Novo filme do diretor Paul Greengrass marca mais uma parceira com o ator Matt Damon
Paul Greengrass é um dos diretores mais corajosos da atualidade, além de ser um dos melhores. Ele não tem medo de expor suas visões e alguns de seus trabalhos acabam causando uma sensação indigesta por tratar questões complicadas de maneira tão escancarada. Domingo Sangrento é um filme sensacional que mostra como a ação violenta do exército britânico durante um protesto pacífico na Irlanda do Norte acabou aumentando a influência do IRA na região. Vôo 93 é um dos melhores filmes sobre o 11 de Setembro, baseado em relatos e gravações de dentro do único avião sequestrado que não conseguiu atingir seu alvo.
Voltando a colocar o dedo na ferida dos Estados Unidos, Greengrass retoma um assunto aparentemente esquecido pelo mundo, talvez até por vergonha. Zona Verde (Green Zone), seu mais recente trabalho, que já está em cartaz, aborda a obsessão (e necessidade) do governo norte-americano em provar a existência de armas de destruição em massa no Iraque, motivo que levou o presidente Bush a declarar guerra ao país.
Baseado no livro A Vida Imperial na Cidade Esmeralda, do jornalista Rajiv Chandrasekaran, o filme se passa em 2003, semanas após os Estados Unidos invadirem o Iraque. O subtente Roy Miller (Matt Damon) coordena uma equipe encarregada de encontrar tais armas de destruição em massa no país. À medida que suas ações acabam sempre frustradas, ele começa a desconfiar das orientações que recebe. E quando decide investigar suas fontes de informações, se vê obrigado a optar entre buscar a verdade ou dar ao governo norte-americano a justificativa que necessita. Não é preciso ser gênio para imaginar aonde a história quer nos levar.
A adaptação do roteiro ficou com Brian Helgeland , que já havia feito grandes trabalhos em Los Angeles – Cidade Proibida e Sobre Meninos e Lobos. Novamente ele faz um roteiro sensacional, cheio de intrigas que se resolvem sem deixar nenhum furo e com vários personagens marcantes que se cruzam na história. (Apenas uma certa incoerência detectada, quando Miller nem desconfia que, ao usar o veículo do Exército para uma atividade não-oficial, ele poderia ser rastreado. Um excesso de ingenuidade para um militar de alto escalão, mas que merece ser desconsiderado por toda a riqueza da trama).
O protagonista, claro, é Damon, na sua terceira parceria com o diretor e que, como sempre, faz um excelente trabalho. A dupla mais uma vez comprova que é possível fazer filme de ação com muita inteligência. Um amigo com quem assisti ao filme fez um interessantíssimo comentário sobre a atuação de Matt Damon. Algo como ele ter sempre cara de cansado e, em filmes de ação, além da tensão pelo próprio filme, ficamos também preocupados se o ator vai conseguir chegar ao fim de sua missão. E ele tem razão mesmo! Com desenrolar da história, Damon está cada vez mais exausto e tenso.
Numa história cheia de personagens complexos a escolha dos atores coadjuvantes é essencial e este é também um dos pontos altos de Zona Verde. Greg Kinnear, um excelente ator, rouba a cena como o representante do governo norte-americano no Iraque, um homem preso em suas próprias convicções e capaz de tudo para torná-las reais. Destaques também para Khalid Abdalla, que já havia trabalhado em Vôo 93, Brendam Gleeson, sempre carismático, e Jason Isaacs, um ator muito versátil e que sempre rende ótimos vilões.
Zona Verde já causa impacto na cena inicial, mostrando de longe os primeiros bombardeios ao Iraque, com uma narração jornalística ao fundo. A partir daí, já sabemos que estamos diante não só de um ótimo filme de ação, mas também de um relato crítico sobre um episódio da história mal resolvido. Coincidência ou não, a última cena é bem similar a esta. Talvez uma maneira do diretor mostrar que, assim como no filme, na vida real a guerra tambem não acaba.
A direção de Arte foi muito eficiente ao abusar dos contrastes entre as ruas de uma Bagdá destruída e caótica e a luxuosa Zona Verde, também chamada de Cidade da Esmeralda, área nobre de Bagdá que foi a base do governo norte-americano. Nessa diferença de cenários, é possível compreender as diferenças entre a realidade vivida pelos iraquianos e a realidade imposta pelo governo norte-americano, definada em quartos de palácios ou na beira da piscina de grandes hotéis.
Assim como em Vôo 93, Greengrass opta pelo realismo e, para isso, conta novamente com o competentíssimo Barry Ackroyd na direção de fotografia (além de Vôo 93, também foi responsável pela excelente fotografia de Guerra ao Terror). Muitos planos fechados, câmera na mão, movimentos rápidos e imagens granuladas conseguem nos impregnar com a sensação de realidade.
A sequencia final de perseguição é muito bem elaborada, embora um pouco longa demais. É aí que Greengrass não resiste e ressuscita Jason “Damon” Bourne. Durante a maior parte do filme até é possível dissociá-lo dos cultuados O Ultimato Bourne e Supremacia Bourne, mas neste ponto o subtente Roy Miller dá vida ao perturbado agente da CIA , com toda sua ultra agilidade e esperteza. No entanto, isso nem chega a ser ruim. Apenas um preciosismo que antecede um desfecho genial.








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