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Posts de junho 2010

Os que erram o pênalti

30 de junho de 2010 11

Até ontem, eu nunca tinha ouvido falar em um jogador chamado Komano. Sendo mais sincera, acho que nem havia reparado que o Japão estava competindo na Copa. Mas aí aconteceu a primeira disputa de pênaltis do Mundial, entre as seleções do Paraguai e Japão, e com a tevê ligada na sala, parei. E sofri. Que coisa mais angustiante é uma disputa nos pênaltis. Quando Komano chutou no travessão, quase chorei, não estou brincando. Fico pensando no que um atleta sente nessa hora.

Depois de anos de treino, depois de passar pelas eliminatórias e conseguir participar da maior competição esportiva do mundo, e então passar pela primeira fase (pela primeira vez), e finalmente jogar 120 incansáveis minutos em busca de uma classificação, vai tudo por água abaixo por causa de um chute mal mirado. Ninguém esquece uma coisa dessas.

Ok, aqui no Brasil já esquecemos, estamos nem aí pro Komano e para os demais jogadores da seleção do Japão, mas esse nome ficará gravado na mente dos nissei, sansei, yonsei, sei lá.  O povo japonês é educado e não vai condená-lo por ter errado, isso pode acontecer com qualquer um, mas Komano não se perdoará tão cedo, a terra do sol nascente virou, para ele, a terra do sol poente, o mundo escureceu, ele mal deve ter conseguido encarar seus colegas. Abra os olhos, Komano: hoje ninguém está falando mais nisso. Aliás, acho que só eu mesma pra ainda lembrar do que aconteceu ontem. Ontem foi há 200 anos.

É que fico sensibilizada com os azarões.  Com goleiros não existe azar na hora do pênalti.  Se ele não defende, tudo bem, a maioria dos pênaltis são mesmo indefensáveis. E se defende, sai consagrado. Mas com o batedor é o contrário. O que converte não está fazendo mais do que sua obrigação, já o que põe tudo a perder costuma ficar marcado, mesmo que os parceiros digam, não foi nada, não foi nada.

Komano, não foi nada. Você poderia ter sido protagonista de uma falha mais grave, um erro médico, uma obra mal erguida, um desvio de verba, mas apenas desviou a bola um pouco mais pro alto do que deveria, faltou paz de espírito. Medite. Há coisas piores na vida do que desperdiçar um pênalti e isso desclassificar sua seleção.

(Mas, durante uma Copa do Mundo, não posso imaginar o quê).

Que a gente não passe por essa tortura na próxima sexta-feira e derrote os holandeses no tempo regulamentar, com um belo futebol. Decisão por pênaltis é pra quem tem o coração forte – e sorte!

Beijos!

Inhotim e David Lodge

28 de junho de 2010 17

Olá!

Nesse último final de semana realizei um desejo: conhecer o Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, MG. Inhotim é um parque enorme que reúne diversas galerias de arte contemporânea junto a um jardim botânico de tirar o fôlego. A ideia, em si, é bárbara: unir obras de arte feitas pelo homem a obras de arte criadas pela natureza. Além das galerias, há também obras expostas a céu aberto. É um passeio imperdível. Brumadinho fica a cerca de 50km de Belo Horizonte, mas quem quiser saber detalhes mais precisos, pode acessar www.inhotim.org.br

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Gosto de arte e gosto de natureza, mas não deu empate: dessa vez, a natureza me impactou bem mais. De todo o passeio, foram as caminhadas entre as diversas espécies vegetais que mais me deram prazer. E também a parada estratégica para o almoço no restaurante do parque, um local moderno, charmoso, superbem decorado e com um buffet excepcional. Uma delícia almoçar embaixo das árvores, naquele ambiente inspirador.

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Quanto à arte contemporânea, não sou a pessoa certa para falar a respeito, porque não consigo abstrair o suficiente para entender as chamadas “instalações”. Gosto muito de pinturas, esculturas e de algumas experimentações que se fazem em nome da arte, mas experimentalismo demais me parece um embuste. Volto a dizer, não sou entendida no assunto, é opinião de uma leiga absoluta. Já vi muito coisa sem sentido (ao menos pra mim) em bienais de arte no mundo inteiro, e em Inhotim não foi diferente. Projeções de vídeos caseiros totalmente nonsense, vidros encostados na parede, salas vazias com sons obscuros saindo de alto falantes, salas escuras com efeitos de luzes… Entendo que a intenção é provocar os sentidos, mas a única coisa que isso desperta em mim é minha ignorância. As obras do pernambucano Tunga foram as que mais me atraíram, é uma porralouquice que abala, não mantém ninguém indiferente, mas fora isso, eu saía das galerias louca para ver as palmeiras, os lagos, as árvores, tudo o que realmente inspira essa caipira aqui.

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Sei que não precisamos entender tudo o que vemos, que a lógica não é uma aliada da arte, que o que importa é o sentimento despertado, mas tudo tem um limite.  Uma cadeira de pernas pro ar jogada no meio de uma sala, por exemplo, pode ser uma obra de arte e pode ser apenas uma cadeira de pernas pro ar, vai depender da interpretação do artista, interpretação essa que costuma estar exposta em pequenos avisos nas paredes, em que consta o nome do autor da engenhoca, o material empregado e o que eles quis dizer com aquilo. Sem a explicação, fica-se boiando. Eu fico, ao menos.

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Trocando artes plásticas por literatura: estou terminando de ler mais um livro de David Lodge, autor inglês que gosto muito. O título (ruim): Surdo Mundo. Você leu certo: Surdo Mundo, e não Mudo. Detesto trocadilhos. Detesto. Trauma de uma época longínqua em que eu trabalhava numa agência de propaganda em que algumas pessoas eram viciadas nesse humor sem graça, cujo único mérito é fazer malabarismo com as palavras. Argh.

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Mas voltando ao livro, que originalmente se chama Deaf Sentence. É a história de um professor aposentado que a cada dia fica mais surdo. Um relato inteligente, bem-humorado e terno sobre como as relações familiares e profissionais são afetadas pela convivência com alguém que possui uma deficiência que obriga a um remanejo de conduções e atitudes. A surdez sempre nos pareceu um mal menor (quem nunca disse “prefiro ser surdo a ser cego”?), mas há muitas dificuldades que essa carência auditiva invoca, e também algumas sutilezas curiosas: às vezes ser surdo pode ser um benefício em meio às nossas dificuldades naturais de comunicação, dificuldades que todos temos, você, eu, todo mundo.

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O livro é um romance genérico, não fica batendo apenas nessa tecla da surdez. Discute assuntos diversos, todos eles interessantes, envolvendo as filigranas dos relacionamentos e também fala sobre arte em geral e linguística em particular. Um livro rico de informações, e que além disso diverte e emociona. Recomendo.

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Coincidentemente, ontem, no avião, quando voltava de Minas, li um trecho em que o personagem do livro diz: “A maior parte da arte contemporânea é sustentada por uma estrutura discursiva, sem a qual simplesmente viria abaixo e seria indiferenciável de lixo”. Pode ser que David Lodge e eu estejamos redondamente enganados, mas adorei descobrir essa afinidade de pensamento com um autor que respeito tanto.

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Além de Brumadinho, conheci também a Serra da Rola-Moça e fiquei deslumbrada com essa região montanhosa, que visual! Estive em Minas a passeio, apenas a passeio. É possível que volte muito em breve para uma sessão de autógrafos, avisarei se for confirmado. Por enquanto, convido para um encontro no Centro Cultural Banco do Brasil dia 7 de julho em Brasília. A atriz Cassia Kiss lerá alguns textos meus e depois comentarei um pouco sobre meu trabalho.

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Beijos, boa semana a todos!

Controle de privacidade

24 de junho de 2010 12

Escrevo para jornal, mas não me considero uma jornalista, tenho até um certo pudor de ser apresentada como se fosse. Mesmo assim, recebo por e-mail uma enxurrada de sugestões para pautas, enviadas por assessorias de imprensa de todo o Brasil. E dá-lhe aviso de lançamento de bolsa, de medicamentos, de condomínios, de pacotes de viagem, de técnicas de alisamento de cabelo e até notícias sobre drive-thru de oração: sério, parece que em São Paulo tem pároco aproveitando o engarrafamento em frente à igreja para oferecer uma prece ao motorista em troca de módicos 50 reais, preço sugerido, Deus não cobra nada.

Mas semana passada entrou um e-mail inédito na minha caixa. Iniciando com um “boa tarde, Martha”, fui avisada, de forma muito educada, que Ana Maria Braga estava formalmente separada. Soube pelo e-mail que ela e o marido tentaram de todas as formas manter a relação, mas que por motivos pessoais não conseguiram se entender e a assessora solicitava que eu, assim como meus colegas, tratasse a situação com respeito, uma vez que eles possuem filhos e família.

Muita gente sonha em ser famosa, imaginando a delícia que é ser seguida por fotógrafos na rua, receber um belo cachê para fazer comercial e sentar na primeira fila nos desfiles de moda. Uma parte dessa história atende à vaidade e é prazerosa, transmite a impressão de que a vida é uma festa, até o dia em que o famoso em questão se transforma num item de consumo, perdendo o controle da sua privacidade.

Com menos popularidade, mas muito mais importantes para a cena cultural do país, Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura acabam de ter sua vida íntima um pouco mais divulgada através do livro Conversas sobre o Tempo, mediada pelo jornalista Arthur Dapiéve. O bate-papo rendeu algumas inconfidências, mas em nenhum momento isso soa como uma satisfação aos leitores, até porque não é. Trata-se apenas de uma longa entrevista publicada em livro, uma troca informal de ideias, um retrospecto de suas trajetórias, um presente para aqueles que desejam saber como vivem e o que pensam dois autores a quem sempre respeitaram, naturalmente. Um respeito que jamais precisou ser solicitado via assessoria de imprensa.  

Beijos!

José Saramago

18 de junho de 2010 33

Escrevo ainda perplexa com a notícia que acabo de ler. O escritor português José Saramago faleceu essa manhã. Teve uma noite tranquila, aí acordou e, enquanto tomava café ao lado de sua mulher, sentiu-se mal e logo após morreu. Rápido e indolor, como merecem todos aqueles que viveram bem.

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Sempre que me perguntam em entrevistas qual é o meu livro favorito, fico pensando com meus botões sobre a dificuldade de se eleger apenas um livro entre tantas belas histórias já lidas, mas para não ficar discursando sobre a incapacidade de se escolher só um, sempre respondo “Ensaio sobre a cegueira”. Virou meu número 1.

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Lembro do impacto que tive com a leitura. Era minha primeira vez diante de um texto do Saramago.  Fiquei extasiada com a forma narrativa totalmente envolvente e perturbadora, com sua capacidade de gerar tensão e até de me fazer sentir cheiros ao virar as páginas. Nunca um livro havia provocado em mim reações sensitivas daquela natureza. Tempos depois, assisti à adaptação para o cinema,  dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, e fiquei ainda mais arrebatada, foi como se eu estivesse lendo Ensaio Sobre a Cegueira pela segunda vez, tal a sintonia (rara!) que percebi entre livro e filme.

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Li vários livros de Saramago.  Não gostei de “Ensaio sobre a Lucidez”, abandonei no meio, mas adorei inúmeras outras publicações. Cadernos de Lanzarote, Todos os Nomes, As intermitências da Morte, o Homem Duplicado, Pequenas Memórias e principalmente A Caverna, que li com imenso prazer e de onde extraí a ideia para uma crônica chamada “A raça dos desassossegados”. José Saramago morava numa ilha vulcânica praticamente desabitada, era um refugiado em sua própria solidão, mas era um desassossegado de nascença, sempre atento às transformações a sua volta, às incongruências da sociedade, nunca virou as costas pro mundo, apenas não se deixou afetar por ele. Era um homem polêmico por suas ideias políticas e religiosas, e essa era uma das razões de eu acompanhar suas entrevistas. Homens como Saramago provocam concordância e discordância, mantém nossa mente inquieta, e enquanto algumas pessoas não lidam bem com essa contradição, eu vibro: não aplaudo a apatia. Prefiro que alguém me enerve a alguém que me faz pegar no sono.

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Saramago era um homem que mantinha as pessoas acordadas. Morreu aos 87 anos, não era um garoto, mas sempre é cedo para partir, ainda mais quando se trata de alguém que ainda produzia, pensava, amava, vivia. Tanta gente por aí que não vive.

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Estou triste e ao mesmo tempo feliz por ter tido oportunidade de conhecer alguma coisa da sua obra. Me sinto grata. Ele me ofertou, e aos milhares que admiravam sua literatura, momentos de um prazer íntimo e enriquecedor. Que bom que os livros ficam.

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Beijos.

Passamos pela Coreia

15 de junho de 2010 10

Pensei que seria um pouco mais fácil, mas parece que o despertador não tocou no primeiro tempo, só no segundo. Menos mal: o Brasil venceu. Vamos pra frente. Next!

Beijos!

Cinema nacional

14 de junho de 2010 6

Olá, olá.

Entre um jogo e outro da Copa, passei o final de semana conferindo dois lançamentos recentes do cinema nacional, em DVD.

Primeiro vi Apenas o Fim, um filme que causou uma espécie de comoção quando foi lançado ano passado, ganhando alguns prêmios especiais de júris em festivais. Eu já tinha ouvido falar que era bacanésimo e tudo mais, e como gosto muito da Erika Mader e mais ainda do trabalho do Gregorio Duvivier, conferi com certa expectativa, que se cumpriu médio. Por um lado, acho que merece todo o respeito um trabalho desenvolvido por um universitário (estreia de Matheus Souza como roteirista e diretor), com baixo orçamento, filmado em apenas 12 dias, com apoio de colegas e amigos. Não é mole fazer um casal de atores segurar um filme de 80 minutos só na base do diálogo naturalista, ininterruptamente. O resultado é bom, tem momentos divertidos, sacadas ótimas, e é interessante divulgar a ideia de que o fim de um relacionamento pode ser tão natural quanto o início e o durante. A overdose de referências da cultura pop é proposital e situa os dois no tempo e no espaço. Tudo ok. Mas não posso evitar de dizer que achei o personagem da Erika um porre. Ô, guria chatinha (atenção, estou falando do personagem!). Talvez eu esteja virando uma tia, ou já seja uma tia completa, vá saber. Não esperava nenhum papo-cabeça, mas um pouquinho mais de.. de… emoção? Sei lá. Tudo muito “questionário Proust” pro meu gosto.

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Outro filme brasileiro: É Proibido Fumar. Faturou os principais troféus da recente premiação da Academia Brasileira de Cinema. Também curtinho (84 minutos) e com um orçamento nada exuberante (mas com mais recursos do que o experimental Apenas o Fim), o filme dirigido por Anna Muylaert conta a história de um casal que não está no fim da relação, e sim no começo – Gloria Pires, sempre excelente, dessa vez faz Baby, uma solitária professora de violão e fumante compulsiva, que vive sozinha e sonha com um grande amor, e Paulo Miklos é Max,  o vizinho da porta ao lado. Miklos, sempre com sua presença hipnótica na tela, faz um cantor de churrascaria esperando que a vida lhe sorria, mas não tem do que se queixar. Vive às voltas com a ex-mulher gostosona e tira seu sonzinho com os amigos, enquanto vai criando um afeto especial por Baby. A cena em que ele coloca pra ela ouvir “Que Nega é Essa” de Jorge Ben Jor é daquelas que justificam a locação do filme – nada de mais, mas tudo de bom. Uma comédia despretensiosa, com muita humanidade, com personagens reais, daqueles que você cruza na padaria ali da esquina.  Ok, todos os personagens citados nesse post são realíssimos, mas tô puxando a brasa pra minha padaria, me permitam. Ah, e o filme ainda traz no elenco Antonio e André Abujamra, Pitty, Marisa Orth e Paulo Cesar Pereio em rapidíssimas pontas. Eu tive a impressão até de ver o Daniel Dantas fazendo ponta também numa cena de reunião de fumantes, mas posso (e devo) estar batendo o pino.

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Apenas o Fim e É Proibido Fumar. Uns vão gostar mais do primeiro, outros mais do segundo, há quem vá odiar ambos e nada disso importa. O que vale é reconhecer que o cinema brasileiro tem se destacado não só no filão violência urbana, como também em filmes mais existencialistas, digamos assim. Se houve um tempo em que pouca coisa prestava, hoje podemos dizer que quase tudo é de respeitável qualidade. Bravo.

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E agora é concentrar, amanhã tem Brasil x Coréia, eu já estou com a pipoca no micro!

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Boa sorte pra nós!

Livros

08 de junho de 2010 21

Olá, people.

Alguém pediu para que eu comentasse sobre alguns livros. Bom, eu avisei que leria o do Michel Onfray, “A potência de existir“. Fiquei impactada com o título e, por ser um manifesto hedonista, achei que iria curtir bastante, mas fui reduzida à minha insignificância, achei o livro difícil para leigos em filosofia, como sou. Ainda assim, sublinhei algumas frases aqui e ali que me chamaram a atenção, mas o que gostei mesmo foi do prefácio, 28 páginas em que ele conta como foi ser abandonado pelos pais aos 10 anos de idade para ir viver num internato em meio a regras rígidas, hábitos franciscanos, trotes, abuso sexual e demais cortesias do inferno. O título do prefácio é “Autorretrato com criança” e deixo a frase de abertura aqui reproduzida: “Morri aos dez anos de idade, numa bela tarde de outono , numa luz que dá vontade de eternidade”. Pra mim, o prefácio justificou a aquisição do livro.

O outro livro que eu havia lido dele foi “Teoria da Viagem“, em que ele, poetica e filosoficamente, resgata os significados de se sair em busca do desconhecido. Desse, gostei de ponta a ponta.

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Acabei ontem de ler o último do Nick Hornby, “Juliet Nua e Crua“. Adoro o texto dele. Dessa vez, ele conta a história de Duncan, um “loser” que vive no interior da Inglaterra, tem um casamento de 15 anos que já nasceu em ponto morto e é fã de um roqueiro decadente que há 20 anos não grava nada. É interessante ver o quanto alguém sem luz própria tenta buscar sentido na vida transferindo seus sonhos para uma “entidade” que ele mais inventa do que sabe realmente a respeito. No final das contas, quem se torna personagem principal do livro é Annie, mulher de Duncan, que por um golpe do acaso acaba… Bom, vocês talvez leiam, melhor não adiantar nada. Mas faço um alerta: quem não usa óculos, use. E quem usa, use dois. As letras do livro são pra lá de miúdas.

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Comecei agora “A Morte do Gourmet“, romance de estreia de Muriel Barbery, que ficou conhecida mesmo foi através do seu segundo livro, o excelente “A elegância do ouriço”. Depois, lerei “Conversa sobre o tempo“, que reúne tudo o que foi dito em encontros entre Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura, com mediação de Arthur Dapieve. E as crônicas de “Mulher Perdigueira“, do meu talentoso amigo Fabricio Carpinejar.

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Ontem o Fabricio lançou seu livro na Livraria Cultura, de Porto Alegre. Antes dos autógrafos, foi promovido um pequeno debate entre o autor, o cineasta José Pedro Goulart e eu. Foi divertidíssimo. O tema central era o ciúme. Fabricio, performático como sempre, abusando de sua energia contagiante, defende que o ciúme é salutar, mesmo o ciúme infernal. Ele defende que se mande dezenas de torpedos por dia ao ser amado, que se explore abertamente o desejo de possessão. Olha que talento: “Aspiro ao casamento pirandelliano, um à procura permanente do outro. Sou um totalitário na paixão. Um tirano. Um ditador. Não me dê poder que escravizo. Não me dê espaço que cultivo. Não me eleja democraticamente que mudo a constituição e emendo os mandatos”.

Em literatura, funciona. Na vidinha, essa aqui, acho que dá um trabalho danado.

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E pra encerrar, aí vai, em primeira mão, o título do meu novo livro de ficção, que de certa forma trata sobre tudo isso também: paixão, possessão, ciúme, perdas e toda a falta de lógica que nos endoidece nas relações. Anote: Fora de Mim. Em outubro, nas livrarias.

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Beijos!

Sex and the city 2

03 de junho de 2010 29

Olá!

Pois é, fui falar mal do Sex and the City 2 antes de assistir e não deu outra: gostei! Acho que é a velha história da reversão de expectativa. Fui esperando nada e… bom, o filme está longe de ser tudo, claro. Mas me diverti. Foi mais ou menos como folhear uma revista: moda, decoração, viagens e o papo de sempre: como encontrar soluções pessoais pra ter uma vida mais legal. A parte fashion me irrita um pouco: quem é que iria pro meio do deserto de salto alto? Quem usaria aqueles vestidos estilosos para fazer compras num mercado de rua? Quem usaria aquele megachapéu dentro de um avião? E o que são aquelas ombreiras de gladiadora da Samantha na noite do karaokê? Mas não dá pra querer realismo de Sex and The City, as locações servem apenas de passarelas para as meninas (sejamos gentis) desfilarem seus modelos de grife. E tem o Marrocos, né? As filmagens foram feitas todas lá. O aeroporto é o de Marrakesh, o hotel em que Carrie janta com o ex-namorado também é em Marrakesh… aliás, eu conheci!!! Chama-se Amanjena, um hotel deslumbrante, exclusivíssimo, afastado do centro, silencioso, discreto, perfeito para vips que não querem ser incomodados – o que estava longe de ser o meu caso, fui de xereta, apenas para almoçar. Disseram na época que a Hillary Clinton estava hospedada lá. Se estava, pediu o almoço no quarto ou foi comer um cuscuz no mercado, porque no restaurante não pintou. Enfim, ver na telona o deserto, os camelos, o souk (mercado) e tudo mais me fez relembrar a belíssima viagem que fiz em novembro  passado, e me deu a maior vontade de retornar…

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Calma, madame. Aterrisa.

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Uma das discussões do filme, sem grandes aprofundamentos, é sobre relacionamentos a distância. A agora casadíssima Carrie (Sarah Jessica Parker) e seu Mr. Big pensam em se conceder dois dias off por semana, ou seja, cada um no seu canto, fazendo suas coisas, para encarar os outros cinco dias com mais saudade e disposição. Carrie não está muito satisfeita com a proposta, até que ela tem uma conversa com um empregado do hotel que diz que só vê a esposa de três em três meses e acha que está tudo bem assim, ao menos os reencontros são maravilhosos. Isso faz ela reconsiderar…  Muita gente pede que eu escreva sobre esse assunto, e nunca escrevi, mas a verdade é que já vivi isso, e estou vivendo de novo. Namoro há quatro anos um homem que, em função do seu trabalho, passa temporadas fora do Rio Grande do Sul. Já morou no interior de Santa Catarina, de São Paulo, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, e a gente sempre fez malabarismo para se encontrar. Nos víamos de 15 em 15 dias, às vezes de 20 em 20. Depois ele passou um bom tempo aqui em Porto Alegre e agora teve que assumir um trabalho longe de novo: mais três meses fora, e o malabarismo voltou. É bom pra relação? É ruim?

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No nosso caso, não chega a ser um sufoco. Não somos casados, cada um tem seu apartamento, seu trabalho, sua rotina. A distância nos possibilita ter mais tempo livre, e não há como negar, a saudade potencializa os reencontros, a gente passa a dar mais valor para os momentos em que estamos juntos e não perdemos tempo com picuinhas cotidianas. Mas claro, tem um preço. Pra quem é muito ciumento, pode ser uma complicação. E nem sempre é possível estar junto em momentos especiais, como aniversários de amigos, ou mesmo para assistir aos jogos da Copa. Mesmo hábitos banais se tornam raros de ser compartilhados. Como ir ao cinema, por exemplo.

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Você já passou por uma experiência assim?

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Beijos!!