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Triunfo

29 de outubro de 2010 19

Quero falar de dois tipos de triunfo. Vou começar pela noite de quarta-feira, quando fui assistir ao espetáculo Três Solos e um Dueto, com o bailarino Mikhail Baryshnikov e a dançarina espanhola Ana Laguna. Sempre sonhei em assistir a Baryshnikov, não só por sua dança, mas pela pessoa que é. Um amante das artes, que desenvolveu uma carreira de ator (lembro especialmente do filme O Sol da Meia-Noite, de 1985, além da charmosa participação em alguns espisódios da série Sex & The City) e que possui um carisma e um bom humor que está presente em cada gesto seu, em cada atitude. Tenho atração pelos desestressados, e ele me parece assim, um homem sem medo de correr riscos – ele corre apenas do tédio, como disse recentemente em entrevista.

O espetáculo, como o próprio nome diz, é dividido em quatro partes. Ele abre com um solo que a mim pareceu mais um exercício de aquecimento. Não me empolgou muito pela coreografia em si, mas pela presença do mito no palco: não há como não se emocionar. A segunda parte, da mesma forma, me pareceu um aquecimento de Ana Laguna, reconhecida dançarina a quem eu não conhecia. Obviamente, o termo “aquecimento” está sendo usado por mim para expressar minha morna reação, pois ambos os solos foram criados por reconhecidos coreógrafos e são altamente profissionais.

O espetáculo me ganhou em definitivo a partir do terceiro solo, em que Mikhail Baryshnikov estabelece uma espécie de duelo com imagens suas projetadas no fundo do palco, tudo ao som de Philip Glass. Ele dança com sua própria sombra, depois dança com sua imagem bem jovem (ainda estudante de balé nos tempos em que vivia em Moscou), e essas “parcerias” refletem a luta contra a passagem do tempo. Obviamente, Misha, como é carinhosamente apelidado, hoje não tem mais a desenvoltura dos 17 anos, mas em vez de isso se transformar num lamento, ele invoca a renovação, a persistência, e conclui o número com uma divertida constatação de seus limites. Realidade x memória. O bailarino real, diante dos nossos olhos, supera a todos. Uma frase dele resume essa questão: “O ballet clássico é para jovens. O que mais me fascina na dança contemporânea é a possibilidade de interpretar nossa própria idade”.

No quarto ato, a consagração. Ele, aos 62 anos, e Ana Laguna, aos 54, dançam juntos uma coreografia que retrata as diversas etapas da vida de um casal, tendo como cenário apenas uma mesa e um tapete. Com uma trilha sonora vigorosa e uma coreografia igualmente impactante, eles mostram que não há passagem de tempo que lhes roube o talento e o prazer de estar em cena, e Baryshnikov prova por que, afinal, é considerado um monstro sagrado.

Aliás, de monstro, não tem nada. Segue um homem atraente.

A plateia delira ao final. A dupla foi ovacionada por longos minutos, não havia aplauso que chegasse para homenagear não só ao espetáculo que foi assistido, mas a bela carreira desse que é considerado o bailarino número 1 da nossa era. Foi maravilhoso ter tido a oportunidade de prestigiá-lo nessa noite que foi, de fato, triunfal.

Dormi satisfeita e na manhã seguinte já estava na estrada rumo a Triunfo, a 80km de Porto Alegre. Não conhecia o município e foi com alegria e surpresa que descobri que Triunfo é uma graciosa cidade histórica, com muitos prédios tombados que, através de um rápido olhar, me fizeram recordar de certas ruas de Olinda, em Pernambuco. A igreja de Triunfo é uma das mais antigas do país e as árvores que ficam à margem do rio Taquari são das mais lindas que já vi. Não bastasse esse privilégio visual, fui recebida com muita amabilidade. O bate-papo foi agradável e mais uma vez testemunhei a potência de se estar em sintonia com os leitores.

Triunfos. O bom da vida.

Beijos e curtam o feriadão!

Comentários (19)

  • Ariele Goulart diz: 29 de outubro de 2010

    Simplesmente comovente!

  • Roberta Proszek diz: 29 de outubro de 2010

    Olá Martha, infelizmente não pude presenciar este espetáculo por estar longe, mas apenas com a descrição que você fez pude sentir a energia e me emocionar. Grande abraço.

  • Rossana diz: 29 de outubro de 2010

    Eh sempre muito emocionante ver Baryshnikov no palco!
    Bom feriadao Martha!

  • Dodora Pereira diz: 29 de outubro de 2010

    Que privilégio, você pode se sentir uma mulher privilegiada, assistir Mikhail Baryshnikov, meu Deus, acho que não conseguiria dormir logo, para não pensar que era um sonho. Sabe quais as cidades que ele vai se apresentar, queria ver se teria alguma oportunidade ainda de assistir. Bjs

  • Sandra diz: 29 de outubro de 2010

    Querida Marta, toda semana sempre fico a pensar qual será teu próximo assunto, como que quase na certeza do que virá, dificilmente erro. Leitor é assim mesmo, na sua devoção ao escritor acaba criando uma cumplicidade que é descoberta somente na primeira pessoa. Com certeza que o Baryshnikov não poderia faltar no teu repertório, com certeza que, como ele, somos todos gigantes quando superamos aquilo que se chama de “tempo” ou como tua mesma já te referiste: não ficamos velhos quando temos a vontade e energia de viver. Acredito, minha amiga, que fizemos parte dessa privilegiada idéia de viver. Fui bailarina clássica e Misha sempre foi um ídolo para mim, como bailarina que fui, admiro a força e garra que uma aula de balé ensina aos atentos. Sigo o Misha faz anos e espero continuar a te seguir pelo resto da minha vida, porque tu também és assim.
    Abraços,
    Sandra.

  • Luana Gabriela da Silva diz: 29 de outubro de 2010

    Boa tarde, Martha. Sou um leitora sua e jornalista. Tenho um blog direcionado para o jornalismo cultural. Solicitei a você por email esta semana uma entrevista. Reitero minha solicitação caso não tenha recebido meu email.

    Aproveito para parabenizar pelo lançamento de seu mais novo livro: Fora de mim.

    Obrigada pela atenção.

    Luana

  • a INCRÍVEL falível diz: 29 de outubro de 2010

    Ai que invejaaaaaaaaaaa……….
    Das boas.
    Fiquei arrepiada só em ler a crônica, imagine.
    Seria o meu melhor programa para hoje a noite.
    Maravilhosa também a sua interpretação de tudo.
    Beijos

  • lucimar diz: 29 de outubro de 2010

    Comecei a ler o livro Fora de Mim ontem a tarde e
    só consegui parar quando terminei…Muito bom
    Tenho acompanhado teu trabalho, te admiro

  • otálio camargo diz: 29 de outubro de 2010

    Tens razão Martha. Fazes parte mesmo de nossas vidas. Acesso, quase sempre, teu blog. Leio tuas crônicas. Enfim, parece que somos conhecidos há muito tempo, talvez de outros mundos. E ainda não consegui estar presente nas sessões de autógrafos. Um dia, quem sabe. Ah, mas há alguns anos na Feira da Praça da Alfândega estavas lá, autografando. Olhares trocados por breves instantes e teus olhos voltaram para um papo com uma amiga. E não consegui chegar até a mesa pra teu autógrafo porque surgiu um fotógrafo xereta no meio do caminho e preferi circular apela feira. Um dia, um dia talvez. Abçs à distância. Jorn. Otálio Camargo

  • Gustavo Quadra diz: 30 de outubro de 2010

    Essas cidadesinhas perto da gente e que não conhecemos é uma vergonha, não é?! Adoro elas para passar um final de semana, não sou muito adepto aos retiros…rs
    Quanto ao espetáculo, deve ser mesmo um espetáculo! Me interessei pela parte que “ele dança com ele mesmo”…deve ter sido muuuito lindo!
    É isso aí, Martha…
    Boa noite
    e
    Beeeijo!

  • Kaká diz: 30 de outubro de 2010

    Oi minha querida amiga do coração!
    Quanta saudade…
    Estou louca para comprar teu novo livro (e lógico q vou!). Já não vejo a hora de ler…
    Mas vc sabe como é com filha pequena, né? Uma correria para dar conta de tudo e 24h se torna pouco.
    Só agora vi o convite do dia de autógrafos, que pena… eu teria ido e levado a Brunna para vc conhecê-la. Antes eu recebia esses convites em casa e podia me programar, mas parei de receber, vc sabe pq? Gostaria de continuar recebendo sempre. :)
    Muitos beijos saudosos, KK.

    Blog da Brunna: http://umaprincesaeduasmaes.blogspot.com

  • Anna Rafaela diz: 30 de outubro de 2010

    Oi Martha, estou profundamente triste por ter perdido o lançamento do novo livro na saiva em porto alegre. Tenho todos os teus livros desde strip tease autografados e infelizmente nao pude ir nesse último. Vc estará na feira do livro…?? quero mto outro autografo agora no livro novo, que aliás jah comprei em ESTOU AMANDO!
    SUCESSO, SEMPRE!!

    BJOS

  • Henrique Félix diz: 31 de outubro de 2010

    Prezada Martha,
    Tenho pesquisado na internet o verdadeiro autor de um texto sobre a elegância do comportamento, que em vários sites aparece como sendo de sua autoria. É bem provável que você já tenha recebido este tipo de mensagem diversas vezes, no entanto, eu lhe pergunto: esse texto é seu mesmo? Em caso afirmativo, em qual dos seus livros ele foi publicado?
    Obrigado.
    Um abraço,
    Henrique Félix.

  • Desirée diz: 31 de outubro de 2010

    Adorei a agenda!!

  • Helaine diz: 31 de outubro de 2010

    Mais uma prova da sua sintonia com os leitores, Martha: o “Fora de Mim” na lista dos mais vendidos de Veja. Parabéns, garota!

  • Carolina diz: 1 de novembro de 2010

    Olá Martha gostaria de lhe enviar um e-mail, mas não sei o endereço…Vc poderia me enviar.
    Grande beijo!
    Carol

  • Poliana diz: 1 de novembro de 2010

    Querida Martha, sou sua fã, adoro seus textos e a sua forma tão maravilhosa de expressar seus sentimentos, suas opiniões, você não tem ideia da influência de suas crônicas em minha vida, é impressionante a sua capacidade de escrever, consegue sempre comover,divertir, encantar, envolver… Parabéns!!!

    Um beijão,
    Poliana Amorim.

  • Kaká diz: 1 de novembro de 2010

    Oi MM!
    Gostaria de saber que dia e horário será o teu autógrafo na feira do livro?
    Saudades!
    Beijos, KK.

  • Michele Dias diz: 2 de novembro de 2010

    Oi Martha, tive o privilégio de participar do bate-papo em sua visita a feira do livro de Triunfo e, como admiradora de seu trabalho e sagacidade, fiquei surpreendida com sua simplidade e da sintonia que tem com o público.
    Parabéns!
    Michele.

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