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O Cine Theatro Central e as esculturas de Estácio Zambelli

31 de dezembro de 2014 5

Década de 1930: o novíssimo Cine Theatro Central e seus cavaletes divulgando as atrações da casa, em uma já movimentada Av. Júlio de Castilhos. Foto: acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

O fechamento das Lojas Manlec e a consequente retirada das placas publicitárias do antigo Cine Theatro Central contribuem para se apreciar melhor um dos mais belos prédios da Av. Júlio Castilhos. Mesmo que alguns detalhes originais tenham sido suprimidos ao longo das décadas, olhar para o alto equivale a uma aula de história sobre a evolução arquitetônica de Caxias do Sul.

Erguido em 1928, o prédio trazia, originalmente, uma enorme marquise sustentada por uma estrutura metálica em estilo art nouveau. Seguiam esse mesmo estilo as três lâmpadas que iluminavam a fachada, colocadas estrategicamente no telhado – para destacar as laterais e o frontão, onde as letras da identificação Cine Theatro Central formavam uma espécie de triângulo.

Todos esses detalhes são recordados pelas historiadoras Loraine Slomp Giron e Kenia Pozenato no livro Cinema: Lembranças. Segundo elas, com as constantes reformas do prédio, a partir dos anos 1950, uma nova marquise em alvenaria foi construída e as portas, substituídas. As luminárias do alto e o frontão triangular também sumiram. Em seu lugar, o nome Central surgiu em enormes letras de concreto no alto.

Confira um vídeo raro da Praça Dante Alighieri em 1957, em que o Cine Central aparece, clicando AQUI.

Em 1928: o Cine Theatro Central com a marquise e as luminárias em estilo art nouveau, coroado pelo letreiro triangular. Foto: acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

O Cine Theatro Central em meados dos anos 1940, quando compunha um dos mais belos conjuntos arquitetônicos do Centro. Foto: Reno Mancuso, acervo pessoal de Renan Carlos Mancuso, divulgação

O Cine Central à época da construção do edifício Caixa de Fósforo, erguido bem ao lado e inaugurado em 1960. Foto: acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Em 1982: o cinema já com a nova marquise e o enorme logotipo que substituiu o letreiro original dos anos 1920. Foto: Luis Carlos Leite, banco de dados/Pioneiro

A imponente fachada do Central em meados dos anos 1980. Foto: acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

A arte decorativa

As esculturas de Estácio Zambelli constituem-se no maior destaque da fachada em estilo neoclássico do Cine Theatro Central até hoje.

Conforme detalhado pela escritora Irma Buffon Zambelli no livro Os Filhos da Arte – Documentário Artístico de Uma Família de Imigrantes, como o prédio pertencia a um clube de recreação (o Recreio da Juventude), o escultor seguiu essa linha.

À esquerda, a deusa Afrodite aparece segurando uma lira. Do lado direito, Adônis traz nas mãos uma máscara teatral burlesca. Ao centro, outra deusa grega sobressai-se com uma coroa de louros acima da cabeça, como que prestes a coroar o vencedor.

Os pés dela, inclusive, descansam sobre uma face burlesca de Fauno, que também decora as laterais à direita de cada um dos janelões.

Confira alguns desses detalhes no belo ensaio registrado pelo fotógrafo Jonas Ramos.

Foto: Jonas Ramos

O trabalho

Conforme descrito pela autora Irma Buffon Zambelli, para construir as esculturas em tamanho natural, de cimento, Estácio Zambelli teve de remover o telhado de seu atelier, obtendo assim melhores condições de trabalho.

Naquela metade dos anos 1920, o escultor foi auxiliado por Odalino Britto, responsável pela armação de madeira, e pelas senhoras Elvira Rech e Teresa, ajudando na pintura.

Relembre a história do Atelier Zambelli clicando AQUI.

Trio de estátuas semi-nuas teria desagrado direção da paróquia e alguns fieis, por estar bem defronte à Catedral Diocesana. Foto: Roni Rigon, banco de dados/Pioneiro

Trio seminu

A colaboração de Estácio Zambelli (1896-1967) na fachada do Central refletiu o pensamento moderno e bastante avançado do escultor, que frequentemente fazia viagens de estudos à Europa.

Reza a lenda, porém, que o trio de estátuas de peitos desnudos chegou a ser “mal visto” pela igreja e chocado parte da comunidade mais conservadora de Caxias na década de 1920.

O motivo: elas estarem posicionadas exatamente de frente para a Catedral Diocesana.

Leia mais sobre a trajetória de Estácio Zambelli clicando AQUI.

A fachada do cinema em outubro de 1983, com os paineis exibindo os cartazes dos filmes. Foto: Luis Carlos Leite, banco de dados/Pioneiro

Riqueza interna

O interior do Cine Theatro Central também impressionava. O saguão era ladeado por duas enormes escadarias em granito bege-rosado, com corrimões dourados. De cada lado das escadarias havia a estátua de um leão.

Segundo as historiadoras Loraine Slomp Giron e Kenia Pozenato, a parte frontal do mezanino trazia uma pequena mureta de proteção com acabamento dourado, seguindo a linha dos corrimões. Já a tela era protegida por uma cortina de veludo bordô, com franjas douradas na parte inferior.

Na plateia, poltronas com assento estofado na mesma cor e espaldares em madeira vergada marrom acomodavam um total de 800 espectadores. Nas laterais, luzes indiretas iluminavam o cinema quando as lâmpadas centrais eram apagadas.

Um verdadeiro ritual…

O prédio do Cine Central hoje: à espera de uma nova ocupação. Foto: Jonas Ramos

Patrimônio preservado

Juntamente com as duas edificações localizadas na Rua Pinheiro Machado, o Cine Central integra o conjunto pertencente ao Recreio da Juventude e tombado pelo Patrimônio Histórico do município desde 2008.

Na Pinheiro, encontra-se a remanescente construção de 1925 (a data, inclusive, é mantida na fachada). Ela está interligada à sede social em estilo modernista, com três pavimentos e amplas fachadas envidraçadas, inaugurada em 1955.

Leia mais sobre a história do Cine Theatro Central e suas ocupações clicando AQUI.

Comentários (5)

  • Tatiane Cristina Zambelli diz: 31 de dezembro de 2014

    Prezado Rodrigo. Fiquei muito emocionada em ler a tua reportagem, e ver tantos detalhes desta obra escultória de meu avô Estácio F.Zambelli. É uma das obras mais bonita que ele executou em nossa cidade, e que felizmente ainda é conservada. Assim como Michelangelo Zambelli, ele também tinha um atelier na nossa cidade, onde trabalhavam em torno de 30 pessoas. Teve uma grande produção artística, até que o incêndio consumiu e seu atelier o que fez com que ele continuasse suas obras em menor escala. Agradeço em nome do filho Celio Paulo Zambelli e fam. Abraços.

  • Alberto Rech diz: 31 de dezembro de 2014

    Caro Rodrigo… Tu nos remete á um passado em que éramos muito felizes e curtíamos muito essa fase da nossa juventude onde ir ao cinema era a nossa maior diversão.As idas ao cinema para trocar gibis , para assistir os desenhos do Walt Disney , para ver os filmes do Jean Manzon sobre o futebol e as notícias do dia a dia da época antes do filme principal …são lembranças agradáveis que vem á nossa memória lendo a tua coluna aqui e no Pioneiro. Obrigado por nos proporcionar essa alegria…. Abraços…

  • Adauto Celso Sambaquy diz: 31 de dezembro de 2014

    Rodrigo,
    A saudade de Caxias, pois estou morando fora há 41 anos é grande e se fixa nesse prédio majestoso que era o Cinema Central. Lembro de minha infância e juventude e nas inúmeras vezes em que frequentava esse cinema que era a maior diversão do caxiense nos anos 40/50/60. Preservar essa obra maravilhosa é obrigação de todo povo que almeja ser conhecido mundialmente. Na foto que aparece a totalidade da rua em que o cinema está construído, várias edificações do meu tempo me fazem voltar ao passado me viver momentos em minha cidade natal. Continue fazendo esse trabalho maravilhoso em prol da conservação das coisas lindas de Caxias.

  • Elton Luiz Bof diz: 1 de janeiro de 2015

    Muito oportuna a reportagem sobre o Central, que, felizmente ainda está de pé e resistindo à selvagem especulação imobiliária que se fez nesta cidade, completamente alheia ao seu passado arquitetônico. Morei sempre no centro da cidade e o Central é uma de minhas referências, principalmente depois do desaparecimento do Cine Ópera, que ficava em frente à minha casa. Bela a homenagem que seguramente Zambelli fez a Michelangelo, cujas figuras reclinadas das Capelas Medici de Florença são retomadas em releitura nas suas figuras laterais.

  • celestino rossi diz: 13 de julho de 2015

    brilhante reportagem Rodrigo, mas tenho uma dúvida: Quem foi o autor do projeto deste edifício???

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