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Posts com a tag "Poesias"

Poemas inéditos

20 de março de 2010 48

Conforme prometido, aí vão alguns poemas meus que nunca foram publicados. Saídos do forno só pra vocês. E assim encerramos essa semana poética. Gostaria de ter aberto espaço pra mais gente, gostaria de ter selecionado os poemas com mais calma, mas confesso que foi tudo feito na correria, tenho que reencontrar meu ritmo. Bom final de semana a todos!

*

meu caro estranho, nossa estranheza nos levou à cama
e seguimos nos desconhecendo
não perguntei de onde vieram tuas cicatrizes
e não me perguntaste se eu já havia usado o cabelo mais curto
simplesmente nos beijamos e dispensamos todos os porquês
fui uma mulher qualquer e fostes mais um homem
e se esse descompromisso não merece ser chamado de amor
ainda assim não carece ser desfeito e esquecido
meu caro estranho,
mesmo nos amores não há nada muito além disso
————————
o que eu lembro de nós, e teria tanto pra lembrar, são apenas as mãos entrelaçadas
naquela tarde numa mesa de calçada, era um bar, nada mais havia para conversar
tentamos dizer as últimas palavras, dar um epílogo decente ao nosso amor
mas nenhum sentimento era soletrável, parecíamos dois gagos rumo à desistência
então tuas mãos pegaram as minhas, teus dedos brincaram com meu anel
e nem era um anel dado por ti, jamais perguntaste sobre meu passado
e meus dedos encaixaram-se entre os teus, e as pontas dos polegares roçaram-se
e os chopes esquentaram, o silêncio tomou posse da mesa, nossas mãos de uma ternura que seríamos incapazes diante do final, e é delas que eu lembro, não envelheceram
te amo com as mãos até hoje, te escrevo, agora escreva pra mim, com as tuas
————————————————
que valentia é essa de que me vanglorio? a valentia de atravessar a rua
mas é da covardia de não me enfrentar que me alimento e sangro todo dia
apontassem uma arma para o meio da minha testa eu urinaria minha coragem
que eu sou valente é para a molecagem e não para o que presta
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Quantas histórias que eu não escrevi por recato
Da vez em que quase fui estuprada mas ele escapou antes
Da vez em que chorei dentro do ônibus com um cachorro-quente esfriando nas mãos
Não havia jantar em casa, estava sem dinheiro e tive pena de mim
O cobrador também, mas cobrou a passagem mesmo assim
———————————————————–
um, dois e quando me dou conta, já fui, me joguei
antes de contar até três disse o que não era para ser dito
fiz coisas que não era para ter feito
me arrebento rápido, nem dói de tão ligeiro
mentira, dói de qualquer jeito
————————————————————–
Beijos!

Ave, Quintana!

19 de março de 2010 23

Frases soltas, espirituosas e poéticas de um dos nossos maiores poetas, Mario Quintana.

*
Nós somos o que temos e o que sofremos
*
Diplomacia: ter a idade da pessoa com quem se fala
*
Filosofia é, em última análise, a triste arte de ficar do lado de fora das coisas
*
Que este mundo pode ser que não preste, mas é tão bom de ver.
*
Nunca me senti bem nas salas de estar. Salas de estar… Mas de estar o quê?
*
Sonhar é acordar-se para dentro.
*
Um poeta que se explica parece que está se desculpando.
*
Não se devia permitir nos relógios de parede esses ponteiros que marcam os segundos: eles nos envelhecem muito mais do que o ponteiro das horas.
*
Os extrovertidos são julgados normais. Quanto aos introvertidos, chegam a submetê-los a tratamento. Mas para curá-los de quê? De não poderem ser chatos, como os outros?
*
O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.
*
Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo.
*
Amizade: quando o silêncio a dois não se torna incômodo.
Amor: quando o silêncio a dois se torna cômodo.
*
Não gosto de estar dormindo nem de estar morto perto de ninguém.
*
Decifrar palavras cruzadas é uma forma tranquila de desespero.
*
O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.
*
Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.
*
Beijos!

Eles e os poemas

18 de março de 2010 12
Duas vezes Paulo Leminsky, que faz tanta falta.
Essa a vida que eu quero,
querida.
Encostar na minha
a tua ferida
*
abrindo um velho caderno
foi que descobri
antigamente eu era eterno
——————————————-
Um Michel Melamed sucinto:
Antes de mais nada, tudo.
———————————–
Rubem Braga!!!!! Resumindo a razão pela qual a gente não consegue
levar um rompimento adiante.
Tudo o que nos separava subitamente falhou
—————————————–
O sobrenome denuncia, ele é filho do homem: Francisco Bosco, tão
bom quanto o pai.
Quando alguém se torna um escritor?
Quando finalmente está insatisfeito.
*
Há os que só lutam quando são chamados
há os que só quando bem preparados
há os que sem luva- à mão livre, nua
*
Manuel Bandeira alertando:
A arte é uma fada que transmuta
e transfigura o mau destino
Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta.
Cada sentido é um dom divino.
—————————-
Antonio Cícero, irmão e parceiro musical de Marina Lima.
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la
Em cofre não se guarda coisa alguma
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-l, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
para guardá-lo:
para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarda o que quer que guarda um poema:
por isso o lance de um poema:
por guardar-se o que se quer guardar.
——————————
Quem ainda não conhece Fabricio Carpinejar? Conterrâneo. Conheça!
O que não chegou a ser dito existe
o que foi dito na hora errada existe
o que não quiseste dizer existe
————————-
E pra finalizar, um tal de Chico Buarque:
mesmo sendo errados os amantes
seus amores serão bons
————————————
Amanhã, apenas e muito Mario Quintana.
Beijos!

Versos de algumas mulheres

17 de março de 2010 19
Fala agora Vera Americano, poeta mineira de família goiana:
Postar-se
no desvão
entre dois argumentos,
por dois segundos
Respirar
economicamente
entre duas palavras,
duas ondas,
muito crespas
Decidir
em sãnscrita ilusão:
viver
ou deixar para mais tarde
*
Se não experimentas
o cimo
cala-se a montanha
Se a profundeza
não tocas
fecham-se as águas
*
E às palavras sem dono
o derradeiro aviso:
não estou
para ninguém
*
Nem longe,
nem perto:
esquerdo
Nem amor,
nem ódio:
sossego
Nem feliz,
nem triste:
humano.
*
Às vezes,
viver
é a pura dor
do nosso baú de enigmas
——————–
Aí vem ela, o furacão Elisa Lucinda, em pequenos drops poéticos e um poema completo no final.
alguém sempre chega
aguém sempre demora
*
eu te amo
pelo que nos acontece
*
Meu desespero
e quando até as aeromoças sentam
*
Talvez você se depare com seu medo
bem no meio
da sua coragem
*
A vida não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre em nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!
———————————-
Adélia Prado, a mestre de todas nós.
Casar, ter filhos,
foi tudo só um disfarce, recreio,
um modo humano de me dar repouso
*
Eu quero a revolução mas antes quero um ritmo
*
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
*
Nada nunca está morto
O que não parece vivo, aduba

O que parece estático, espera.

Beijos!