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Uma noite com Paul McCartney

08 de novembro de 2010 75

Quem estava lá, não precisa nem ler esse post. Nenhum relato conseguirá ser amplamente fiel ao que se passou na noite de domingo, 7 de novembro, no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. Mas vou tentar.

Cheguei de táxi por volta das 18h30, com o sol alto e forte, acompanhada de minha mãe de 72 anos e minha filha de 14: as sortudas ganharam um convite de última hora para assistirem ao show num camarote. Lá se foram elas pro bem bom, e eu fui sozinha pro gramado. Queria ficar bem perto daquele sujeito que tanto fez minha cabeça na infância e adolescência. Ele não era um estranho pra mim. Praticamente dividimos o mesmo quarto.

De cara, encontrei uma prima sentada no gramado, havia ido sozinha também e já estava de papo com um argentino que é vocalista de uma banda cover dos Beatles. Aí chegou mais outra amiga com a filha – essa, namorada do DJ Pic Schmitz que dali a instantes subiria ao palco ao lado do guitarrista Fred Mentz e do saxofonista Vinicius Netto para fazer um pocket show de aquecimento. O sol já havia baixado quando surgiram uns adolescentes vindos direto da prova do ENEM. Ao me verem, contaram  que uma das questões trazia um trecho de um texto meu. Me mostraram a prova e perguntaram se haviam acertado. Dei uma olhada e confirmei: sim, todos haviam acertado. Pra quem fez a prova e lembrar da questão, a resposta certa é a letra E (se não for, mandem os organizadores se entenderem comigo).

Faltava cerca de uns 40 minutos pra começar o show e já estava todo mundo em pé, ninguém mais conseguia sentar sob o risco de virar mingau. Os telões começaram a mostrar uma colagem de ícones da era beatle: fotos, gadgets, capas de disco, reportagens da época, recortes do álbum de família dos fab four e cenas dos filmes da banda, enquanto rolava nos alto-falantes sucessos de Paul em versão techno.

O Beira-Rio lotadaço. A noite estrelada. Calor. De vez em quando soprava uma brisa, mas leve demais pra dar conta daquele caldeirão. Estávamos avisados: o clima ia esquentar ainda mais.

Às 21h10, era dada a largada pro show mais formidável das nossas vidas. Paul entrou ovacionado. Vestia um blaser puxando pro roxo, camisa branca e calças pretas. E uma bota com um pequeno salto, uns três centímetros. Sem um fio branco na cabeça. Será que ele pinta? Se pinta, usa uma tintura melhor do que a do Reginaldo Rossi. Ninguém diz.

Venus and Mars Rockshow abriu a festa, e a partir dali foram três horas e 35 canções para agradar gregos, troianos, visigodos, gaúchos e forasteiros. Ninguém saiu de mãos abanando do estádio. Já na terceira música ele cantou a primeira da série de música dos Beatles incluídas no repertório: All my loving. Tremi o queixo, mas segurei o choro. E só isso segurei. Pulei demais. Cantei. Dancei. Fiz valer cada centavo investido.

Gostei de tudo, mas se eu tivesse que fazer meu compacto dos melhores momentos, incluiria Drive my car, 1985, My love, Something (o queixo tremeu de novo), Band on the run, Back in the USSR, Let it be, Live and Let Die e Hey Jude, claro. Ouvir 50 mil pessoas sendo regidas pelo maestro McCartney e cantando juntas “na, na, na, na.na, na, na, Hey Jude” vai para o livro que, quem sabe, um dia eu escreva sobre as coisas que mais me emocionaram na vida. Acaba de me ocorrer um título provisório: “Me belisca”.  

A essa altura eu já não estava mais no meio da massa. Minhas costas pegavam fogo (a tia aqui não tem mais 17 anos), estava morrendo de sede e precisava de um pouco de espaço. Fui para uma área mais afastada, menos congestionada, e sentei um pouco numa arquibancada com meu copo de Pepsi na mão, eu que prefiro Coca. Mas era o que tinha, e não era uma noite para se reclamar de nada.

Quando Paul começou a tocar Helter Skelter, foi a senha para minha retirada. Sabia que ele encerraria o show logo após, com Sgt Pepper, e que seria uma despedida linda, mas olhei para aqueles 50 mil ao meu redor e fiz um cálculo rápido: por baixo, 5 mil vão precisar de um táxi. Melhor eu me adiantar.

Joguei um beijo pro cara lá longe, no palco, e algo me diz que ele não apenas viu como retribuiu, só que as câmeras não pegaram a cena. Não importa. Nossa intimidade não é da conta de ninguém. Saí na maior tranquilidade do estádio, com a alma lavada, e voltei pra casa, onde encontrei minha filha de 19 anos, que prefere música japonesa a Beatles. A de 14 chegou do show logo depois de mim. Ficamos as três sentadas na cozinha falando de música e da vida até uma e meia da manhã, e teríamos ficado mais, não tivéssemos que acordar cedo na manhã seguinte.

Mas eu ainda não acordei.