me impactou bem mais. De todo o passeio, foram as caminhadas entre as diversas espécies vegetais que mais me deram prazer. E também a parada estratégica para o almoço no restaurante do parque, um local moderno, charmoso, superbem decorado e com um buffet excepcional. Uma delícia almoçar embaixo das árvores, naquele ambiente inspirador.

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Quanto à arte contemporânea, não sou a pessoa certa para falar a respeito, porque não consigo abstrair o suficiente para entender as chamadas “instalações”. Gosto muito de pinturas, esculturas e de algumas experimentações que se fazem em nome da arte, mas experimentalismo demais me parece um embuste. Volto a dizer, não sou entendida no assunto, é opinião de uma leiga absoluta. Já vi muito coisa sem sentido (ao menos pra mim) em bienais de arte no mundo inteiro, e em Inhotim não foi diferente. Projeções de vídeos caseiros totalmente nonsense, vidros encostados na parede, salas vazias com sons obscuros saindo de alto falantes, salas escuras com efeitos de luzes… Entendo que a intenção é provocar os sentidos, mas a única coisa que isso desperta em mim é minha ignorância. As obras do pernambucano Tunga foram as que mais me atraíram, é uma porralouquice que abala, não mantém ninguém indiferente, mas fora isso, eu saía das galerias louca para ver as palmeiras, os lagos, as árvores, tudo o que realmente inspira essa caipira aqui.

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Sei que não precisamos entender tudo o que vemos, que a lógica não é uma aliada da arte, que o que importa é o sentimento despertado, mas tudo tem um limite.  Uma cadeira de pernas pro ar jogada no meio de uma sala, por exemplo, pode ser uma obra de arte e pode ser apenas uma cadeira de pernas pro ar, vai depender da interpretação do artista, interpretação essa que costuma estar exposta em pequenos avisos nas paredes, em que consta o nome do autor da engenhoca, o material empregado e o que eles quis dizer com aquilo. Sem a explicação, fica-se boiando. Eu fico, ao menos.

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Trocando artes plásticas por literatura: estou terminando de ler mais um livro de David Lodge, autor inglês que gosto muito. O título (ruim): Surdo Mundo. Você leu certo: Surdo Mundo, e não Mudo. Detesto trocadilhos. Detesto. Trauma de uma época longínqua em que eu trabalhava numa agência de propaganda em que algumas pessoas eram viciadas nesse humor sem graça, cujo único mérito é fazer malabarismo com as palavras. Argh.

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Mas voltando ao livro, que originalmente se chama Deaf Sentence. É a história de um professor aposentado que a cada dia fica mais surdo. Um relato inteligente, bem-humorado e terno sobre como as relações familiares e profissionais são afetadas pela convivência com alguém que possui uma deficiência que obriga a um remanejo de conduções e atitudes. A surdez sempre nos pareceu um mal menor (quem nunca disse “prefiro ser surdo a ser cego”?), mas há muitas dificuldades que essa carência auditiva invoca, e também algumas sutilezas curiosas: às vezes ser surdo pode ser um benefício em meio às nossas dificuldades naturais de comunicação, dificuldades que todos temos, você, eu, todo mundo.

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O livro é um romance genérico, não fica batendo apenas nessa tecla da surdez. Discute assuntos diversos, todos eles interessantes, envolvendo as filigranas dos relacionamentos e também fala sobre arte em geral e linguística em particular. Um livro rico de informações, e que além disso diverte e emociona. Recomendo.

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Coincidentemente, ontem, no avião, quando voltava de Minas, li um trecho em que o personagem do livro diz: “A maior parte da arte contemporânea é sustentada por uma estrutura discursiva, sem a qual simplesmente viria abaixo e seria indiferenciável de lixo”. Pode ser que David Lodge e eu estejamos redondamente enganados, mas adorei descobrir essa afinidade de pensamento com um autor que respeito tanto.

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Além de Brumadinho, conheci também a Serra da Rola-Moça e fiquei deslumbrada com essa região montanhosa, que visual! Estive em Minas a passeio, apenas a passeio. É possível que volte muito em breve para uma sessão de autógrafos, avisarei se for confirmado. Por enquanto, convido para um encontro no Centro Cultural Banco do Brasil dia 7 de julho em Brasília. A atriz Cassia Kiss lerá alguns textos meus e depois comentarei um pouco sobre meu trabalho.

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Beijos, boa semana a todos!

Comentários (17)

  • Fernanda diz: 28 de junho de 2010

    Martha,
    Sempre leio suas dicas aqui no blog, e adoro! Amo tudo que você cita aqui (viagens, livros, filmes…). Com relação a Inhotin, conheci este lugar inspirador no ano passado e tive as mesmas impressões que você! Amei o lugar e sempre que ouço alguém falar dele me dá uma saudade louca e vontade de ir de novo. Que lugar lindo e inspirador, os jardins e aquele restaurante lindo, no meio das árvores, com a comida deliciosa…e com relação as obras de arte, sinto exatamente o mesmo, ou seja, dúvidas com um enorme ponto de interrogação (também sou meio alhei a arte contemporânea, e suas instalações…). Bem, o lugar é o máximo, e o que curti mesmo foi a parte do paisagismo, feito pelo Burle Marx, maravilhoso…quero muito voltar lá e passar o dia só apreciando a arte da natureza…
    Beijos!

  • Deise Mesquita diz: 28 de junho de 2010

    Oi, Martha!
    Quando estive em Inhotim pela primeira vez, saí de lá meio confusa, assim meio gostando muito, meio não entendendo direito, mas o gostar muito falou alto e voltei. Foi quando almocei naquele restaurante delicioso, cheio de charme, como você disse. Seu relato situou melhor minhas emoções e racionalidades com relação àquele lugar: é isso mesmo, obrigada!
    Não deixe de avisar quando da sessão de autógrafos. Esta sua fã agradece!
    Bjs!

  • Mêlanie diz: 28 de junho de 2010

    Olá Martha. Adoro tudo que tu escreve. Teus textos são ótimos. Incríveis mesmo. Parabéns. Ah e esse encontro, no Centro Cultural, é no dia do meu aniversário. Pretendo estar lá para te ouvir.

  • Marloren diz: 28 de junho de 2010

    Gostei de ver que tem mais gente como eu que se sente meio ignorante perto da chamada arte contemporânea. Até me inspirou a escrever de novo no meu blog. Amei!
    :)

  • Roseli Venancio Pedroso diz: 28 de junho de 2010

    Oi Martha,
    Interessante que li a respeito desse lugar na semana passada na revista Terra da Gente e achei bem legal. Apesar de apreciar muito arte, concordo com você com relação a determinadas expressões artísticas. Mas, como você, não sou nenhuma expert no assunto.
    Agora você tocou num assunto que me atrai sempre: livros! E essa sugestão me agradou muito. Já vou anotar na minha lista para o acervo da biblioteca em que trabalho. A propósito, já leu Tantã, de Marie-Aude Murail? Vale a pena ler!
    Bjs

  • Gustavo Quadra diz: 28 de junho de 2010

    Que delícia! Adorei os comentários desse lugar que desconhecia…Deu muita, mas muuuuita vontade mesmo de conhecer! E aqui pertinho..Nunca estive em Minas, mas tenho um carinho, acho que tirando o carinho pelo Sul, única outra região que moraria seria em Minas.
    Que delícia 2: Ter Cássia Kiss lendo seus textos….Por que essas coisas não acontecem pelo CCBB no Rio?! Imperdível! Recomendo sem poder ir! rs
    Beijão, Martha!

    ps: Lendo Coisas da Vida

  • Sergio Brandao diz: 29 de junho de 2010

    Prezada Martha,
    Sou seu fâ e leitor assíduo desde o primeiro livro que li seu (acho que Divã), uns quatro ou cinco anos atrás… Gosto e me identifico muito com suas idéias e seus textos, sempre muito originais! Fui casado com a Cassia e tenho dois filhos maravilhosos com ela.
    Fico feliz de saber que vocês estarão juntas em Brasília, onde mora minha namorada.
    Parabéns! Gostaria de receber seus comentários e notícias.
    Bjs,
    Sergio

  • Gisele de Souza e Silva (Gihhh) diz: 29 de junho de 2010

    Flor…
    …sei que deve receber pedidos assim todos os dias
    mas, de qualquer forma arrisco….
    Preciso saber se escrevo bem ou devo parar com isso e continuar programando em java…
    (ou fazer as duas coisas).
    São textos curtos que comecei a postar em um blog conforme eles brotam na mente, em meio aos afazeres diários, aliados a imagens escolhidas a dedo para eles (ou vice e versa).
    Estou muito, muito muito no início…e uma opinião sua seria realmente especial e importante…por vários motivos.

    http://poedeque.blogspot.com

    Beijo!

  • Helaine diz: 29 de junho de 2010

    Muito bom saber que você estará aqui em Brasília no dia 7. Vou fazer de tudo pra ir ao CCBB.

  • Jessica diz: 29 de junho de 2010

    oi Martha!
    Adoro tudo que vc escreve. Eu e minha Mae brigamos, pois uma quer ler antes da outra.huashuas. Amamos as tuas notas!! bjuus

  • Fernanda Coutinho diz: 30 de junho de 2010

    Olá Martha,
    não acredito que esteve em Minas e no Inhotim esse fim de semana. Sou de Minas, estava no Inhotim esse fim de semana (coincidemente) e adoro seus textos.
    Por aqui, brincamos dizendo que o Inhotim é a Disneylandia das artes contemporanea, principalmente depois da ampliação das obras.
    Algumas obras lá também me incomodam…. e também me questiono: afinal o que é arte?Mas adoro o lugar. Os jardins são lindos o espaço e encantador… e o melhor é grudado em BH.
    Apesar do Inhotim ser um espaço de obras um tanto quanto sem sentido, possibilita um dialogo para sentido da arte. Ou para lavagem de dinheiro (como queiram) rolam boatos por essas bandas de que o Museu é uma forma de lavar dinheiro dos empresários. O dono do espaço estava envolvido no escandalo de Marcos Valério… enfim…
    Não sei se você ficou sabendo, mas anos atrás os ultimos 5 km antes de se chegar a Inhotim moravam pessoas de classe baixa, uma espécie de favela na beirada da estrada, e agora? Nada! Apenas belos jardins e uma estrada nova em folha!
    O espaço trouxe mudanças para aquela pequena cidade… e para pensarmos qual o sentido daquilo tudo.
    Mas no final das contas. Eu gosto.
    Só fiquei triste por não ter te visto por lá.
    Abraços,
    Fernanda

  • Miriam diz: 30 de junho de 2010

    Oi Martha!
    Acho que não preciso dizer que sou tua fã… já li alguns livros teus e sempre acompanho teu blog, mas hoje é meu primeiro comentário aqui.
    Sou gaúcha e estou morando em Ouro Preto desde o ano passado. Conheci Inhotim tem duas semanas e amei aquele lugar. Assim como tu, não consigo me sentir muito à vontade com arte moderna. Para mim, a arte tem que ser bonita, ou ter algum significado sem ler a explicação. Mas em Inhotim encontrei algumas obras que me tocaram, em especial aquela sala cheia de caixas de som reproduzindo uma peça polifônica. Também gostei muito do desvio ao vermelho e me senti muito bem na sala cheia de redes tocando Jimi Hendrix. Mas é claro que a exuberância da natureza vale mais que muitas galerias lá. Aliás, quero voltar para aproveitar mais aqueles bancos sob as árvores. Realmente maravilhoso!
    Tomara que confirme a sessão de autógrafos!
    beijos

  • Diego Vieira diz: 30 de junho de 2010

    Bom dia Martha !!

    Sou muito suspeito para falar de Minas e principalmente elogia-la, apesar de ser um “gauchão” de Passo Fundo, fiquei encantado com o estado em 2005 quando o visitei pela primeira vez…algo nesse lugar…a natureza o clima sempre ameno, agua muito mais leve e as pessoas sempre abertas a uma boa proza enfim, tudo aqui é encantador.
    Oportunamente uma proposta profissional me trouxe de vez para Minas Gerais, e não me canso de encantar-me cada vez mais com estado e as pessoas, a tantos lugares para ir e tantas pessoas a conhecer que por várias vezes a saudade do Rio Grande do Sul ja foi acariciada por uma bela paisagem ou por um “tiquim” de conversa num dia frio em frente a um fogão caipira.
    Não é atoa que a paleontologia registrou os primeiros fósseis de Dinossauros no estado de Minas Gerais e também acho que não foi por acaso que as maiores e mais importantes descoperta de fosseis foram feitas aqui.
    Da entender que eles, andando livres por ai tinham algo a mais do que a paleontogia descobriu.
    Os dinossauros tinha bom gosto na escolha do lugar para viver e principalemente morrer. Assim como nós (Gauchos).

    Beijo grande (você é a melhor)

  • Margareth Andrade diz: 30 de junho de 2010

    Martha, seus comentáris sobre INHOTIM expressam a mesma sensação que tive ao conhecer o local, as instalações e obras me deixaram a ver navios, eu queria mesmo era andar pelos jardins, pelo caminho das orquideas, palmeiras gigantes, gramas com verdes diferentes, paredes verdes e flores…muitas flores. Amei o lugar, é pertinho de BH e vale a pena conferir. Abraços mineiros pra vc!

  • Ana Maria Accorsi diz: 5 de julho de 2010

    Martha, já é a segunda ou terceira vez que leio você mencionar sua admiração por David Lodge. Somos duas. Minha admiração é tanta que escrevi minha dissertação de mestrado e minha tese de doutorado sobre sua obra. Li Deaf Sentence – trocadilho metaforicamente muito mais aceitável e contextualizado do que o ridículo título em português – e mais uma vez me surpreendi positivamente com meu amigo-romancista como um cronista de suas próprias experiências de vida: católico, professor de literatura, crítico e teórico da literatura e agora, ficando surdo. Antes mesmo de ele escrever esse romance, tentamos trazê-lo ao Brasil e ele já afirmava que estar em ambientes com muita gente deixava-o nervoso por não conseguir entender o que acontecia em sua volta. Pois ele nos brinda com essa obra irônica de sua própria condição.
    Essa é a maravilha da arte e que, ao aproximares com o teu desconforto frente algumas obras contemporâneas, fizeste ressaltar.
    Obrigada por indiretamente me incentivares a publicar meus trabalhos sobre Lodge.
    Abraços de uma admiradora literária.

  • Ariane Cieglinski diz: 25 de julho de 2010

    Oi, Martha!
    Estive em Inhotim há uma semana e é mesmo um lugar impactante. Aquela beleza toda me tirou o fôlego! E assim como tu, eu também curti mais a natureza em si do que as galerias de arte.

    Achei muita coisa desnecessária e meio anacrônica. No entanto, as palmeiras, lagos e o verde todo me fizeram pensar no quanto a natureza fica longe de nós. Nossas cidades se parecem mais com as galerias: meio frias ou surreias.

    Mas posso dizer:Inhotim me conquistou! Foi um dos mais belos lugares que eu já estive em toda a minha vida. E olha que já andei aí pelo mundo.
    Abraço,
    Ariane

  • Julio Castanheira diz: 17 de setembro de 2010

    Cara Martha,
    permita-me observar que se, segundo suas palavras, Inhotim despertou sua ignorância, abre-se diante de você uma excelente oportunidade para dela abrir mão.
    A função da arte é também abrir sua mente e questionar seus referenciais e a solidez de seu mundo, e se isto é feito em um óleo sobre tela ou através de instalações que beirem o non-sense é apenas uma questão incidental.
    Goya, Picasso, Caravaggio, etc etc cada qual a seu tempo fez isto, e se há artistas que queiram transcender a suave imaterialidade do óleo sobre tela saibamos apreciar o que nos propoem, com o coração desperto e a mente desconstruída de nossas certezas doces como o m(f)el.Apenas um trocadilho para te incomodar um pouco a mente.
    Saudações , Julio

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