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Triunfo

29 de outubro de 2010 19

Quero falar de dois tipos de triunfo. Vou começar pela noite de quarta-feira, quando fui assistir ao espetáculo Três Solos e um Dueto, com o bailarino Mikhail Baryshnikov e a dançarina espanhola Ana Laguna. Sempre sonhei em assistir a Baryshnikov, não só por sua dança, mas pela pessoa que é. Um amante das artes, que desenvolveu uma carreira de ator (lembro especialmente do filme O Sol da Meia-Noite, de 1985, além da charmosa participação em alguns espisódios da série Sex & The City) e que possui um carisma e um bom humor que está presente em cada gesto seu, em cada atitude. Tenho atração pelos desestressados, e ele me parece assim, um homem sem medo de correr riscos – ele corre apenas do tédio, como disse recentemente em entrevista.

O espetáculo, como o próprio nome diz, é dividido em quatro partes. Ele abre com um solo que a mim pareceu mais um exercício de aquecimento. Não me empolgou muito pela coreografia em si, mas pela presença do mito no palco: não há como não se emocionar. A segunda parte, da mesma forma, me pareceu um aquecimento de Ana Laguna, reconhecida dançarina a quem eu não conhecia. Obviamente, o termo “aquecimento” está sendo usado por mim para expressar minha morna reação, pois ambos os solos foram criados por reconhecidos coreógrafos e são altamente profissionais.

O espetáculo me ganhou em definitivo a partir do terceiro solo, em que Mikhail Baryshnikov estabelece uma espécie de duelo com imagens suas projetadas no fundo do palco, tudo ao som de Philip Glass. Ele dança com sua própria sombra, depois dança com sua imagem bem jovem (ainda estudante de balé nos tempos em que vivia em Moscou), e essas “parcerias” refletem a luta contra a passagem do tempo. Obviamente, Misha, como é carinhosamente apelidado, hoje não tem mais a desenvoltura dos 17 anos, mas em vez de isso se transformar num lamento, ele invoca a renovação, a persistência, e conclui o número com uma divertida constatação de seus limites. Realidade x memória. O bailarino real, diante dos nossos olhos, supera a todos. Uma frase dele resume essa questão: “O ballet clássico é para jovens. O que mais me fascina na dança contemporânea é a possibilidade de interpretar nossa própria idade”.

No quarto ato, a consagração. Ele, aos 62 anos, e Ana Laguna, aos 54, dançam juntos uma coreografia que retrata as diversas etapas da vida de um casal, tendo como cenário apenas uma mesa e um tapete. Com uma trilha sonora vigorosa e uma coreografia igualmente impactante, eles mostram que não há passagem de tempo que lhes roube o talento e o prazer de estar em cena, e Baryshnikov prova por que, afinal, é considerado um monstro sagrado.

Aliás, de monstro, não tem nada. Segue um homem atraente.

A plateia delira ao final. A dupla foi ovacionada por longos minutos, não havia aplauso que chegasse para homenagear não só ao espetáculo que foi assistido, mas a bela carreira desse que é considerado o bailarino número 1 da nossa era. Foi maravilhoso ter tido a oportunidade de prestigiá-lo nessa noite que foi, de fato, triunfal.

Dormi satisfeita e na manhã seguinte já estava na estrada rumo a Triunfo, a 80km de Porto Alegre. Não conhecia o município e foi com alegria e surpresa que descobri que Triunfo é uma graciosa cidade histórica, com muitos prédios tombados que, através de um rápido olhar, me fizeram recordar de certas ruas de Olinda, em Pernambuco. A igreja de Triunfo é uma das mais antigas do país e as árvores que ficam à margem do rio Taquari são das mais lindas que já vi. Não bastasse esse privilégio visual, fui recebida com muita amabilidade. O bate-papo foi agradável e mais uma vez testemunhei a potência de se estar em sintonia com os leitores.

Triunfos. O bom da vida.

Beijos e curtam o feriadão!

Obrigada!

27 de outubro de 2010 52

Esse meu agradecimento vai para todo mundo que perseverou na fila de autógrafos na Livraria Saraiva, ontem à noite, em Porto Alegre. Madrecita, nunca vi tanta gente. Logo após o ótimo bate-papo com o jornalista Tulio Milman, onde entretemos a plateia e rimos muito, subi para o segundo piso do shopping e já havia uma fila quilométrica. Alguém lá me perguntou: como é que tu te sentes? Vou dizer.

Sinto um misto de sensações. Uma delas: incredulidade. Estou completando 25 anos de carreira literária. Meu primeiro livro, Strip-Tease, saiu em 1985. De lá para cá foram muitos degraus, uma após o outro, sem ser afoita, apenas aproveitando as oportunidades e fazendo o que sei fazer. Já comi muita mosca em noite de lançamento. E digo pra vocês: é muito chato ficar atrás de uma mesa sem que ninguém apareça, apenas uns gatos pingados. Você se sente a última das criaturas, parece que está mendigando atenção. Não há escritor que já não tenha passado por isso. Uns porque ainda não são muito conhecidos, outros porque havia um jogo de futebol decisivo marcado pro mesmo horário, ou então porque a divulgação foi ineficiente, nada saiu nos jornais. O fato é que acontece. Recentemente estive na sessão de autógrafos de um cara que tem um fã clube de respeito, mas quase ninguém apareceu – pudera, não saiu uma linha na imprensa.

Então imagina você encontrar 500 pessoas te aguardando numa fila em prol de um simples: “Para Fulana, um beijo carinhoso da Martha”. Sou bastante econômica nas minhas dedicatórias, não sei ir além do básico. Teve gente que esperou até duas horas para chegar até mim. E eu pensava: por quem eu ficaria duas horas em pé para ganhar um rabisco num livro? Sinceramente, por três ou quatro, e olhe lá. Foi então que me dei conta de que faço parte da vida de muitos de vocês, e o quanto isso é sagrado, o quanto isso é especial. Não há palavras para agradecer essa homenagem que me fizeram ontem.

Se eu cansei? Nossa, saí moída. Mas feliz à beça. Realizada. Gratificada.

Não tenho como lembrar o nome de todos que lá estiveram. Teve uma moça que acho que se chama Gabriele que se derreteu em elogios na minha frente, foi emocionante ouvir o depoimento dela. Gracias, garota! Teve duas amigas de 16 anos, queridíssimas. E uma menina de 14, uma fofa. Teve uma moça que estava acompanhada do filho (acho que era filho) e que me levou uma pasta com diversas crônicas minhas guardadas, um trabalho caprichado, foi bacana de ver, adorei!

Teve a mãe e a madrinha da Juliana, uma garota que não conheço e que vive em Joinville e que escreveu coisas bonitas sobre mim no seu blog. Teve umas alunas de um colégio (putz, esqueci qual: São Judas? Santa Inês?) cuja tarefa de gincana era ir lá pegar uma dedicatória minha. Teve o Rodrigo Germano, um cara que me “assombra” há anos, vai a todas as sessões, não falha uma, e que me levou bombons, obrigada! Teve a Greice, uma menina que me entregou um bilhete carinhoso, e teve uma moça que me deu um lindo chaveiro confeccionado por ela mesma, e ganhei também uma caneta da Caroline e um texto escrito por ela, e teve o Joaquim, bem animado aos 70 anos, e a Vera Regina da L&PM, e o Felipe Malheiro que me entregou um livro, assim como o José Tulio Barbosa e o meu primeiro chefe, do meu primeiro emprego, que me disse o seguinte: “se eu soubesse que tu tinha esse talento, teria te demitido no primeiro dia para que tu seguisse teu destino”. Ainda bem que ele não fez isso, pois a propaganda foi fundamental para eu desenvolver o texto que tenho hoje.

E apareceram os amigos do peito também: Marcelo Pires e Leticia Wierzchovski (que lançará hoje na Cultura seu mais novo romance, “Os Getka”, às 19h – estarei lá!), Katia, Cris, Ana, Neca, Karin, Carla, e as queridas Janaína, Naiana e Sandro, e o Grafa com sua Ane e a Dona Lia,  e mais meu irmão, cunhada e sobrinhos, meu pai e minha mãe, e as amigas da minha mãe, e tias, e primas – e mais todos aqueles que esqueci de comentar aqui, claro. Já é um universo.

Agora é recarregar as energias porque não acabou.

Em breve, Rio, dia 17 de novembro.

Peço desculpas: a peça “Tudo que eu queria te dizer” em Salvador foi cancelada, mas irá a Bahia ano que vem! Quanto à reestreia no Rio dia 5 de novembro, confirmadíssima.

Amanhã comento sobre o espetáculo de dança do Baryshnikov. Vou hoje, depois de buscar o autógrafo da Leticia. Haja energia.

Beijão e obrigada mesmo!

Mais sobre "Fora de Mim"

25 de outubro de 2010 28

Olá, pessoal.

Fiquei felicíssima de que a maioria de vocês gostou do livro Fora de Mim. Apesar de ser meu décimo nono livro, ainda sinto a mesma apreensão que senti quando lancei o primeiro. Se bobear, o nervosismo é ainda maior, pois quando já se tem um público fiel, a expectativa por parte dele é enorme, e eu sei que a expectativa é o caminho mais curto para a frustração. Quando lanço coletâneas de crônicas é mais tranquilo, pois é a reunião de um trabalho publicado em jornais e de certa forma já testado, mas ficção é o gênero literário que menos domino. Sendo sincera: domino nada! É um experimentalismo, uma tentativa, uma insistência minha, já que adoro romances, principalmente os que envolvem as relações humanas e sua atordoante complexidade: torna-se inevitável eu me aventurar. Enfim, obrigada por esse carinho todo que me empurra pra frente. Vocês são os culpados por eu seguir tentando.

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Falando em carinho de leitor, estive na última quarta-feira na cidade de Taquara (RS) e fui superbem recebida por todos, mas uma senhora realmente me comoveu. Assistiu todo o meu bate-papo ali na primeira fila e quando chegou a hora dos autógrafos ela me disse o seguinte: “Excetuando as datas em que nasceram minhas filhas, hoje é o dia mais feliz da minha vida por poder te conhecer”. Caramba, o que dizer? Eu engasguei. Na hora minha mente maquiavélica pensou: “A vida dela não deve ser das mais animadas”, mas logo espantei meu humor negro e admiti pra mim mesma que, se escrever traz recompensas, essa é uma delas.

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Na próxima quinta-feira, dia 28, estarei em Triunfo (RS), às 9h30 da manhã, na Biblioteca Pública João Maia. E no dia 10 de novembro, em Nova Petrópolis (RS).

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Pessoal da Bahia, se liguem: a peça Tudo que eu queria te dizer, com Ana Beatriz Nogueira, estará sendo apresentada nos próximos dias 29, 30 e 31 de outubro (fim de semana que vem) no Teatro Isba, na Av. Oceânica, Ondina.

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A peça está fazendo tanto sucesso que, ao voltar da Bahia, reestreará no Rio no Teatro Clara Nunes, na Gávea. Ficará em cartaz de 5 de novembro a 18 de dezembro, às sextas e sábados, às 19h.

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Ainda não há confirmação de apresentação em outras cidades, mas em 2011 certamente viajará por várias capitais brasileiras. Avisarei assim que souber.

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Hoje busquei meu ingresso para o show de Paul McCartney (comprei pela internet), mas antes dele ainda vou me dar ao luxo de assistir a dois belos espetáculos aqui em Porto Alegre: na próxima quarta-feira, a dança de Mikhail Baryshnikov, no Teatro do Sesi, e dia 04/11 estarei na estreia da peça O Animal Agonizante, no Theatro São Pedro – direção de Luciano Alabarse, com o ator Luis Paulo Vasconcelos e texto inspirado na obra homônima de Philip Roth, um de meus autores favoritos. Comentários sobre tudo isso mais adiante.

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A agenda 2011 que traz algumas frases minhas deve estar nas principais livrarias do país até o final da semana que vem. Talvez até antes! Estamos tentando fazer com que na terça já esteja disponível ao menos na livraria Saraiva do shopping Praia de Belas, em Porto Alegre, onde estarei lançando o Fora de Mim.

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Ba semana, beijos!

Convite

21 de outubro de 2010 42

Mario Vargas Llosa

15 de outubro de 2010 30

Antes de entrar no assunto do nosso prêmio Nobel de Literatura, tenho um aviso a todos que se envolveram com aquela profunda questão existencial da minha vida: que carro comprar. Minha falta de originalidade é tanta (e o tempo foi tão curto para fazer os test-drives que deveria ter feito e não fiz) que acabei adquirindo outro Eco Sport. Só troquei de cor.

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Ontem fui assistir à palestra de Mario Vargas Llosa na auditório (lotado!) da Reitoria da UFRGS, aqui em Porto Alegre, dentro do projeto Fronteiras do Pensamento. A parte mais emocionante da noite foi quando ele entrou no palco. Todo o público se levantou para aplaudí-lo. Me senti honrada de estar na presença de um homem que escreve tão bem e que se posiciona igualmente bem sobre os mais diversos assuntos. O primeiro livro que li dele foi Batismo de Fogo, e isso faz meio século, mais ou menos. Lembro quase nada do livro, apenas que foi uma leitura arrebatadora para a estudante que eu era na época. Se fosse para indicar um livro hoje, indicaria Travessuras da Menina Má.

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A palestra, no entanto, não rendeu o esperado, ao menos não para mim. Prefiro quando o palestrante fala de improviso ou, mesmo com tudo ensaiado, fala de forma espontânea, o que não aconteceu ontem. Llosa leu um longo ensaio sobre cultura. Um texto interessantíssimo, claro, falando sobre as diferenças entre cultura popular e cultura erudita, defendendo que uma não obscurece a outra, e que nossa preocupação deve se reter apenas na banalização do saber.  Gostaria de ter esse texto para lê-lo em casa, com calma, podendo sublinhar trechos, reler, fazer anotações. Ouví-lo por uma hora foi um teste duro de concentração, ainda mais em espanhol, idioma com que tenho boa familiaridade, mas que ainda assim não é o meu. Foi inevitável, ao final da leitura de Vargas Llosa, eu me pegar pensando na morte da bezerra em vez de focar no que estava sendo lido. Não foi só comigo, soube.

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Porém, depois da palestra, Vargas Llosa foi sabatinado por perguntas do público e do secretário de Cultura Sergius Gonzaga, e aí aconteceu o momento de descontração que todos esperavam. Foi ótimo ouvir o escritor falando de sua forma de criação, sua visão de mundo, o impacto de receber um prêmio Nobel, tudo numa conversa mais informal e inclusive divertida, arrancando risadas da plateia.

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Aproveitando que é época de eleição (em tempo: alguns de vocês reclamaram e eu vesti a carapuça: não devia ter deixado passar o comentário de uma leitora que usou sua mensagem para fazer propaganda política, dei bobeira e já deletei, desculpem), vou postar aqui uma crônica que publiquei em agosto de 1998 no jornal Zero Hora, e que posteriormente foi publicada no livro Trem-Bala. Era ano de eleição no Brasil. No texto, citei Mario Vargas Llosa. Mesmo passados 12 anos, é um texto que não ficou datado, creio.

 

PALAVRAS MORTAS

 

Mario Vargas Llosa é peruano e um dos maiores escritores da América Latina. É, também, um político abortado. Tentou candidatar-se à presidência da República de seu país, em 1990, e perdeu no segundo turno para um alucinado Fujimori. O que ficou dessa experiência? As diversas funções que a palavra pode ter.

Reproduzo a seguir um trecho de uma entrevista dada por Vargas Llosa ao jornalista argentino Jorge Halperín e que foi publicada no livro Pensar el mundo, junto a diversas outras entrevistas com personalidades marcantes deste final de século. Halperín perguntou a Llosa o que faz um escritor com as palavras quando as deve usar como político. A resposta: “Para um escritor, a linguagem é seu bem mais precioso. É uma relação que envolve enorme cuidado, respeito, quase uma reverência religiosa. Ela é trabalhada de maneira muito pessoal porque é através dela que criamos nossa identidade como escritor. Já para o político, a linguagem é apenas um instrumento. Como ele quer chegar ao maior número de pessoas, ele a simplifica e a repete. Por isso, em política, é irresistível o uso de estereótipos, clichês, estribilhos, tudo o que em literatura significa palavra morta.”

Minha gente! Brasileiros e brasileiras! Vote em quem vai dar emprego! Vote em quem vai dar educação! Vote em quem vai transformar esse país! Vote por um novo Brasil!

Você ouve essa cantilena desde que nasceu. Palavras ao vento, refrões massacrantes, frases sem conteúdo, sem idéias, sem soluções. Será que a população estranharia um discurso diferente, outras palavras? Confundiria com literatura? Tenho uma curiosidade danada de saber como se sairia um candidato caso nos oferecesse outros verbos, outros predicados, menos slogans. Imagine ele dizendo o que vai fazer, por que vai fazer e, principalmente, como e com que grana. Não seria preciso rimar nem abusar de sintaxes, apenas dar às palavras mais utilidade.

Iniciou-se ontem mais uma maratona de propaganda eleitoral. Os candidatos são os mesmos, a boa intenção é a mesma. O que poderia despertar nosso interesse por essas eleições? Palavras vivas.

 

Martha Medeiros

De Tony Belotto pra vocês

13 de outubro de 2010 21

Olá, todos.

Terminei nesse feriado o livro do Tony Belotto, No Buraco, e, olha, me diverti à beça. O livro é leve, despretensioso e o personagem tem umas tiradas muito engraçadas. Comentei com o Tony que iria dar um toque sobre o livro no meu blog e olha que presentão ele mandou.  Sim, mensagem escrita por ele, especialmente pra vocês.

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Desculpem me intrometer aqui no buraco da Martha (sem duplo sentido, por favor) mas quero aproveitar o acolhimento da boa amiga que sabe tão bem escrever sobre as mulheres para promover meu novo romance, No Buraco (com triplo sentido, por favor), um livro que prova afinal como os homens são mesmo rasos e insensíveis como vocês todas já desconfiavam…brincadeira, o livro conta a história de Teo Zanquis, um ex-guitarrista de rock, que ao enfrentar uma crise de meia idade faz um apanhado de seu passado cheio de sexo, drogas e rock’n roll e chega à conclusão de que, ao contrário do que diz William Blake – o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria -, seus excessos o conduziram a um buraco escuro, amargo e, por que não, muito divertido. Beijos, Tony B.

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O Tony, pelo visto, ainda acha que escrevo só para mulheres, vou ter que dar um puxão de orelhas no rapaz, mas preferi reproduzir exatamente como ele escreveu. Promoção feita, agora ai dele se não comparecer no lançamento do Fora de Mim no Rio. Aqui se faz, aqui se paga.
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No momento, estou lendo “Queria que você estivesse aqui” de Francesc Miralles, e estou gostando. Não esperem mensagem dele aqui no blog, nunca vi o sujeito.
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Escrevi hoje em Zero Hora um texto falando sobre o que de mais moderno vivenciei em Nova York. Para quem não teve acesso, reproduzo aqui. No próximo post, comentarei sobre a palestra de Mario Vargas Llosa que assistirei nessa quinta-feira. Beijos!

 

A BIG APPLE

 

Estive por uma semana em Nova York a fim de oxigenar as ideias e ver o que há de novo, mas não vi nada de novo. A arquitetura segue sendo a grande atração da cidade. Os prédios estão cada dia mais exuberantes, ainda que nenhum me pareça tão arrebatador quanto o Chrysler Building, construído em 1930. A vida cultural novaiorquina é febril, mas a emoção causada pela mostra de Matisse, no MOMA, não foi superior à emoção que tive ao ver a exposição sobre Portinari no MARGS mês passado. E onde mesmo que estão se apresentando por esses dias Baryshnikov, Paul McCartney, Gotam Project, Fito Paez, Green Day e Norah Jones? Sem falar que o Prêmio Nobel de Literatura estará palestrando amanhã ali na Reitoria da UFRGS.

Não cheguei à demência de comparar Porto Alegre com Nova York, mas buscar novidade em Manhattan já não se justifica como justificava décadas atrás. A globalização encurtou distâncias e, guardadas as proporções, o que tem lá, tem aqui, só que fora é mais barato, o que passou a gerar um turismo já não tão interessado em cultura, história e informação. Hoje a maioria dos turistas viaja para os Estados Unidos para fazer compras.

Reconheço que eu ainda tinha uma ideia mitificada da metrópole que me parecia sempre à frente, uma promessa de novas tendências e interesses, e que na verdade passou a ser tão mundana como qualquer outra – o que não é demérito, apenas consequência do nosso avanço, não do deles. O Meatpacking District, o bairro do momento, reúne lojas e restaurantes que não diferem em nada dos de São Paulo. O Brooklyn é o novo Soho, e caminhar por suas ruas me fez sentir em Palermo, na nossa vizinha Buenos Aires. O mundo está cabendo na palma da nossa mão.

Nem na Quinta Avenida, nem na Madison, nem em Times Square consegui algum impacto. A experiência mais moderna que vivenciei em Nova York foi quando entrei na Barnes and Noble, famosa rede de livrarias.

Estava a procura de um livro infanto-juvenil e de jogos de computador que haviam me encomendado. Não conseguindo encontrá-los sozinha, pedi ajuda a um dos atendentes, que na mesma hora localizou o livro (inclusive ele já o tinha lido) e rapidinho me entregou os jogos de computador com a eficiência de um profundo conhecedor das novidades do cyberspace. Não perguntei a idade do guri por uma questão de decoro, mas ele aparentava ter entre 75 e 80 anos.

Emprego de mão-de-obra qualificada sem restrição de idade. Está aí uma visão de mundo futurista. Não existe mais a velhice computada pela data de nascimento, e sim a velhice de espírito. Outro dia li um comentário de uma leitora de ZH sugerindo que parássemos de chamar de idoso o pessoal de 60 anos. Está certa. Não há idade limite para se trabalhar numa locadora, num restaurante, num supermercado, num posto de gasolina: o que define o bom do mau empregado é sua disposição e capacidade. Um garoto de 20 anos poderia ter me atendido sem nunca ter ouvido falar do livro infanto-juvenil que eu procurava e ter tido má vontade para localizar os jogos. Velho mesmo é o sujeito preguiçoso, desatualizado, desanimado, tenha a idade que tiver.

Eu, como se vê, ando caquética pra quase tudo, mas ainda engatinho em busca de algo que realmente me surpreenda.

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Curtinhas

08 de outubro de 2010 30

Olá! Ontem fui na Livraria Cultura dar um beijo no Tony Belotto, que estava lançando No Buraco, seu novo romance.  Voltei pra casa e comecei a ler, e já deu pra sentir que o livro tem uma familiaridade com a literatura de Nick Hornby, que é um autor que gosto muito. O personagem é um loser que foi guitarrista de uma banda de rock que teve uma única música de sucesso e depois desapareceu da mídia sem deixar vestígios. Mais não posso contar pois, como disse, recém iniciei a leitura.

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Dentro da Cultura, surpresa: o Fora de Mim já está nas prateleiras. E eu ainda nem tenho o meu exemplar! A editora deve estar mandando minha cota hoje.

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Aproveitei e comprei Minha razão de viver, relançamento da biografia do jornalista Samuel Wainer, escrita por Augusto Nunes, Do que eu falo quando falo de corrida, do japonês Haruki Murakami, e Uma semana no aeroporto, de Alain de Botton. E aguardam minha leitura também o Gonzos e Parafusos, que Paula Parisot gentilmente me enviou, e Queria que você estivesse aqui, de Francesc Miralles, espanhol que me encantou com seu livro anterior, Amor em minúscula. Ou seja, estarei ocupada até o final do ano.

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Ontem comprei meu ingresso pro show do Paul McCartney!!!!!!!! Na verdade, estou cantando a pedra antes da hora, pois comprei pela internet e a aquisição está em “processo de análise”, o que significa que a produção do show deve estar rastreando meu cartão de crédito pra ver se sobrou um restinho de saldo depois da minha viagem a Nova York. Comprei na fila do gargarejo, uma baba. Mas tenho certeza de que valerá cada centavo investido.

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Se ele cantar Martha My dear, eu morro.

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A Editora Abril lançou uma nova revista feminina chamada Lola. Bem legal. Tem uma materiazinha comigo lá, dêem uma conferida. É coisa rápida, dá para ler na banca mesmo, se a revista não estiver lacrada. Ai. O pessoal da Abril vai brigar comigo.

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Bom feriadão a todos!

Beijos.

New York, New York

05 de outubro de 2010 26

Definitivamente de volta, readaptada à rotina, essa que me faz tanta falta. Supermercado, levar filha pra tirar sangue no laboratório, almoçar com a mãe, responder e-mails, se preparar para escrever os próximos textos e lamentar a quantidade de votos recebidos pelo Tiririca. Desanimante, esse país maravilhoso, musical e coisa e tal. Eu gosto muito de diversão, mas tirar sarro em eleição é burrice.

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Sobre New York, duas perspectivas: o que vivi e o que senti. Vou começar pelo que vivi.

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Viajei com uma amiga que conheço há 25 anos, fomos colegas numa agência de propaganda, depois cada uma seguiu outro rumo profissional, mas nunca perdemos contato. Hoje ela é sócia de um escritório de arquitetura que é referência nacional em restaurações e construções de teatros no Brasil. Isabel, o nome dela.

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Chegamos em Nova York segunda à noite (dia 27). Chovia. Largamos nossas coisas no Pod Hotel (230 E, 51 St), que é uma grande pedida pra quem não quer gastar os tubos, mas gosta de ficar bem localizado. Os quartos são minúsculos, é verdade (pod significa casulo), mas tudo é limpo, de bom gosto, e a frequencia do hotel é da maior qualidade, gente bonita e com espírito de aventura.

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Cansadas e impossibilitadas de grandes caminhadas por causa da chuva, jantamos no bistrô next door, grudado no hotel: Le Bateau Ivre. Croque monsieur e vinho. E naninha.

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O primeiro dia amanheceu nublado e chuvoso. Inauguramos com um café da manhã no Sarabeth, em frente ao Central Park (recomendo o suco “four flowers”), e depois com uma visita ao Ground Zero, área onde ficava o World Trade Center. Impossível não se emocionar ao chegar naquele terreno que hoje está cheio de escavadeiras, tratores, e que foi palco de uma tragédia sem precendentes na história moderna. A ausência das torres comove. Dali caminhamos até o Soho, almoçamos no simpático L´orange bleue - que omelete! – e visitamos uma galeria de arte chamada Clic, onde havia uma mostra que destacava a arte do surf.  Vi fotos, gravuras e montagens que me fizeram ter vontade de voltar aos 18 anos. Já contei pra vocês? Adoro surf. E quem pensa que surfista é alienado está muito mal condicionado pelos clichês.

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Quando a noite chegou, fomos a Columbus Circle e assistimos a um show de jazz comandado por nada menos que Sadao Watanabe, japonês de 77 anos que já tocou com os maiores instrumentistas do mundo e que também se rendeu à influência da música brasileira, como todo bom jazzman. O lugar em que assistimos ao show era incrível. Quem viu o filme “Lost in Translation”, com Bill Murray e Scarlet Johansan, deve lembrar daquele bar do hotel em Tóquio, todo envidraçado, com vista pra cidade, onde eles bebiam, conversavam e ouviam jazz. É o mesmo cenário, só que em Nova York. Sadao Watanabe arrasando com seu sax e sua competentíssima banda, com um fundo todo envidraçado dando vista ao skyline da cidade, e nós ali sentadas numa mesa, bebericando um vinho. Lugar pequeno, aconchegante, num andar alto de um prédio. Ainda no elevador, ao chegarmos, subimos com um pianista de jazz que mais parecia um rapper e que já havia tocado no Free Jazz em São Paulo. O Alan. Conversa vai, conversa vem, virou aqueles amigos de infância de uma noite só. Sentou conosco à mesa. Uma figura.

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Meu inglês é uma porcaria. O da Isabel não é muito melhor. Ainda assim, incrível como todo mundo se entende. É a magia da boa vontade.

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O segundo dia amanheceu ligeiramente fresquinho e com um sol tímido. Fiz minha estreia no metrô novaiorquino (na primeira vez que fui à cidade só andei de ônibus) e voltamos ao Soho, paraíso do consumo charmoso. Me encantei com a loja do MOMA Design, deixei uns dólares por lá, assim como na Victoria Secret, que pode parecer carésima, mas é só famosésima: underwear muito em conta. Esse é o problema dos Estados Unidos: está tudo muito em conta, pirando gregos e troianos. Voltarei a esse assunto mais adiante.

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Almoçamos no The Mercer Kitchen, restaurante bacana, mas com um nenê na mesa ao lado que impossibilitava a conversa. Americanos levam seus pirralhinhos a ambientes adultos o tempo inteiro, não há babás, creches, avós e essas adoráveis invencionices de terceiro mundo.

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Ainda nesse mesmo dia, fiz uma visita à minha livraria preferida, Rizzolli Bookstore, mas pra mim perdeu o encanto, talvez pela mudança de endereço, e conheci a megastore da Apple, na esquina do Central Park, em frente ao antigo hotel The Plaza. Entrei naquele antro de perdição e só ouvia a voz das minhas filhas retumbando nos meus ouvidos: “Mãe, compra um MacBook, é três vezes mais barato que no Brasil!”

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Não comprei. Not yet.

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À noite: cataclisma cultural. Fomos a um teatro na Union Square assistir ao espetáculo Fuerza Bruta, há anos em cartaz, sucesso absoluto de uma trupe argentina (aliás, o mesmo espetáculo está em cartaz no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires). É um impacto. Já sabiamos que deveriamos ir vestidas totalmente à vontade (jeans, camiseta e tênis) e que não haveria assentos, assiste-se em pé. Chegamos e fomos encaminhadas a um grande espaço escuro onde no chão há um círculo desenhado. Todos ficam dentro do círculo, e não se enxerga nada em volta: de onde virão os artistas, cadê o palco, pra onde se olhar? Nobody knows. Então surge no alto um DJ tocando música eletrônica e a rave começa. É isso: uma rave performática. Instrutores dividem o público ao meio e começa o show, que mescla teatro, dança e interação com a plateia. Um ator, no meio de todos nós, faz seu número e se molha com uma chuva cenográfica, enquanto os pingos caem sobre todos que ali estão. As atrizes dançam num palco e a gente dança junto. Tudo é surpreendente, bizarro, teatral, estranho, até que o grande momento acontece: do teto, começa a descer uma piscina plástica, onde quatro dançarinas fazem coreografias dentro d´água. Uma piscina suspensa sobre nossas cabeças! E a piscina transparente desce, desce, a ponto de esticarmos as mãos e tocarmos no seu fundo, interagindo com as dançarinas. Certamente não estou conseguindo explicar o efeito, é muito mais louco do que minha narrativa permite. Só posso dizer que é sensacional e apavorante, porque se tem a impressão que a piscina irá explodir e a água cairá sobre nós, mas não acontece. Tudo termina com a sequência da rave, atores e público dançando juntos sobre o embalo do DJ, que é um personagem à parte. Vibrante. Amazing. Quem estiver de passagem marcada pra NY e não for de muita frescura, reserve. Se não confiam na minha opinião, saibam que já estiveram por lá Demi Moore, Ashton Kutcher, Bradley Cooper, Jude Law, Pierce Brosnan, Orlando Bloom, Serena Williams, Shakira, John Legend e Beyoncé, não é um casting de respeito? Eu e Isabel compramos ingressos pela internet antes de embarcar, tudo reservado com antecedência. O espetáculo dura 1 hora exata. Há imagens no youtube.

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Dia seguinte: MOMA. Havia uma mostra especial do Matisse, mas ela não me cativou tanto quanto a mostra permanente do museu, que inclui Miró, Picasso, Kandisnky, Cezanne, Seurat (AMO Seurat!), Van Gogh, Klimt, Dali, Monet, Modigliani, Magritte. Banquete para 400 talheres. Mas não era um banquete, era de manhã. E havia um dilúvio lá fora. O prédio do MOMA é uma obra de arte à parte. Todo envidraçado. Tirei muitas fotos de dentro pra fora, clicando as ruas molhadas. São os melhores registros da cidade que fiz.

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Almoço no Robert, recém-inaugurado restaurante no 9º andar do Museu de Arte e Design. A vista pro Central Park seria um deslumbre se não estivesse chovendo tanto, mas nada atrapalhou a degustação da minha salada Ceaser.

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Fim de tarde no bairro da moda: Meatpacking District, que é um charme mesmo, mas com chuva, todo charme desbota. O High Line Park, pequena área verde suspensa sobre trilhos ferroviários, deve ser bacana com sol. Acizentada, não me emocionou.  Mais vale uma caminhada pelas ruazinhas residenciais. Os best moments desse pequeno tour foram o Chelsea Market, um mercado coberto com muitos recantos gastronômicos, e o restaurante Pastis, point bombadíssimo, onde comi um ravioli de lagosta memorável (prato do dia!).

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Mesmo sendo prato do dia, nunca achei os restaurantes baratos, assim como o transporte público: tudo caro! Barato são os artigos de vestuário, louça, cosméticos, acessórios. Nova York é um Paraguai glamurizado.

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No outro dia choveu mais do que nunca. More than ever. Eu e  minha amiga nos concedemos um day off, cada uma na sua (como deveria acontecer nos casamentos inteligentes). Sozinha da silva, entrei numas papelarias (meu luxo de consumo) e fui conhecer o New Museum, que arquitetonicamete é um encanto, mas dei azar: os terceiro, quarto e quinto andares estavam fechados. Restava o segundo, com uma mostra estúpida (a arte contemporânea tem esse cacoete de ser, muitas vezes, estúpida) e o sétimo andar, cuja “arte” é a vista da cidade, mas chovendo cats & dogs, não valeu o preço do ingresso.

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Voltei à loja da Apple. Já tinha amigos lá, passava todos os dias à tardinha para dar um hello. Compro ou não compro o Mac da minha filha? (que será 50% meu, óbvio).

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Tenho uma amigona desde outra encarnação que casou com um americano e vive na Carolina do Sul. Surprise! Ela veio a Nova York me visitar! Jantei com ela (Alice) e minha amiga Isabel numa brasserie há poucas quadras do hotel. Pizza e vinho e risadas! Amizade antiga é a melhor refeição do mundo.

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Deus existe! No sábado, amanheceu um espetacular sunny day, sem nenhuma nuvem no céu. Eu e Isabel cruzamos o Central Park, invadimos uma maratona, nos intrometemos, fizemos um estrago saudável na manhã dos novaiorquinos, e depois fomos tomar nosso suco “Four Flowers” no Sarabeth, de novo. Lá encontramos Alice e fomos até Washington Square, e depois ao Soho, só que bateu uma aflição: todas as pessoas acordadas em NY estavam no Soho, o planeta inteiro concentrado em meia dúzia de ruas. Plano de fuga! Eu e Alice pegamos uma rua lateral e conversamos tanto que nem nos demos conta de quantos quilômetros caminhamos. Isabel havia ficado no Soho porque é louca.

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À noite, jantar no tradicionalíssimo P.J.Clarkes, que já foi considerado o melhor hamburguer da cidade, em priscas eras. Hoje os “the best of” mudam a cada semana, mas pra não fazer desfeita à tradição, lá ficamos, pedimos hamburguer, cerveja e fomos muito felizes.

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Domingo, último dia. Ainda um resto de sol, mas já com um vento outonal, pedindo um cashemere. Programaço: Alice nos encontrou no hotel, pegamos um metrô até a última estação na pontinha da ilha e atravessamos a pé a Brooklyn Bridge. É uma experiência. Do lado de lá, rumamos para Williamsburg, também conhecido como Billburg, o bairro fervido do Brooklyn, mas menos fervido que qualquer ponto de Manhattan. Maravilha caminhar pela Bedford St e cruzar com seus bistrôs, galerias, lojas, tudo com um movimento civilizado. O bairro tem um ar de Palermo, em Buenos Aires. Como boa portenha que, em minha imaginação, também sou, me senti em casa.

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Alice voltou pra sua Greensville, onde vive, e eu e Isabel nos despedimos de Nova York tomando um drinque chiquetésimo na cobertura do hotel The Strand, um lugar pequeninho, com um lounge com ótima trilha sonora e vista inacreditável para o Empire State todo iluminado. Voltei pro Brasil sozinha no dia seguinte. Isabel ainda foi pra Houston.

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Fim dos nossos serviços.

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Não, ainda não acabou: comprei o Macbook. Minha filha acaba de descobrir que sou a melhor mãe do mundo. Malandra.

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Descrevi o que vivi, e foi muito bom. O que senti é diferente. New York, mesmo com todo seu magnetismo, não é compatível com meu jeito de ser. Tenho verdadeiro horror ao frenesi consumista que a cidade impõe. No aeroporto, quando voltei, eu parecia uma bóia-fria perto daqueles outros viajantes que despachavam cinco ou seis malas gigantes onde traziam pra casa Manhattan inteira empacotada. Até o lazer de Nova York parece business. Faz falta uma certa classe, uma certa elegância, que encontro ainda na Europa, e não sei por quanto tempo. Sem falar no sol, que pela altura dos prédios novaiorquinos, não alcança as ruas, está impedido de fazer parte da cidade, a não ser em parques e olhe lá. Nova York me ofusca mais do que me ilumina, me cansa mais do que me descansa. É uma baita cidade, sem dúvida, e eu não seria maluca de desprezá-la, mas meu pique de viagem agora é outro, mais lento, mais contemplativo. Next stop: Tailândia, Caribe, Croácia, Itacaré, qualquer lugar que me resgate.

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Dado o recado.

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Beijos!

Direto de Nova York!

03 de outubro de 2010 21

Acharam que eu havia esquecido de voces? Pois estou escrevendo aqui de NY. Desculpem o teclado sem acentos, mas pintou uma oportunidade de bater um papinho rapido. Estou fazendo as malas, amanha de manha pego o voo de volta pra casa. Viajar eh muito bom, mas retornar nao tem preco…

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Well, well, curti muito cada minuto aqui, mas a verdade eh que NY eh uma jungle, me sinto um pouco oprimida pelo gigantismo de tudo: os predios, o agito e o desenfreado consumismo – esse eh um capitulo a parte, falarei mais adiante, quando estiver em casa.

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Muita gente na rua, o planeta inteiro caminhando pelas calcadas, todos os idiomas falados ao mesmo tempo. Peguei muita chuva nos primeiros dias, mas ontem fez um espetacular sunny day e fui pro Soho, porem todos os habitantes e visitantes da cidade tiveram a mesma ideia. Hoje, domingo, inverti: fui pro Brooklyn (atravessamos a ponte a pe, muito legal) e la estava tudo bem mais calmo, foi uma delicia de passeio.

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No aspecto cultural, destaco tres grandes programas: a visita ao MOMA (Museu de Arte Moderna), um show de jazz com Sadao Watanabe e o espetaculo Fuerza Bruta, absolutamente incrivel. Em breve comentarios mais detalhados.

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Tenho uma amiga que mora na Carolina do Sul ha muitos anos e generosamente veio a NY passar o final de semana com a gente, uma querida. Acabamos de nos despedir. A proxima vez que a verei? Nao faco ideia.

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Ja votaram? Dessa eu escapei. Estava muito desmotivada com essa eleicao. Geralmente gosto muito de cumprir com meu dever civico, acho importante, mas… Fica pra proxima.

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Provavelmente retorno ao blog na quarta. Obrigada por todas as mensagens gentis, li e amei.

See you soon!

Beijos!

Teatro a artes plásticas

26 de setembro de 2010 25

Antes de partir, deixo aqui alguns comentários prometidos. Fui assistir à peça In on It e gostei bastante. Não é uma peça fácil – sempre que há metalinguagem, a coisa fica mais elaborada, mas o que curti foi testemunhar o ofício de dois grandes atores, e ver o quanto o bom teatro é capaz de se comunicar com recursos mínimos, e ainda assim criar um universo. No palco, duas cadeiras, um casaco que passa de um ator para o outro, e a luz. A iluminação ajuda a contar a história. In on It é um laboratório, dois atores à procura de uma cena, de uma conexão e de uma explicação pra vida. Simples assim, complicado assim. Mas fascinante.

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Cada vez mais me irrita a necessidade que a plateia tem de rir de qualquer coisa. Quando fui ver Maria do Caritó, com Lilia Cabral, tinha uma moça ao meu lado que ria absolutamente por nada, ria quando Lilia entrava em cena em silêncio, ria de coisas sem graça alguma, ria porque ela saiu de casa com essa intenção: se não rir, é sinal de que não se divertiu, e a noite estará perdida. É verdade que algumas coisas nos fazem rir a valer, mas existe o riso silencioso, o riso cerebral, o riso interno, que é uma manifestação menos escrachada do humor. Mas sinto que as pessoas não se contentam em achar graça em particular, elas precisam gargalhar em voz alta, mesmo quando a graça não é tão explícita. Aconteceu de novo em In on It. Gente forçando. Marcando presença com um riso tipo: “foi pra isso que eu saí de casa”. É uma coisa que me enerva: transformar a arte em circo.

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Ontem fui prestigiar o lançamento do livro de Heloisa Crocco, Topomorfose. Que tarde agradável. O estúdio da Heloisa fica às margens do Guaíba, e peço licença aos não moradores de Porto Alegre para explicar: a capital do Rio Grande do Sul, essa cidade onde vivo, tem uma zona sul e uma zona norte muito delimitadas, sendo que a zona sul é quase outro país, às vezes fico inclinada a levar meu passaporte quando vou atravessar pro lado de lá. O estúdio da Heloísa fica no estrangeiro, e cada vez mais tenho apreciado esse lado da cidade, tão mais conectado com a natureza. A palavra-chave do trabalho da Heloisa é justamente “natureza”. Sua matéria-prima é a madeira, e é impressionante o que ela consegue fazer com lascas, vísceras de troncos, sulcos, folhas, sementes, tudo que vem da terra. Cada vez mais, a natureza tem sido a minha religião.

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Obrigada pelos elogios à entrevista com Roberto D´Avila, Também fiquei bastante satisfeita com o resultado. Quem quise assistir (ou rever), é só acessar o site: http://www.tvbrasil.org.br/conexaorobertodavila/

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Estou fazendo a mala para partir amanhã de manhã cedíssimo (cedo mesmo, tenho que estar às 5h da manhã no aeroporto, ainda bem que acordar com as galinhas não é um problema pra mim). Estou tentando fazer a mala mais enxuta do mundo, sou boa nisso, mas é New York, caramba. Temos espetáculos agendados, o que exige uma certa compostura indumentária. E infelizmente a previsão é de muita chuva essa semana. E está fazendo calor de dia e frio à noite. Mala enxuta nessas condições, complica. É preciso estar preparado para as intempéries. Mas vou dar um jeito. Menos bagagem, sempre! Em todas as circunstâncias da vida.

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Agora sim, tchau. Vou num pé e volto no outro. Num piscar de olhos estarei de volta.

Beijos!