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A primeira e única sessão

25 de março de 2011 2

Minha avó não era uma típica vovó. Apesar de seus belos cabelos brancos que pareciam nuvens num lindo céu azul, ela não preparava guloseimas, nem me contava histórias. Não era muito simpática, nem gostava de criancinhas. Mesmo assim, era especial. Nossa relação foi se intensificando à medida que fui amadurecendo e compreendendo suas limitações. Demorei a entender seu universo e fazer as devidas concessões. Mas acabamos nos tornando muito amigas e cúmplices. Às vezes, chegava no seu apartamento e não falava absolutamente nada, apenas segurava sua mão enrugada (mas com as unhas sempre bem feitas) e ficávamos ali, quietinhas, uma prestigiando a melancolia da outra, sem culpa nem julgamentos. Em outros momentos, ela lamentava sua vida e todos os rumos que a levaram até ali. Eu lamentava junto, uma maneira de exorcizar também as minhas frustrações. Minha vó podia ter vários defeitos, mas eu aprendi a amá-la do jeitinho que era e, para mim, foi a melhor vó que eu poderia ter tido.

Isso tudo veio à minha cabeça numa tarde em que fui sozinha ao cinema, coisa que não fazia há mais de anos. Naquele público seleto que aguardava o início da sessão, observei algumas senhoras de cabelos brancos. Um vazio imenso tomou conta do meu peito e comecei a chorar tanto que a certo ponto o sabor do meu expresso sem açúcar se misturou com o das minhas lágrimas. Inicialmente não entendi aquela comoção, mas depois de refletir alguns instantes lembrei que naquele mesmo cinema, há alguns bons anos, assisti a um filme com minha avó.

Num espaço de tempo impossível de determinar agora, mas que não deve ter passado de cinco minutos, dei uma boa vasculhada no empoeirado baú de minhas recordações e lembrei tantas coisas… A história do filme, o rosto da atriz, a nossa insatisfação ao sair da sessão. Constatei que aquela havia sido a única ocasião em que eu e minha avó havíamos ido ao cinema e que aquele fora o primeiro dos únicos dois filmes que assistimos juntas – o segundo foi Casablanca, quando comprei o DVD.

Era uma comédia italiana que mostrava a incessante busca de uma mulher por um sentido na vida, indo contra tudo o que seus pais da alta burguesia desejavam para ela. Não tenho como especificar melhor minha opinião, trata-se de um filme simpático e mediano, sem grande relevância, mas que a partir de agora ocupa um cantinho especial no meu coração. (Assim que rever, escrevo minhas impressões.)

Este texto teria muito mais dramaticidade se eu tivesse lembrado todos os detalhes do filme naquele momento, mas não foi assim. Não consegui lembrar o nome do filme, nem o de sua protagonista, mas recordei que ela havia contracenado com um ator italiano em outro filme do qual gostei muito, cujo nome também não lembrava, sobre uma mulher que, após a morte do marido, descobre que este tinha um caso homossexual e acabava se envolvendo com o amante do falecido. Este mesmo ator também atuou no maravilhoso O Último Beijo (2001), uma comédia deliciosa sobre a eterna busca por paixões e as dificuldades de se amadurecer . O Google é o protetor dos desmemoriados e fazendo a pesquisa de trás para frente, cheguei aos resultados. Em tempo: o filme que assisti naquela tarde com minha vó foi Em Busca do Paraíso (1995), estrelado por Margherita Buy, que em 2001 atuou ao lado de Stefano Accorsi no delicadíssimo drama Um Amor Quase Perfeito. E já que o cinema italiano domina o parágrafo, vale ressaltar que O Último Beijo tem também como protagonista a bela Giovanna Mezzogiorno, que estrela o fabuloso Vincere (2009).

Há 16 anos, eu e minha querida avó tivemos nossa primeira e única sessão de cinema juntas.

Minha avó partiu nos primeiros dias deste ano. Fui a última pessoa da família a vê-la com vida. Saí da sua casa prometendo voltar e ficar mais tempo com ela. Infelizmente não tive esta chance. Por um acaso, ou por uma ironia do destino, estava sozinha em Porto Alegre quando ela faleceu e coube a mim a árdua tarefa de assumir todas as questões burocráticas do funeral. Foi tanta correria que nem deu tempo de pensar no que havia acontecido.

Naquela tarde, naquele cinema, tomando um café expresso sem açúcar e aguardando o início de mais uma sessão, tudo isso veio à tona. Senti muita saudade da minha avó. Percebi o quanto ela faz falta na minha vida. Chorei pensando nos filmes que não vimos juntas, nas tantas vezes que não tive tempo para ela. Imaginei como teria sido bom se tivéssemos assistido lado a lado a outros tantos clássicos, se tivéssemos ido mais vezes ao cinema. Acho que ela nunca teve a noção desta minha paixão e isso me causou uma dor tão grande no peito. Deixei de compartilhar com ela momentos muito especiais na minha vida.

Este devaneio não durou muito. Havia chegado a hora da minha sessão. Terminei meu café, sequei as lágrimas e me dirigi para a sala de exibição.

E para quem me acompanhou até aqui, segue a ficha dos quatro filmes italianos recordados nesta avalanche emocional.

Em Busca do Paraíso (Facciamo Paradiso), 1995 (Itália-França)
Atores: Margherita Buy, Philippe Noiret, Aurore Clément, Lello Arena.
Direção: Mario Monicelli
Mulher nascida nos anos 50 em família da alta burguesia rema sempre contra a maré que os pais desejariam para ela; criancinha, exigia ser batizada, para horror dos pais, ateus praticantes; adolescente nos libertários anos 60, virou hippie, participou dos movimentos estudantis de extrema esquerda; quando os pais já se acostumavam a conviver com uma filha do contra, ela vira uma dona de casa careta.



Um Amor Quase Perfeito (Le Fati Ignoranti), 2001 (Itália)
Direção: Ferzan Ozpetek
Atores: Margherita Buy, Stefano Accorsi, Serra Yilmaz, Andrea Renzi.
Antonia (Margherita Buy) e Massimo (Andrea Renzi) formam um casal feliz que está casado há 10 anos, até que ele morre repentinamente em um acidente de carro. Desolada com o mundo, Antonia se afasta de todos pouco após a morte do marido. Até que, por acaso, ela encontra uma declaração amorosa a Massimo entre seus pertences. Curiosa em saber quem era a pessoa com quem seu marido mantinha um relacionamento às escondidas, Antonia descobre que Massimo manteve durante 7 anos um relacionamento homossexual com Michele (Stefano Accorsi). Surpresa com a revelação, o convívio cada vez maior entre Antonia e Michele faz com que ambos percebam terem muitas afinidades em comum.

O Último Beijo (L’Ultimo Bacio), 2001 (Itália)
Direção: Gabriele Muccino
Atores: Stefano Accorsi, Giovanna Mezzogiorno, Stefania Sandrelli, Marco Cocci.
Após vários anos de namoro, Carlo (Stefano Accorsi) enfim resolve se casar com Giulia (Giovanna Mezzogiorno), após ela engravidar. Às vésperas do casamento, Carlo percebe que uma jovem de apenas 18 anos com quem flertou na festa de um amigo pode ser sua última chance de liberdade antes de assumir as responsabilidades de marido e pai. Além disso, a paternidade parece ser o primeiro passo rumo a uma vida medíocre e suburbana, algo que nunca agradou Carlo.

Vincere (Vincere), 2009 (França, Itália)
Direção: Marco Bellocchio
Atores: Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi.
Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) conheceu Benito Mussolini (Filippo Timi) quando ele era apenas um militante socialista radical. Fascinada por ele, resolve se desfazer de suas posses para ajudá-lo no jornal Il Poppolo d’Italia e na criação do Partido Fascista. Eles têm um filho mas, com a chegada da 1ª Guerra Mundial, Mussolini se alista no exército e desaparece. Ida apenas o reencontra no leito do hospital, onde ele está ao lado de sua nova esposa, Rachele (Michela Cescon).

Comentários (2)

  • Sandro diz: 25 de março de 2011

    Garota, você foi uma boa neta!

  • André diz: 25 de março de 2011

    confesso: enchi o olho d`água. lembrei da minha.
    outra história, amor igual.

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