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Posts de agosto 2010

Primeira vez na Europa - última parte

31 de agosto de 2010 71

De volta a Londres, não fomos para o apartamento da Daphne, e sim para um dos milhares de bed & breakfast administrados por indianos. Barato. Baratíssimo. Com baratas? Quase. Entramos no quarto e estranhamos aquele lençol petit-pois, lotado de bolinhas pretas. Jogamos nossas mochilas em cima da cama e surprise: as moscas decolaram, tomaram conta do espaço aéreo. Petit-pois, pois sim. Moscas, centenas delas! Abrimos as janelas e decidimos: vamos jantar! Ai delas se estiverem aqui na volta.

*

Me restavam apenas dois dias na cidade, já estava com passagem marcada de volta para o Brasil. Meu namorado, ao contrário, ainda tinha uns dias de férias, e era o seu momento de ficar sozinho, curtir a Londres que ele não conhecia e a Paris que pretendia ir em seguida. Entendi e dei força, ora, ora, direitos iguais. Em nossa última noite em Londres, assistimos a um show intimista de Joe Pass, guitarrista de jazz norteamericano.  Se meu namorado havia me acompanhado no Rock in Rio, nada mais justo que eu o acompanhasse nos seus próprios prazeres musicais. E dormimos com as estrelas, se é que a licença poética se presta: as moscas trocaram o lençol pelo teto do quarto. Um céu de mosquinhas. Quem liga, quando se está apaixonado?

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Ele ficou na Europa, eu voltei.

*

Vocês devem ter reparado que falei muito pouco sobre as atrações turísticas das cidades europeias. Preferi privilegiar aqui no blog as roubadas, as surpresas, os malabarismos que se faz para sobreviver diante do inesperado. Viajar é a arte do imprevisto. Comentei, no início desses relatos, que viajar sempre foi terapêutico pra mim e que esses dois meses na Europa me serviram como uma terapia intensiva. É verdade. Até então, não conhecia quase nada da vida. Nem geograficamente, nem de mim mesma. Inquilina dos meus pais, só ao sair de casa para viajar é que descobri que alguns medos que eu tinha eram herdados: na verdade, não existiam. Eu era muito mais destemida do que poderia imaginar.

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Passei a dar valor a coisas mais simples, e ao mesmo tempo enormes: a boa vontade de estranhos, pra começo de conversa. Quantos de nós abriria a porta de casa para uma amiga de um amigo de um amigo, chegada do nada? O engraçado é que até hoje não me sinto à vontade em me hospedar na casa dos outros, mesmo esses “outros” sendo parentes ou amigos íntimos. Mas lá, solta no mundo, constrangimento foi palavra que deletei do meu dicionário, e descobri que a necessidade altera nossos hábitos.

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Solta. Usei agorinha essa palavra: solta. Sem as cordas que manipulam a marionete. Com vida própria. Acordando pela manhã sem saber direito em que cidade do mundo adormeceria naquele mesmo dia. Almoçando só quando havia fome, fazendo só o que tinha vontade. Sozinha com meus pensamentos, com minhas atitudes, com meus receios novos – e dispensando os antigos. Livre! Aprendendo a viver com pouca grana, a privilegiar o essencial. E aberta a conhecer tudo. Sem preconceitos, sem críticas, sem julgamentos. Não tenho dúvida de que essa viagem me ensinou a ser mais leve, menos acorrrentada a ideias prontas.

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Por fim, vivi dois tipos de viagem: por 40 dias, viajei sozinha. Nos outros 20, com namorado. Vocês devem ter percebido a alteração. Na primeira parte, eu me expus mais, eu conheci mais gente, eu entrei mais no dia-a-dia das cidades. Na segunda parte, fiquei mais “protegida”, digamos assim. Ao viajarmos acompanhados, a tendência é o casal se unir contra as adversidades, fechar-se mais em si mesmo e ter menos abertura para esquisitices e para explorações. Um cuida do outro, e o mundo passa a ser apenas um cenário onde eles circulam, a interação fica menos intensa. Não é uma queixa, é uma constatação. Eu viajei sozinha outras vezes, depois. Pra ser mais exata, outras três vezes. São experiências fascinantes e ricas, mas digo com tranquilidade: mesmo adorando minha própria companhia e curtindo essa liberdade que a solidão propicia, nada como viajar com o amor da nossa vida, mesmo que esse amor não seja pra sempre. Outros amores vieram e virão, outras viagens também.

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Devo um agradecimento aos meus pais. A ele, primeiro, porque em 1985 e 1986 eu juntei dinheiro pra passar aqueles dias na Europa, mas não o suficiente para as passagens. Meses antes, conversando sobre minha vontade de viajar, ele disse: batalha teu sustento lá que, se precisar, te dou uma força. Batalhei meu sustento lá e precisei da força. Ele patrocinou as passagens e, no dia do embarque, me chamou num canto e me deu mais 1000 dólares para o caso de uma emergência. Na verdade, viajei com 2.000 dólares. Mas nenhuma emergência aconteceu e eu devolvi cada centavo a ele. Recentemente, minha filha de 19 anos também fez uma viagem ao exterior e fiz a mesma coisa, dei a ela um dinheiro extra para o caso de uma emergência acontecer. Nenhuma emergência aconteceu e ela me devolveu cada centavo. Pra muita gente, isso tem um nome: trouxice. Para outros, o nome é diferente: responsabilidade.

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À minha mãe, devo a confiança e a paciência. Ela não gostava nadinha daquela história de ter uma filha desacorrentada, audaciosa, viajando sozinha pelo mundo – deu graças a Deus quando soube que meu namorado iria me encontrar, mandou meia-dúzia de cartas por ele.

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Parece até que eu era uma adolescente… Tinha 24 anos. Mas se hoje quem tem 24 é um adulto graduado, naquele ano de 1986 eu tinha a idade da inexperiência. Era inexperiente e sou até hoje. Por isso que preciso viajar mais, mais e mais. Um dia eu cresço. Espero que demore.

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Fim dos nossos serviços. Torço para que vocês tenham curtido. Eu curti.

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Beijos!

Primeira vez na Europa - parte 4

29 de agosto de 2010 25

Acordei com um belo dia de sol em Cannes, sem notícias do namorado que estava por chegar. Fazer o que? Praia!! E lá fui eu para o pedacinho de areia pública que me cabia – a maior parte da orla de Cannes está reservada para os hóspedes dos grandes hotéis. Plebeus têm que se contentar com um cantinho de praia, mas para mim era suficiente. Sozinha da silva, sem nenhum conhecido por perto, tirei a parte de cima do biquini e fiz meu primeiro topless.

*

Depois de pegar um bronze, caminhei, comi um cachorro-quente, caminhei mais um pouco, e ainda mais um pouco, gastei a tarde caminhando e mais um pedacinho de noite, até que passei num McDonald´s, peguei um quarteirão com queijo e voltei pro meu hotelzinho mequetrefe, onde todos ainda festejavam a vitória da seleção da França contra o Brasil. Subi para o meu pequeno quarto e comi meu lanche sentada na cama, parecia uma daquelas figuras solitárias dos quadros do Edward Hopper (adoro Edward Hopper), enfim, uma abandonada por Deus, pobre de mim, até que o telefone tocou. Ué. Atendi dizendo “alô”, que é linguagem universal. Do outro lado da linha, uma frase em francês incompreensível. Ué, de novo. E de novo a frase incompreensível do porteiro. Outro jogo do Brasil não havia. Aquele telefonema só podia significar uma coisa. Desci correndo pelas escadas. Ninguém no hall. Saí porta afora, olhei para os dois lados da calçada. Ninguém. Até que olhei em frente, para o outro lado da rua. Lá estava ele. Meu namorado.

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Corta. Parte imprópria para menores.

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Dia seguinte, depois de ter passado a noite comigo na pousada mequetrefe, ele me fez fechar a conta e me levou com ele para o hotel onde estava hospedado. Mamma mia. Era um daqueles cinco estrelas a beira mar, Hotel Majestic. Tive vergonha de entrar no lobby com meus jeans surrado, que eu usava há mais de 30 dias consecutivos sem lavar. Mas dane-se, ninguém merecia uma mordomia tanto quanto eu. Quando entrei no quarto, quase comecei a chorar de emoção. Era gigantesco, todo branco. No banheiro, dezenas de cremes Hermés. Uma banheira que era uma piscina. Vista pro mar. Lençóis de linho, travesseiros de pena de ganso. Imagine o que isso significava para quem estava há tanto tempo dormindo em colchões no chão, assentos de trem e sofás na sala.

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Passamos 5 dias no bem-bom. Ele saía de manhã para “trabalhar” (assistir centenas de palestras e filmes publicitários) e eu ia para a praia (privê!), onde tirava férias das férias. À noite,  jantávamos beeeem. Tudo por conta da agência, bendita agência. Tirei a barriga da miséria.

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Até que chegou a hora de pegar a estrada de novo. Por nossa conta e risco. Next stop: Roma.

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Deu branco: não lembro onde nos hospedamos em Roma. Nem ideia. Mas devia ser em alguma pensão, pois os papeizinhos mágicos só funcionavam para uma única hóspede. Dois, seria abuso. Conhecemos a Fontana di Trevi, o Coliseu, a Basílica de São Pedro (onde fui a única de nós a entrar e conhecer a Capela Sistina, pois ele estava de bermuda e não era permitido trajes tão informais). Calooooor.

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Adiante: Florença. Ficamos num hotelzinho perto da estação ferroviária. A cidade me pareceu encantadora. Foi lá que vi o David, de Michelângelo, na Galeria della Academia. Impressionante o tamanho, a perfeição das formas. Foi o meu momento sagrado na Itália: não vi o Papa em Roma, mas vi o David em Florença. Que impacto! Ali passei a respeitar e admirar para sempre as esculturas.

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De Florença, fomos a Veneza, um dos lugares que eu mais desejava conhecer na vida. Quando descemos do trem e nos direcionamos pra saída da estação, a vista foi de matar: uma enorme basílica, diversos sobrados em tons de rosa e laranja, e aquele canal de águas verdes onde os gondoleiros passavam com suas camisetas listradas e suas calças claras, cantando:”O, sole mio…” Me belisca. Parecia um sonho. A gente se hospedou num hotel logo ao lado da estação, um prédio caindo aos pedaços, mas o quarto era amplo, com uma cama que parecia do século 12 e um espelho todo lascado com uma moldura dourada, e havia um pequeno balcão que dava para o canal, belisca de novo. Veneza parecia uma miragem. Até hoje me custa acreditar que ela está lá onde está, mágica, onírica, enquanto estou aqui, na minha vulgar existência.

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Tivemos uma briga forte uma noite. A razão? Não lembro, mas nada como uma reconciliação na Piazza de San Marco, ouvindo um grupo de jazz tocando ao ar livre.

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De Veneza, fomos para Luxemburgo. Agora me diz: quem conhece Luxemburgo? Existe Luxemburgo? Invenção do meu namorado, que gostava de estranhezas. Mas ele venceu meu desdém porque, pra sua sorte, chegamos também num dia de festival. Na Europa, os verões transformam as cidades em palcos para as mais variadas manifestações artísticas.  Assistimos a uma performance ao ar livre que valeu a única noite em que lá dormimos.

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E então, a cereja do bolo: Amsterdam! A cidade mais bem-humorada da Europa, com suas casinhas inclinadas, uma amparada na outra, em total bebedeira arquitetônica. Alugamos duas bicicletas e percorremos toda a cidade, e entornamos muitas Heinneken, e visitamos o extraordinário museu Van Gogh, e lagarteamos (quem não for gaúcho, leia “tomamos sol”) no parque Volendam, e assistimos a shows de rock em botecos onde não cabiam mais do que 16 pessoas e meia, e visitamos os mercados de flores, e finalmente voltamos para Londres, onde tudo havia começado pra mim.

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A despedida da viagem fica para o último post.

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Beijos.

Portinari

28 de agosto de 2010 10

Olá, intervalo da viagem. Quero dar uma dica para quem está em Porto Alegre nesse final de semana: não deixem de ver a exposição das obras de Cândido Portinari no Museu de Arte do Rio Grande do Sul – MARGS. Eu estive lá agora de manhã e saí encantada. São gravuras e telas que fazem parte da coleção Castro Maya, que foi um empresário, colecionador e mecenas das artes, e que tornou-se amigo do grande pintor modernista brasileiro.  Dentre todos os trabalhos, destaco a série de desenhos de Don Quixote e Sancho Pança feitos com lápis de cor, o desenho “Guerra” e o belíssimo quadro As Lavadeiras, que foi o primeiro que Castro Maya adquiriu, dando assim o pontapé inicial para formar sua incrível coleção. A mostra fica só até amanhã, 29/08.

*

Obrigada ao pessoal de Dois Irmãos, com quem estive ontem conversando durante a Festa Literária da cidade. Nunca havia participado de um evento dentro de uma igreja! Por mais que a antiga igreja matriz tenha se transformado num centro cultural, ainda assim, é uma igreja, e com um altar lindo por sinal. Teve duas moças lá que me disseram que eu já estive naquela mesma igreja palestrando, anos atrás. Só acredito vendo: mandem fotos. Minha memória não pode estar me traindo de tal jeito. Como vocês irão confiar que tudo que estou contando sobre aquela viagem de 1986 é verdade?

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Pois é tudo verdade.

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Sionelli, obrigada pelo presente, adorei! Não encontrei seu e-mail, então agradeço por aqui mesmo, espero que você leia. Foi muita gentileza sua.

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Beijos!

Primeira vez na Europa - parte 3

27 de agosto de 2010 24

Cheguei em Munique com outro papelzinho na carteira, mas esse não iria provocar grandes constrangimentos: era o nome de uma prima que morava lá há séculos, praticamente se transmutou numa alemã. Eu não a conhecia pessoalmente, ela era mais chegada aos meus pais. Bem mais velha do que eu era em 1986 (mas, provavelmente, mais moça do que sou agora – glupt). Na estação, liguei pra ela e avisei: cheguei. Ela me disse que eu ficasse onde estava, iria me buscar, morava perto. O nome dela era Madalena.

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Fomos para seu pequeno e aconchegante apartamento. Tivemos nossa primeira e única briga: ela queria que eu ficasse com seu quarto, enquanto ela dormiria no chão da sala. Recusei veementemente. Não tinha cabimento. Ela trabalhava, saía cedo de casa, não fazia sentido dormir com desconforto, enquanto eu não tinha horário pra nada, estava de férias e graduada em me acomodar em qualquer cantinho. Sem falar que ela era uma senhora! (glupt, glupt). Falei, argumentei e venci: ela ficou no quarto dela.

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Madalena era militante do Partido Verde. Dois meses antes, havia acontecido o pior acidente nuclear da história, em Chernobyl. A nuvem de radioatividade assustou o mundo. 200 mil pessoas tiveram que ser evacuadas de suas casas, de suas cidades. Madalena não falava de outra coisa, estava chocada. A Alemanha inteira, aliás, estava mobilizada pelo assunto, e lembro que nossos papos foram muito conscientizadores para mim, pois era uma época em que pouco se falava sobre meio-ambiente. Quando não estávamos conversando sobre ecologia e política, eu perambulava pela cidade, sozinha, mas menos encantada do que já havia estado em outras cidades européias. A Alemanha é linda, mas não move um único músculo do meu coração. O melhor desse pit-stop em Munique foi um dia em que peguei um trem e fui passar a tarde em Salzburg, na Áustria. Falando assim, parece uma megaviagem, mas era um pulo de 1 hora e meia, se tanto. Visitei a casa onde morou Mozart e curti à beça aquela pequena cidade que parecia de contos de fada.

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Me despedi de Madalena e nunca mais a vi. Trocamos cartas por um tempo. Depois apenas cartões de Natal. E depois nem isso. Foram muitos e muitos anos de silêncio. Meses atrás, fiquei bastante triste ao ser informada pelo meu pai que ela havia falecido.

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De Munique fui a Lausanne, na Suiça, e adivinhe: sim, havia outro papelzinho mágico na carteira. O nome do felizardo dessa vez era Jacques, amigo de um amigo meu, pra variar. Já estava avisada de que ele arranhava o português. Perfeito. Liguei para o Jacques da estação ferroviária, dei o meu desdobre de sempre e fui convidada a visitá-lo. Quando cheguei, simpatizamos de cara um com o outro. Mas ele não era tão cavalheiro quanto Madalena, nem cogitou em me oferecer seu quarto, direto me apresentou seu sofá de dois lugares, na sala, e providenciou um travesseiro. De graça, vou reclamar? Só que não era hora de nanar ainda. A cidade estava fervilhando, era época do Festival de Verão, e em cada praça, cada esquina, cada canto daquela linda cidade havia apresentações artísticas as mais variadas. Que noite! Depois de jantarmos num localzinho ao ar livre e muito animado, assistimos a um espetáculo de dança que me deixou extasiada, nunca havia visto nada mais moderno e mais empolgante – tudo isso num pátio de igreja, a céu aberto. Absolutamente fascinante. No dia seguinte teria mais. Hora de dormir em posição fetal.

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Acordei moída. O sofá de dois lugares era ideal para creches. Não dormi quase nada, e Jacques percebeu. Foi então que ele veio com uma solução mágica. Disse que seus vizinhos haviam viajado e deixado a chave com ele, para entregar à faxineira. A faxineira já havia feito seu serviço e o apê estava vazio. Ele me deu a chave. Toma. Dorme direito hoje. Eu peguei a chave e entrei no apartamento feito uma ladra. Deixei minhas coisas num canto da sala e saí pra rua novamente. Mais shows, mais dança, mais teatro. Quando voltamos, ele foi para o apê dele e eu para o “meu”. Entrei no quarto do casal, aquela cama maravilhosa me chamando, vem, vem, mas aí olhei os porta-retratos, vi o rosto daqueles dois estranhos e pensei: não. Adivinha onde dormi. Exatamente. No sofá da sala. Mas ao menos era de três lugares.

*

De Lausanne fui a Zurique, ainda na Suiça. Me hospedei numa pensão que curiosamente se chamava Martahaus e me entreguei à cidade. Era tudo muito alegre, muito colorido, muito alto astral. Lembro de ter ficado horas num parque vendo uma garotada dançando reggae, jogando frisbee, namorando, andando de bicicleta. Ao cair da tarde, me aproximei da margem do lago que banha a cidade e fiquei olhando para as águas por um longo tempo, e senti uma plenitude muito rara, uma sensação de felicidade difícil de explicar. Se tivesse que resumir numa palavra, acho que seria “encontro”. Eu havia finalmente encontrado a mim mesma. Caminhando serenamente de volta à pensão, parei num posto telefônico e liguei para o Brasil. Foi quando meu namorado me deu um ultimato: “De Zurique, vá direto a Cannes. Estou chegando”. Ele era publicitário, como eu já contei em outro post, e havia conseguido que a agência em que trabalhava o enviasse para o Festival de Publicidade de Cannes, com todas as despesas pagas. De lá, ele sairia de férias. Comigo! Não, não achei nem um pouco invasivo. Adorei. Estava faltando romance no meu tour.

*

Cheguei em Cannes e me dei conta de que não sabia em que hotel ele estava, nenhuma pista. Eu tampouco pude dizer a ele onde iria me hospedar, já que nunca sabia de antemão. Larguei minhas coisas numa pousadinha mequetrefe e resolvi caminhar pela Croissete, a avenida chiquetésima da cidade, a beira mar. Lá estavam os hotéis 5 estrelas que costumavam hospedar os participantes de festivais. Entrei nuns três, perguntei se havia reserva em nome dele, mas não estavam autorizados a dar essa informação. Putz. Deixei o nome da minha espelunca anotada num papel em vários desses hotéis, aos cuidados dele. Aí dei uma banda pela cidade, tomei um lanche e à noitinha voltei pra pousada. Para minha surpresa, havia um grupo de franceses no saguão que impediram que eu subisse para o quarto. Insistiram para que eu ficasse com eles vendo televisão. Mas que raio está passando na tevê? Ora. Jogo da seleção, óbvio. Brasil x França! Eu, a única brasileira na pousada, contra eles todos. Puxei uma cadeira.

*

Assisti o jogo até o fim. Deu empate, 1 x 1. Aí me despedi de todos, bon soir, bon soir, e eles colocando a mão na cabeça, dizendo qualquer coisa parecida com “Não suba para o quarto, sua demente, não justo agora!” Fiquei comovida com a atenção dispensada, mas mantive minha decisão, subi e dormi. A desorientada aqui não sabia que haveria prorrogação e disputa de pênaltis. Zico chutou a bola nas mãos do goleiro e o Brasil voltou pra casa, quem viveu, lembra. Mas não vi nada disso. Não entendia xongas do que o narrador da tevê falava. Quem mandou não aprender francês.

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Quando eu acordar, conto o emocionante dia seguinte.

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Beijos!

Rápido intervalo da viagem

26 de agosto de 2010 18

Companheiros de trip, intervalinho da viagem para mostrar a vocês como ficou bacana o cartaz da peça “Tudo que eu queria te dizer”. Semana que vem estreia no Rio, todo mundo lá. E amanhã às 15h estarei em Dois Irmãos (RS) conversando e autografando na antiga Igreja Matriz, na Av. São Miguel. Daqui a pouco eu volto direto de Munique! Beijos.

Primeira vez na Europa - parte 2

25 de agosto de 2010 41

De Paris, peguei um trem noturno para Madri – truque antigo para economizar diária de hotel. Falei hotel? Menos. Me hospedei num hostal, uma espécie de pousadinha simples, porém essa era bem situada, numa transversal da Gran Via. Muito sol e calor em Madri. Foi a primeira vez que estive totalmente sozinha na Europa, já que em Londres eu tinha minha melhor amiga, em Paris o cunhado dessa minha amiga, e na Bélgica o Charles e a Vera. Em Madri, se eu levasse um tiro no meio da rua, seria enterrada como indigente – ninguém para me reconhecer. Não achei ruim a sensação. Sempre me senti atraída pelo anonimato completo. Não tenho dúvida de que tem algo a ver com liberdade.

*

Mas me sentia livre em termos. Meu coração estava no Brasil, morria de saudade do meu namorado. Se antes de embarcar eu estava confusa, a fim de um tempo, ao chegar na Europa não tive dúvida da importância que ele tinha pra mim. Sempre que possível eu telefonava, ainda que nem cogitasse voltar antes da viagem acabar.

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Em Madri, caminhei pela Plaza Mayor, desfrutei do belo Parque del Retiro, passei uma tarde inteira no Museu do Prado, furunguei umas bugigangas na Feria del Rastro, passei uma tarde na cidade vizinha de Toledo, mas o programa mais excitante foi esse mesmo que você está pensando. Esse mesmo. Estou lendo seus pensamentos: não acredito, ela vai falar das touradas. Se lhe ofende, pule essa parte.

*

Na verdade, os espanhóis não chamam de tourada, e sim de “corrida de toros”. Pois é, num domingo à tarde fui para a Plaza Monumental de Las Ventas, que é o Maracanã madrileño. Não tinha ideia se iria gostar ou não. Sabia que o espetáculo durava duas horas e que seis touros eram sacrificados: 20 minutos para cada exibição. Encontrei meu lugar na arquibancada, ao sol, que era mais barato (na sombra é mais caro) e minha respiração começou a ficar ofegante. Parecia que eu iria ver gladiadores enfrentando leões ou qualquer coisa medieval assim. Quatro da tarde, eu quase derretendo. De repente, as cornetas tocaram, o silêncio se fez e meu coração parou. Uma porteira se abriu e um touro de uns 500 quilos, ou mais ou menos isso, adentrou na arena em disparada, bufando. Meu coração continuava parado.

*

E então tudo se deu. Não vou descrever cada momento porque respeito a grande maioria de leitores que deve rejeitar a prática, mas não vou me fazer de politicamente correta: foi das coisas mais intensas e emocionantes que já assisti, até porque sei que não era a farra do boi, e sim uma tradição milenar que diz muito da cultura de um povo, daquele povo. Era uma ópera a céu aberto. Um balé. Com direito à música, figurino, gestual, tudo de um impacto tamanho. Ao fim do primeiro ato (a morte do primeiro touro), eu estava com a mão sobre os olhos, mal enxergando. No segundo touro, meus dedos da mão se entreabriram possibilitando a visão. No terceiro touro, eu já estava entendendo as regras do jogo e não tapava mais os olhos. No quarto, quinto e sexto touro, levantava e gritava olé como se tivesse sido ninada ao som de castanholas. Nunca mais vi nada tão visceral, tão elegante e tão viril. Uma experiência para não se esquecer.

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Passou, passou.

*

De Madri, viajei a madrugada inteira até Barcelona com outro papelzinho mágico na carteira. Assim que o trem chegou na estação, procurei por um telefone público e disquei para os nomes premiados: Rui e Bia, brasileiros amigos de um amigo. Viva a cara-de pau! Rui atendeu e, mesmo sendo 7 horas da manhã, não parecia incomodado. Me deu seu endereço e em 10 minutos eu estava tocando a campainha.

*

Entrei no apartamento um tanto acanhada. Bia não estava. Ele me perguntou se eu estava com fome. Eu estava azul de fome. Ele então me convidou para tomar o café da manhã com ele. Entre sucos, torradas e queijos, eu e Rui nos tornamos amigos de infância, até que no meio daquela algazarra, ouvi o barulho da chave na fechadura da porta. Bia entrou e se deparou com seu marido tomando café da manhã com uma sirigaita que ela nunca tinha visto na vida. Rui, meio sem noção, disse com seu melhor sorriso: “Amor, essa é a Martha, ela vai ficar uns dias com a gente”. Eu tive vontade de entrar dentro do açucareiro. Bia nem me olhou, apenas disse: “Rui, chega aqui, vamos conversar”. E sumiram os dois. Eu comi mais uma torrada e já comecei a pensar onde iria dormir aquela noite, porque Bia visivelmente não havia gostado da ideia de ter uma hóspede. Pensei até em ir embora sem me despedir de ninguém, para poupá-los de me rejeitar cara a cara, mas ainda havia um pedaço de queijo dando sopa e então… Eles voltaram para a sala.

*

Bia parecia um pouco mais calma. “Então tu é amiga do Marcelinho?” Falou como se o Marcelinho, namorado de uma grande amiga minha, fosse um traficante procurado pela polícia. “S-so-ou”. Ela se aproximou e disse olhando fixo nos meus olhos: “Ele nos deve 20 dólares”. Coitada, estava delirando se achava que eu iria pagar a dívida, e se fosse blefe? Respondi: “Vou lembrá-lo disso”. Rui sorriu com a cena e disse que ok, eu poderia ficar, havia um colchão sobrando no quarto de banho. E pela primeira vez entendi o que era um quarto de banho: um aposento com uma banheira no meio. Nenhum problema. Na manhã seguinte, fui surpreendida pelo casal tomando banho juntos enquanto eu fingia dormir. Nada me choca nessa vida.

*

De Barcelona, guardei na lembrança os prédios de Gaudí, o Museu Picasso, as Ramblas, a Fundação Miró, a Sagrada Família, muita caminhada e uma noite que, não sei como, fui parar num boteco lotado de brasileiros fazendo o que, o que? Vendo outro jogo da seleção. Copa do Mundo, te acuerdas?

*

De Barcelona fui para Munique, do outro lado do mapa. Uma viagem tão longa que, quando chegar lá, aviso.

*

Beijos!

Primeira vez na Europa - parte 1

23 de agosto de 2010 41

1986. Andava meio angustiada, precisava escapar da rotina e me enxergar por outro prisma, e viajar sempre ajuda – ao menos pra mim, que sempre considerei viajar terapêutico. Então, depois de juntar grana, me acertar no trabalho e fazer meu namorado entender que eu precisava de um tempo, embarquei para Londres, onde minha melhor amiga estava morando, recém-casada. Havia umas 300 pessoas a bordo daquele avião, mas fui a única a ser revistada quando cheguei no aeroporto de Heatrow – meu aspecto muçulmano me condena. Como não levava granadas na bagagem, entrei no país. Minha amiga me esperava na área de desembarque. Depois de um longo abraço, pegamos o metrô e começamos a tagarelar. Quando saí da estação, a primeira impressão que tive de Londres é que eu estava de volta à minha casa – era como se eu tivesse nascido lá. O apartamento da minha amiga era minúsculo, um casulo, e eu não iria atrapalhar o casal praticamente em lua-de-mel, então aluguei um quarto na casa de uma inglesa maluca, a Daphne, separada e com quatro filhos: Gregor, Boris, Fiona e Phylis. Quarto franciscano, mas limpinho, banheiro no corredor. As refeições eu teria que fazer fora, mas podia usar a geladeira para guardar o que comprasse para consumo próprio. Tudo acertado, joguei minha sacola num canto e fui dormir, mas não dormi. Passei a noite em claro e em pânico, pensando: o que vim fazer na Europa sozinha? Vou perder meu emprego! Vou perder meu namorado! Vou me perder! Help, I need somebody.

*

A noite sempre foi madrasta com meus pensamentos. Quando acordei no dia seguinte, já não havia vestígio daquela garota medrosa. Tomei um banho quente e fui pra rua, e tudo começou. Pirei com Londres. Passava os dias em parques e museus, e o que mais gostava era de ver a movimentação das pessoas, aquela diversidade cultural, cada um na sua, com seu estilo. Uma metrópole vanguardista e ao mesmo tempo monárquica, uma contradição estimulante. Almoçava pizza, quase sempre, e jantava um pedaço de queijo, e caminhava uns 20km por dia. À noite, costumava sair com minha amiga e o marido dela, que aliás, vivem em Porto Alegre e são meus best friends até hoje. Em Londres, assisti no cinema “9 1/2 Weeks”, só se falava nesse filme, com os então desconhecidos Mickey Rourke e Kim Basinger. E assisti ao musical Cats numa matinê cujo preço do ingresso era compatível com minhas posses. Foi quando descobri que musical não é meu gênero teatral preferido. Achei Cats cafona. Às vezes, quando o cansaço batia, ficava sozinha no meu quarto, escrevendo. Um dia a Phylis, que era a menorzinha da família, uns três anos, entrou no quarto, me viu com um bloco e uma caneta na mão e pediu, com seu jeito doce, para que eu desenhasse um “bear”. Sorri e desenhei. Quando mostrei pra ela, começou a chorar. O que eu havia feito de errado? Até hoje me divirto quando lembro dessa história. Desenhei uma garrafa de cerveja. “Beer”. Sempre tive muito jeito com crianças…

*

Dias depois, uma carioca chegou na casa e passou a dividir o quarto comigo. Não era de muitas palavras, mas mesmo assim a convidei para irmos passar o final de semana em Edimburgo, na Escócia. Ela topou, pegamos um ônibus, e partimos numa viagem noturna de umas oito horas. Chegando lá, brrrrrr. Nunca havia sentido tanto frio na minha vida, a cidade era linda, porém gelada, mas por outro lado estava acontecendo um festival de música e o clima era muito festivo nos parques e ruas. Me agasalhei e encarei, mas minha amiga só queria saber de ficar trancafiada no bed & breakfast em que nos hospedamos. Se eu, que era do sul do Brasil, sofria com a baixa temperatura, ela, carioca, estava em estado de choque. Deve me amaldiçoar até hoje pelo convite. Quando voltamos à Londres, ainda passei mais uns 3 dias na casa da Daphne, até que começou a chegar mais gente, pintou uma muambeira não sei de onde, e aí achei que havia dado para mim. Juntei minhas coisas e parti. Nunca mais soube de ninguém dessa turma. Querida Phylis, espero que o trauma tenha passado. Te devo um ursinho.

*

Fui de trem até Dover (foi quando carimbei meu youthpass, comprado no Brasil, que permitia que eu fizesse quantas viagens de trem quisesse, por todos os países europeus), aí de Dover peguei um barco, atravessei o canal da Mancha, desembarquei em Ostende, aí outro trem e, finalmente, Bruxelas. Já na estação, senti o forte cheiro de chocolate no ar. Sentei nos degraus de uma escadaria e procurei um papelzinho na minha carteira. Ali estava anotado o telefone de um sujeito chamado Charles Meskens. Amigo de um colega da agência em que eu trabalhava. Charles era casado com uma brasileira e me receberia bem, disse meu amigo. Viajar sozinha é ótimo para exercitar a cara-de-pau. Liguei de um telefone público para o Charles. Atende, Charles, atende! Ele atendeu.

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Falava um português sofrível, o Charles, mas era melhor que o meu francês, que inexistia. Ele me deu seu endereço, peguei um táxi e alguns minutos depois eu estava em frente ao seu prédio. Ele me esperava na calçada. Como descrever o Charles? Sabe o TimTim, aquele personagem de quadrinhos belga? Sem tirar nem por. Aliás, o Charles era viciado no TimTim. “Vamos subir, Vera está lá em cima”, disse ele com uma frieza que me assustou. Nem um sorriso, nem um aperto de mão. Quando botei os olhos em Vera, o céu se abriu. Ela era de Novo Hamburgo! Dá cá um abraço, tchê!!

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Vera e Charles eram (e ainda devem ser) artistas plásticos e também publicitários. Moravam num apartamentinho acolhedor, e cheguei justamente no dia do aniversário da Vera. Imediatamente fomos os três para a cozinha preparar uns quitutes, enquanto bebíamos kyr royal (très chic) e eu contava as novidades sobre o Brasil. À noite, os convidados chegaram, uns falando holandês, outros falando alemão, e eu tentando me defender com o meu vergonhoso inglês – que é vergonhoso até hoje, admito sem nenhum orgulho. Mas foi uma noite divertida, parecia uma festa da embaixada, só que sem rigor algum. Ouvia-se muito Laurie Anderson e Elvis Costello, ambos haviam feito show na cidade recentemente. Fui dormir tarde da noite, numa pequena cama de armar que o casal providenciou dentro do seu ateliê. Foi mágico adormecer cercada por telas coloridas, cavaletes, tintas, pincéis. Os dois eram muito talentosos. Charles não sorriu naquele dia, nem no outro, e nem quando anos depois veio morar no Brasil e formamos uma dupla de criação, enfim, nunca vi Charles sorrir, que belga mais enfezado, mas nos tornamos grandes amigos. Vera, ao contrário dele, era uma simpatia, um doce, sorria com o rosto inteiro. Um casal muito querido, que mais tarde teve dois filhos, morou algum tempo numa casinha aqui em Porto Alegre e então se separaram. Cheguei a trabalhar com Charles, aí ele foi pra São Paulo, depois voltou pra Bélgica, nos correspondemos ainda por um tempo, e aí a comunicação foi cortada, não soube mais dele nem dela. Vera, onde anda você?

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Próxima parada: Paris. Cheguei e fui direto para uma pensão de estudantes, onde o cunhado da minha amiga de Londres estava morando. Mal entrei no casarão, Fernando disse: larga tuas coisas lá em cima e vamos jantar na casa de um amigo meu, vamos assistir ao jogo do Brasil. Jogo do Brasil??? Era 1986! Copa do Mundo!! Quinze minutos em Paris e eu já estava dentro de um ônibus indo pro apartamento de um cara que não conhecia para assistir a um jogo que nem sabia que estava acontecendo. Mas adorando tudo, claro.

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O tal amigo do Fernando era cabeleireiro (quem não é, em Paris?) e trabalhava para um grupo de teatro. Ofereceu ingressos para eu e Fernando assistirmos a peça na noite seguinte, um clássico de Moliére. Em francês, logicamente. Na noite seguinte, lá estávamos sentados na plateia, mas Fernando não era chegado em teatro e eu não entendia uma única palavra do que os atores falavam, então ele me disse: “Vamos sair daqui e passear de barco no Sena? Vai dar tempo de estar aqui na saída da peça e encontrarmos o nosso anfitrião (havíamos sido convidados para jantar com o cabeleireiro depois). Ele nem vai perceber que não assistimos essa chatice”. Topei, óbvio. E lá fomos nós passear naquela noite de verão, eu deslumbrada com a beleza da arquitetura da cidade. Porém, ao voltar, erramos o ponto de descida do barco, estávamos muito longe do teatro, e o relógio era implacável, tic-tac, faltava pouquíssimo pra peça terminar e tínhamos um encontro marcado. O que fazer? Ué, correr. Correr????? Fernando era maratonista, esqueci de comentar. Me pegou pela mão e me fez sair em disparada em direção ao teatro. Vocês estão achando romântico o casalzinho correndo pelas margens do Sena? Quá! Eu pensei que iria estrebuchar. Ele com um preparo físico de atleta, e eu de minissaia, sapatilha e um preparo físico de publicitária. Mas chegamos a tempo de nos misturar com o povo que saía do teatro. Encontramos nosso amigo. “Gostaram da peça?” ele perguntou. Nós bufávamos. “A melhor que já vimos”. O tal amigo deve estar até hoje se perguntando o que fizemos de tão empolgante sentados nas poltronas por duas horas. Boa coisa não haveria de ser, estávamos molhados de suor, como se tivéssemos atravessado o Sena a nado. Deixamos que ele fantasiasse.

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Amei Paris. Os quadros impressionistas, a Sacre-Coeur, as ruazinhas do Quartier Latin, e mais do que tudo, a imponência da torre Eiffel, de tirar o fôlego. Paris era romântica, feminina, aberta. Mas meu coração já estava definitivamente fisgado por Londres e sua elegância andrógina, e sou fiel a essa paixão até hoje. Em breve, a viagem continua.

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Beijos!

Vamos em frente

21 de agosto de 2010 12

Olá!

Obrigada, obrigada, obrigada por todos os cumprimentos deixados aqui no blog, vocês são muitos gentis!

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Incrível como o post do Rock in Rio bombou. Blog é um diário eletrônico, por isso que esse tipo de narrativa funciona. Pois então. Depois que eu voltei daquela viagem, arranjei um novo emprego e me saí muito bem, virei uma funcionária exemplar. Quando completei 1 ano na agência, conversei com o meu patrão e fiz uma solicitação incomum: disse a ele que gostaria de ter dois meses de férias. Um mês já estava garantido por lei, mas e o segundo, enlouqueceu? Argumentei que queria conhecer a Europa, que as informações que eu colheria dessa viagem iriam lapidar meu trabalho, que o banho de cultura me transformaria numa profissional ainda mais criativa – condição fundamental para uma redatora publicitária. Disse que a agência não precisaria pagar meu salário enquanto eu estivesse fora, apenas queria que garantissem meu emprego na volta. De minha parte, me comprometeria a permanecer na agência por no mínimo mais um ano, sem aceitar nenhuma proposta que por acaso viesse a receber. Ele ficou de conversar com seu sócio e me dar uma resposta no dia seguinte.

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No dia seguinte entrou na minha sala e não acreditei no que ouvi. Toparam.

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Dia 14 de maio de 1986 eu embarquei para Londres, sozinha, com uma mochila nas costas, uma pequena sacola de mão e 1.000 dólares na carteira para passar dois meses na Europa viajando de trem. Foi o melhor investimento que fiz na minha vida, tanto em termos pessoais como profissionais. Se até hoje não fiz terapia, foi porque essa viagem me valeu por um tratamento: foi quando, longe de tudo e de todos, eu realmente me conheci – ou comecei a me conhecer. Ainda essa semana vocês embarcarão comigo nesse tour.

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Acabei de ler um livro chamado Coragem de mãe (argh, que título brega), da francesa Marie-Laure Picat. É a história real de uma mulher que aos 36 anos, com quatro filhos pequenos, descobriu que tinha um câncer terminal já em avançado estado de metástase e poucos meses de vida. Como ela não tinha parentes vivos e o pai das crianças era de uma negligência absurda, ela utilizou esses seus últimos meses para se divorciar do marido e buscar um lugar onde suas crianças pudessem ser criadas juntas, sem ficarem separadas. Não queria colocá-las em uma instituição, e sim em uma casa de família, na mesma cidadezinha em que viviam. Descobriu que era viável encontrar uma família adotiva, e logo ela encontrou uma que parecia ideal, porém seria impossível que as quatro crianças se mantivessem juntas, o governo permitia apenas que fossem adotadas três crianças por família. Ela batalhou para reverter essa lei e de tanto dar entrevistas sobre o assunto, se transformou numa celebridade na França.

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Eu fui fisgada pelo prólogo, a carta que a mãe escreve aos quatro filhos na abertura do livro. Em vez de encontrar um texto sentimentalóide, como a situação poderia inspirar, percebi que ela era uma mulher bem humorada e que não se deixava levar pelo dramalhão. Aí fui adiante na leitura.

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É uma história interessante, mas sendo o registro de algo que aconteceu mesmo, fiquei um pouco desapontada – não, acho que a palavra não é desapontada, talvez seja “surpreendida”, é isso – fiquei um pouco surpreendida com a frieza das atitudes da Marie Laure. Me pareceu tudo muito cerebral. Ela não desaba nunca, e os filhos tampouco parecem sofrer com a situação, aceitam a ideia da iminente morte da mãe com uma naturalidade que eu não julgava possível. Quando terminei o livro, fiquei pensando se isso não revelaria um traço do comportamento francês, pragmático em contraponto ao nosso lado “mexicano”, que extrapola nas emoções. Ou não é nada disso e o pragmatismo da autora representa apenas um caso isolado? Não sei, algo me incomodou. Uma coisa é ser sentimentalóide, outra é ser sentimental.

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Cinema, não fui mais. Assisti a dois filmes no DVD essa semana. Um foi o brasileiro Zuzu Angel em companhia da minha filha de 14 anos, que está estudando no colégio a ditadura militar. Era dever de casa. Achei bacana ter essa oportunidade de conversar com ela sobre um período tão marcante da nossa história. Na idade dela, eu era muito mais alienada a respeito do que acontecia nos bastidores do governo.

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O outro filme foi Nova York, Te Amo, uma compilação de diversas histórias dirigidas por diferentes diretores, a exemplo do que já havia sido feito em Paris, Te amo – ao qual prefiro, talvez pelo impacto de ter assistido no cinema em vez de em casa. Claro que faz diferença. Mas o “Nova York” é bom também, a filmagem é elegante, sutil, gostei. E ainda por cima tem no elenco dois colírios que estão no meu top ten: Bradley Cooper e Orlando Bloom. Os outros oito? Vou pensar.

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E não posso deixar de registrar: que beleza, Inter, que beleza!

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Bom início de semana!

Níver!

20 de agosto de 2010 126

Oi, turma. Tenho que comemorar junto com vocês: hoje é meu aniversário! Nem vou dizer a idade, porque depois da quantidade de comentários que recebi sobre o Rock in Rio dizendo “eu não era nascido”, minha autoestima ficou meio avariada… Mas estou muito feliz. Gosto de aniversários, acredito que é uma honra ter nascido, e isso tem que ser celebrado. Muita gente não gosta e eu respeito, mas acho uma pena a pessoa não curtir uma data tão sua, tão significativa: pô, nascemos! É uma sorte. Que outra alternativa existe no mundo? O nada! Então é isso, queria compartilhar com vocês a alegria que me dá esse 20 de agosto, me despedir do inferno astral e arrancar para os últimos meses do ano com muita energia solar – o sol rege meu signo, Leão.

Ah! Já contei pra vocês? Não suporto o “Parabéns pra você”. É a música mais desanimada que eu conheço. Odeio, odeio. Todos os anos, o “parabéns” que eu canto pra mim mesma tem letra do Lulu Santos: “Eu quero um novo começo de era/de gente fina elegante sincera/com habilidade/pra dizer mais sim do que não!”

É isso aí, não há tempo que volte, amor, vamos viver tudo o que há pra viver…

Obrigada por todas as mensagens deixadas no último post. Vou começar a escrever mais sobre algumas aventuras vividas, falar dos shows que assisti por aí… não foram poucos, e cada um tem uma peculiaridade, algo pra não ser esquecido. Volto em breve, tenho que ir, o telefone está tocando! Ai dele se não tocar.

Beijos!!

Rock in Rio 1985

17 de agosto de 2010 93

Apertem os cintos e me acompanhem numa viagem no tempo. Ao ler hoje, no jornal, que o Rock in Rio será novamente apresentado no Brasil, ano que vem, me lembrei do primeiríssimo Rock in Rio, 25 anos atrás. Foi em outra vida, mas nunca esqueci.

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Em dezembro de 1984 eu fui demitida da agência de publicidade onde trabalhava. Única vez na vida em que fui demitida, e devo admitir: mereci. Não queria nada com o batente. Auge do verão, pensei: não vou voltar a procurar emprego agora, quero viajar. Trabalho, só em fevereiro. Na época estava namorando há cinco meses um publicitário que não era muito chegado em rock, era um jazzman, mas tinha pique e gostou da ideia de fazer uma viagem de carro para assistir ao Rock in Rio, já que as férias dele seriam em janeiro também (também! como se a desempregada aqui estivesse de férias…).  Seria nossa primeira aventura on the road.

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Ingressos na mão, tudo certo. Mas havia uma questão: éramos meio durangos. Tínhamos decidido passar o mês inteiro na estrada, como pagar hospedagem durante esse tempo todo? Nunca fomos muito fãs de acampar em barraca, então ele sugeriu: vamos alugar um trailer? Topei na hora. Os fogos de artifício nem haviam desaparecido do céu, anunciando a chegada de 1985, e botamos o maverick vermelho na estrada. Juro por Deus. Um maverick vermelho puxando um pequeno trailer caindo aos pedaços. A cena hoje me parece uma chinelagem total, mas foi uma das passagens mais originais da minha história. Credo, eu já tenho uma história.

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Estávamos na primeira meia-hora da viagem, ainda na freeway, quando meu namorado lembrou que havia esquecido sua carteira no apartamento dele. Começamos bem. Voltamos, pegamos a maldita/bendita carteira, voltamos pra estrada. Nossa primeira parada foi em Torres (RS), e a segunda em Bombinhas (SC), onde encontramos uma turma de amigos acampados por lá. Foi um deles, o Gaspar, que apelidou nosso trailer de “bolanta”. O que é uma bolanta? Só um pouquinho que vou perguntar pro Mr. Google e já volto.

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(……………………….)

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Achei: bolanta é uma “edificação móvel para uso temporário”. Pois então. O Gaspar sabia das coisas. Até hoje lembro do trailer como a bolanta. Quebrou um galhão, a bolanta.

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Próxima parada: São Francisco do Sul, onde chegamos num final de tarde e saímos na manhã seguinte, mas lembro que era um lugar mágico, histórico, romântico. Recentemente estive em Joinville, ali perto, e pensei: tenho que voltar um dia a São Chico do Sul para saber se é mesmo aquilo tudo que ficou no meu imaginário.

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O dia seguinte foi de muita quilometragem, cruzamos o Paraná sem parar e fomos direto para as praias da Rio-Santos. Lembro que dividi a direção com meu namorado. Sim, ele me deixou dirigir o maverick puxando o trailer, aquele trambolhão numa estrada movimentada cheia de curvas . Confiante, o rapaz. E eu, uma doida. Outros tempos.

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Minha memória se dispersa um pouco nessa parte, lembro que conhecemos várias praias, mas os QGs foram Maresias e Parati. Foi um janeiro de sol escaldante. Enlouqueci com Parati, que cidadezinha charmosa, caminhamos muito por lá, e lembro até de ter andado numa roda-gigante à noite, numa praça da cidade. Coisas de viagem… Por incrível que pareça, não tenho uma única foto desses dias, não levamos máquina, ou não tínhamos, sei lá.

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Chegamos ao Rio nos primeiros dias do festival, mas os shows se repetiriam, então resolvemos deixar a bolanta num camping em Jacarepaguá e ir de carro até Ouro Preto, que nenhum dos dois conhecia. Tiramos da cartola essa ideia de ir pra Minas quando o sol já estava se pondo, lembro que foi uma puxada, chegamos em Ouro Preto com a noite avançada, mas conseguimos vaga num hotelzinho bem no alto da cidade. Simples, porém com uma vista sensacional. Acho que ficamos dois dias. Numa noite em que não tínhamos nada para fazer, fomos assistir a um filme pornô num cinema, era o que havia. Que programinha mais trash. . Eu era a única mulher no cinema – aliás, devia ter só mais um ou outro cara, quem vai se prestar a assistir filme pornô em Ouro Preto? Sem cabimento. Foi a única vez que assisti um troço brega desses, mas éramos dois franco-atiradores na estrada, e tendo humor – tínhamos! – valia qualquer diversão.

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Voltamos pro Rio na manhã em que Tancredo Neves foi eleito presidente do Brasil por voto indireto (nunca chegou a tomar posse, como se sabe). O festival já estava rolando (durou de 11 a 20 de janeiro). Pegamos uma praia em São Conrado e à tardinha voltamos pra bolanta: era dia do nosso primeiro show. Lembro que meu namorado foi tomar uma cerveja no bar do camping enquanto eu fiquei no trailer me arrumando. Quando ele foi me buscar, não acreditou no que viu. Parecia que eu estava indo para um shopping, de calça branca, blusinha nova, acho que botei até salto alto. Ele teve um acesso de riso: “Tu tem ideia pra onde estamos indo? Pro meio da lama!!” Eu, teimosa, disse que iria daquele jeito mesmo, estava me sentindo um doce-de-coco, mas logo percebi meu equívoco. Tarde demais. Virei a abominável mulher de barro: choveu e aquilo lá virou woodstock. Da tal sandália nunca mais tive notícia, e a calça branca… Rá.

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Nos dias seguintes, camiseta, jeans, tênis e rabo-de-cavalo. Pô, óbvio.

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Foram muitos shows, mas lembro que o mais espetacular foi o do Queen. Ver Freddy Mercury cantando “Love of my life” a capela e regendo aquela multidão que cantava com ele foi de arrepiar. Até hoje essa imagem circula nos “vale a pena ver de novo” da vida como o momento clássico do Rock in Rio 85. Crianças, eu estava lá!! Me belisquem.

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Durante um dos shows, olhei para o lado e pensei: conheço essa figura. Era uma mulher com o cabelo bem raspadinho, belíssima de rosto, sozinha, dançando. Monique Evans.

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Vimos de tudo: Yes, Rod Stewart, B-52, Nina Hagen, Ozzy Osborne… E Barão Vermelho, Rita Lee, Blitz, Lulu Santos, Kid Abelha, Paralamas (nos idos tempos em que Herbert Vianna usava óculos e namorava Paulinha Toller).

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Inesquecível, tudo.

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Fim de festa. Aquelas mais de 200 mil pessoas – por noite! – voltaram para suas casas, suas cidades, seus Estados. Nós voltamos para Bombinhas e ficamos uma semana lá com a turma de amigos que seguia acampada. Mar, calor, nenhuma nuvem no céu. Eu na época não me cuidava bem e acabei pegando uma insolação. Passei um dia inteiro de molho dentro da bolanta… Mas nem isso maculou um dos melhores verões da minha vida.

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Aí voltamos pra Porto Alegre, devolvemos a bolanta para o dono e fomos cada um pra sua casa – eu ainda morava com meus pais, ele sozinho. Uma semana depois já estava empregada de novo. O namorado? Casei com ele, tivemos duas filhas e vivemos juntos por felizes 17 anos. Hoje é um querido amigo, está casado de novo e segue preferindo o jazz.

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Já não se fazem festivais de rock assim. Em 1985, foi tudo meio woodstock mesmo, o chão era pura lama, não havia telões, camarotes, e lembro de apenas uma lanchonetezinha nos fundos do terreno, assim como meia-dúzia de banheiros, tudo muito precário. Nem sombra da megaestrutura que se dispõe hoje. Passava-se trabalho, claro, mas, por outro lado, era uma experiência genuína. Só encarava essa indiada quem gostava realmente de música e de aventura.

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Esqueci: ter 23 anos colaborava também.

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Rock in Rio 2011. Se eu for, conto tudo de novo.

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Beijos!