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Mansão Raabe: cinzas e ruínas no Carnaval de 1990

03 de fevereiro de 2015 4
Foto: Jacob Kappes, reprodução de Aldpo Toniazzo a partir de acervo de família, divulgação

Vizinho do Eberle: o casarão em meados dos anos 1940. Foto: Jacob Kappes, reprodução de Aldo Toniazzo a partir de acervo de família, divulgação

Há 25 anos, a quarta-feira de Carnaval foi literalmente de cinzas para um ícone da arquitetura caxiense. A mansão da família Raabe, localizada na esquina das ruas Sinimbu e Borges de Medeiros, bem defronte ao Palacete Eberle, foi demolida às pressas em pleno feriadão (23 a 27 de fevereiro  de 1990), deixando comunidade, defensores do patrimônio histórico e administração pública em choque.

Em processo de tombamento pelo Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Compahc) de Caxias e na “listagem de indicação de obras arquitetônicas a serem preservadas”, o prédio também estava embargado desde o dia 22 de fevereiro daquele ano pelo setor de fiscalização da prefeitura, presidido por Ernani Stradiotto.

Conforme relatos do Pioneiro de 28 de fevereiro de 1990, “as Lojas Arno, donas do imóvel, não possuíam licença para a demolição, mas trabalhadores já vinham há mais de uma semana realizando a demolição interna do prédio, o que alertou os fiscais da prefeitura”.

Confira abaixo um “antes e depois” da esquina. Clique no “P” e arraste o cursor.

Operação de guerra

Ouvido pela reportagem da época, o então presidente do Compahc, Ângelo Guizzo Neto, revelou que até um registro no plantão da polícia foi feito, na tentativa de suspender a ação.

“Nunca vi a derrubada de um edifício ser feita em tão pouco tempo, parece ter sido uma operação de guerra, pois num primeiro momento, nem tapumes de proteção existiam na calçada”, relatou, completando que o prédio “foi destruído em menos de quatro dias, justamente num período (Carnaval) em que praticamente nenhuma autoridade se encontrava no município”.

– As folhas de cobre daquela cúpula abobadada planavam – lembrou recentemente o arquiteto Juarez Marchioro.

Uma esquina que, pelos dias subsequentes, virou cenário para um misto de lamentação e revolta. Ah, sim: pelo descumprimento do embargo, os proprietários foram multados em… um salário mínimo.

Foto: acervo pessoal

O casarão no final dos anos 1960, já com a parte térrea modificada para abrigar as Lojas Caldart. Foto: acervo pessoal de Rosane Caldart, divulgação

Discurso atual até hoje

Diretor do setor de fiscalização da prefeitura e também integrante do Compahc da época, Ernani Stradiotto defendia, no Pioneiro de 1990, um posicionamento que cai como uma luva em 2015, exatos 25 anos depois:

(…) este não foi o primeiro caso, nem vai ser o último, se não houver uma preocupação efetiva por parte da comunidade quanto à preservação de prédios históricos, da mesma forma na agilização do processo de tombamento, para evitar a repetição desse fato. Para Stradiotto, Caxias tem que decidir se quer ou não preservar prédios históricos.

Mario Michelon, então diretor do Museu e Arquivo Histórico também se manifestou à época:

(…) a demolição do prédio da família Raabe foi um golpe na preservação cultural da cidade e entristece profundamente todos aqueles que estão trabalhando pela continuidade da história para as futuras gerações. A casa estava na listagem do Comphac para futuro tombamento e, caso entrasse o pedido de demolição na prefeitura, ela possivelmente seria sustada, diz. Contudo, ressalta, o fato mais assustador foi a pressa com “esse marco cultural desapareceu”. É lamentável também a forma avassaladora que o poder econômico possui de transgredir até a lei para obter lucros”, diz.
“A força do Compahc é apenas consultiva, mas dentro da situação que está se presenciando, deve ocorrer uma reunião de urgência para se saber que atitude tomar, principalmente em relação a outros prédios que também estão ameaçados de destruição”, complementa.

Foto: Maria da Graça Soares, banco de dados/Pioneiro

A esquina em 1985, com as placas publicitárias escondendo a riqueza arquitetônica do prédio. Foto: Maria da Graça Soares, banco de dados/Pioneiro

Ocupação

Nos anos 1960 e 1970, o térreo do casarão sediou as Lojas Caldart e, na década de 1980, a Rainha Modas. Logo após a demolição, o espaço foi transformado em um estacionamento para clientes das Lojas Arno. Posteriormente, abrigou o caixote existente até hoje.

Colaborou nesta reportagem o leitor Aldo Toniazzo.

Um caixote: a esquina da Sinimbu com a Borges de Medeiros atualmente. Foto: Roni Rigon

Um caixote: a esquina da Sinimbu com a Borges de Medeiros atualmente. Foto: Roni Rigon

A repercussão na imprensa

Confira abaixo algumas das matérias veiculadas pelo Pioneiro em fevereiro e março de 1990.


Pioneiro de 28 de fevereiro de 1990

PRESIDENTE DO COMPHAC SURPRESO COM A DEMOLIÇÃO DE PRÉDIO

A demolição do prédio da família Raabe, efetuada pelos atuais proprietários – as Lojas Amo – no final da semana e em pleno período de Carnaval, deixou surpreso o presidente do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, Ângelo Guizzo Neto. Para ele, Caxias perde um pouco de sua memória

O presidente do Comphac – Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural – de Caxias, Ângelo Guizzo Neto, está surpreso e abalado com a destruição do prédio da família Raabe, localizado na esquina da Sinimbu com Borges de Medeiros, adquirido recentemente pelas Lojas Arno. Segundo Guizzo Neto, o prédio vinha sofrendo demolição interna, mas foi na última sexta-feira que as paredes externas começaram a ser derrubadas. O prédio de estilo neoclássico representava um marco na história cultural da Caxias, diz Guizzo Neto, e foi destruído em menos de quatro dias, justamente num período em que, praticamente nenhuma autoridade se encontrava no município.
“Na sexta à noite não pude fazer nada, mas no sábado pela manhã, com a ajuda de várias pessoas, que estavam inconformadas com a demolição da casa, se procurou autoridades municipais, sem sucesso, inclusive o inspetor do Crea – Conselho Regional de Arquitetura e Engenharia – mas que também não se achava no município”, lembra.
Até um registro no Plantão de Polícia foi feito, diz, na tentativa de suspender a demolição. Para Guizzo Neto, existem muitas dúvidas sobre a liberação para a derrubada do prédio que estava arrolado na listagem para tombamento pelo Patrimônio Municipal. O presidente do Comphac informa que o órgão possui função apenas consultiva na prefeitura e qualquer atitude imediata teria que ser efetivada pelo poder executivo.
“Nunca vi uma derrubada de um edifício ser feita em tão pouco tempo, e parece ter sido uma operação de guerra, pois no primeiro momento, nem tapumes de proteção existia na calçada”, relata.
Para Guizzo Neto, o que mais assusta é que se poderia ocupar a casa de diversas formas, inclusive ter um alto retorno financeiro, mantendo as linhas arquitetônica e a memória cultural de Caxias. Com a revolta de inúmeros representantes da sociedade sobre o que ocorreu, ressalta, o Comphac deve chamar uma assembleia de urgência para discutir o assunto e tentar formas para que fatos como este não se repitam mais.
“Caso não presevarmos nossa história hoje, amanhã vamos ficar sem memória”, diz.
Por outro lado, complementa, as pessoas querem apenas resultados econômicos e a curto prazo. Prédio da família Raabe, pertencente as Lojas Amo demolido em tempo recorde No entendimento de Guizzo Neto, o prédio representava fatores sociológicos e psicológicos que refletiam e retratavam um estado cultural de uma época, mesmo que houvesse polêmica sobre a parte artística.
Conforme o presidente do Comphac, a Casa Saldanha foi um caso típico onde se negociou com os proprietários e não houve demolição, “mas o que ocorreu com o prédio que pertencia a família Raabe, nunca aconteceu em Caxias”, diz.
Por outro lado, o gerente de administração das Lojas Arno, Victor Schiave-nin, informa que somente a partir de hoje, com o retomo ao município dos diretores da Organização, que se encontram fora da cidade, é que se poderá obter um esclarecimento sobre o assunto.

Pioneiro de 1º de março de 1990

LOJAS ARNO MULTADA PELA DEMOLIÇÃO IRREGULAR

Conforme informação do Departamento de Fiscalização da prefeitura de Caxias, o prédio da família Raabe, demolido no último final de semana, estava embargado. Pela infração, os atuais proprietários, as Lojas Amo, receberão uma multa de NCz$ 2.004,37

O prédio da família Raabe, adquirido pelas Lojas Amo e demolido no último final de semana, estava embargado desde quinta-feira, dia 22, pelo setor de fiscalização da prefeitura. A informação foi dada pelo diretor do órgão, Ernani Stradiotto. Conforme o diretor de Fiscalização, as Lojas Arno não possuíam licença para a demolição, e pelo descumprimento do embargo, a organização foi multada em um salário mínimo.
Segundo Stradíotto, o setor fez o que pode, dentro da lei, pois a única infração que estava sendo cometida era a demolição sem licença prévia da prefeitura. O artigo burlado, diz, foi o 22, da lei 1144, do Código de Obras do Município. Para o diretor de Fiscalização, que também participa do Compahc (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural) em Caxias, a demolição do prédio foi um golpe na história do município. A empresa, ressalta, há mais de uma semana estava realizando demolição interna do prédio, o que alertou os fiscais da prefeitura. Contudo, foi no final de semana que a destruição externa iniciou.
Stradiotto acrescenta que este não foi o primeiro caso, nem vai ser o último, se não houver uma preocupação efetiva por parte da comunidade quanto à preservação de prédios históricos, como da mesma forma na agilização do processo de tombamento, para evitar a repetição deste fato. Para Stradiotto, Caxias tem que decidir se quer ou não preservar prédios históricos.
“O departamento de Fiscalização tem que seguir a lei e fez o que estava dentro de seu alcance” reafirmou, complementando que o prédio da família Raabe estava apenas na listagem de indicação de obras arquitetônicas a ser preservadas, o que não há neste ponto nenhuma implicação legal na derrubada.
No entendimento do diretor do Museu e Arquivo Histórico do Município, Mário Michellon, a demolição do prédio da família flaabe foi um golpe na preservação cultural da cidade e entristece profundamente todos aqueles que estão trabalhando pela continuidade da história para as futuras gerações. A casa estava na listagem do Comphac para futuro tombamento, e caso entrasse o pedido de demolição na prefeitura, ela possivelmente seria sustada, diz. Contudo, ressalta, o fato mais assustador foi a pressa com “esse marco cultural desapareceu”.
Conforme Michelon, o prédio não refletia exatamente a cultura italiana no município, mas representava um momento, uma época de grande significação histórica. “É lamentável também a forma avassaladora que o poder econômico possui de transgredir até a lei para obter lucros”, diz.
A força do Comphac é apenas consultiva, mas dentro da situação que está se presenciando, deve ocorrer uma reunião de urgência para se saber que atitude tomar, principalmente em relação a outros prédios que também estão ameaçados de destruição, complementa.
A vereadora Geni Peteffi, do PMDB, autora de um dispositivo na Lei Orgânica do Município – que foi eliminado ainda na Comissão Temática de Educação – que tratava sobre preservação de prédios históricos, afirma que a destruição da casa da família Raabe surpreendeu a todos. Para evitar que casos como este se repitam Geni Peteffi informa que entrou novamente com a discussão na Lei Orgânica, desta vez com uma emenda aditiva para a preservação do patrimônio histórico de Caxias.
Quanto ao prédio dos Raabe, acrescenta que o susto foi maior, pois tinha conhecimento de que havia negociações entre um representante legal da família e a prefeitura para que fosse efetivado o tombamento, isto ainda na administração Victório Trez. Na tarde de ontem o Pioneiro procurou a direção da Arno, mas não houve possibilidade de um contato.

Comentários (4)

  • Valter diz: 3 de fevereiro de 2015

    A certeza da impunidade é antiga em nosso município e no país, o que era um salário minimo para as lojas em 1990?
    Hoje não é muito diferente, as multas que a prefeitura aplica são caculadas encima de VMRs,
    Existe multa por ex de 500 VRMs para estabelecimento bancário descrita no Art 101, §5º,
    uma(1) VMRs vale R$ 26,56, ou seja uma multa de 500 VRMs faria o autuado desembolsar um valor próximo de R$13.500,00.
    E ai eu pergunto, o que é R$13.500,00 para um banco?
    Quantos clientes um banco ou melhor, uma agencia média tem?
    Vamos imaginar 13.500 clientes, bastaria um R$1.00,00 por cliente para o pobre banco pagar a multa.
    ou seja as multas da Prefeitura de Caxias, são piada, assim como tudo que é safadeza que acontece nesse brasilzão.

  • Vini diz: 3 de fevereiro de 2015

    A história de Caxias se perde a cada dia. Estão destruindo com tudo, com nossas raízes, com nossa cultura. Não temos quase mais identidade. Da onde eu vim? E para onde vou? Tudo que foi colocado por gente que construiu nossa identidade e história está sendo tirado de nós. Culpa da Prefeitura, culpa do povo sem cultura, sem amor. É uma lástima, essa casa é apenas um dos exemplos, a última facada no meu peito foi ver a casa branca do Eberle demolida. POVO QUE NÃO TEM MEMÓRIA, NÃO TEM HISTÓRIA.

  • Vini diz: 3 de fevereiro de 2015

    E o pior é que deu lugar a uma edificação bem comum e pobre, mesmo tendo traços modernistas, pois aquele patrimônio era de um valor imensurável. O responsável fez um projeto como se naquele terreno NUNCA tivesse história. Arquitetos, engenheiros, por que se formam assim? Quem fez isso tem registro profissional? Não teve o trabalho nem de verificar o que havia antes de tão péssimo que foi esse projeto, ou pensou que era baldio sempre?

  • Vinícius Gatelli diz: 3 de fevereiro de 2015

    Infelizmente Caxias perdeu e muito com este ocorrido…
    Até quando isso vai continuar? Que nossas autoridades se importem mais com essas riquezas que constroem a história de Caxias do Sul.
    Que nossa cidade possa ter mais fiscalização e mais agilidade no tombamento destes prédios.A comunidade caxiense agradece.

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