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Lanifício Gianella: um século de história

01 de abril de 2015 4

Doviglio Gianella e os operários defronte à tecelagem, em meados da década de 1940. Foto: Studio Geremia, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Resquícios do antigo Lanifício Gianella são facilmente visualizados por quem mora ou circula pelo bairro Santa Catarina. Dos tijolos aparentes do complexo arquitetônico, passando pelas outrora águas límpidas do Arroio Tega ou por aquele antigo casaco ou cobertor tecido na vizinhança – e guardado até hoje –, tudo esteve interligado nesses últimos 100 anos.

Em 2015, quando a empresa celebra seu centenário, recordamos de parte dessa jornada. A história do lugar remete à década de 1910, quando o italiano Matteo Carlo Gianella chegou a América do Sul. Aos 18 anos e já atuando como técnico especializado em fiação e tecelagem, o jovem estabeleceu-se inicialmente em Buenos Aires, de onde, em 1914, migrou para o Brasil. A convite do não menos visionário Hércules Galló, Matteo passou a ser um dos diretores do Lanifício São Pedro.

A breve atuação em Galópolis acabou contribuindo para que, em 1915, ele instalasse – juntamente com o apoio da mulher, Ermelinda Viero Gianella – sua própria fábrica de ração, tecelagem e confecção. A produção, centrada em feltros e bacheiros utilizados nas montarias, marcava o início de um ícone da prosperidade e da diversidade econômica da então 9ª Légua – impulsionada pelo aproveitamento do Arroio Marquês do Herval (Tega).

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O casal Matteo Gianella e Ermelinda Viero Gianella com os filhos Remo (à esquerda), Doviglio, Elite (a menor) e Itália (à direita), em 1932. Foto: Julio Calegari, acervo de família, divulgação

Com o falecimento de Matteo, em 14 de novembro de 1942, o negócio passou a ser conduzido pela viúva e pelos filhos Remo e Doviglio Gianella. Nascido em 1916, em Galópolis, Doviglio atuou por décadas junto ao lanifício e teve seu nome imediatamente identificado ao setor – especialmente no período em que presidiu o Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem (Fitemasul), entre 1966 e 1987.

Seção de fiação: a tecelagem em meados dos anos 1920. Foto: Studio Geremia, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

O carro alegórico do bairro Santa Catarina, confeccionado pelo Lanifício Gianella e pela Sociedade Brasileira de Vinhos, durante o cortejo da Festa da Uva de 1950. Foto: Studio Geremia, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Ícone: cartão de visitas do antigo Lanifício Matteo Gianella. Foto: acervo pessoal de Lissandro Stallivieri, divulgação

Outras marcas

A boa aceitação dos produtos do lanifício contribuiu para o surgimento de outros negócios. Entre eles a Fiação Ermelinda Gianella, dos clássicos Fios Vovó, e as Confecções Sul-Brasileiro. As indústrias Gianella encerraram suas atividades no final da década de 1980.

Atualmente, o nome está atrelado à grife de camisas, bolsas e carteiras Gianella & Mondadori.

Doviglio Gianella (à direita), presidente do Grêmio Esportivo Gianella,cumprimenta Percy Vargas de Abreu e Lima (E), então presidente do Esporte Clube Juventude, na década de 1940. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

Atuação comunitária

Falecido em 2012, aos 95 anos, o empresário e ex-vereador Doviglio Gianella foi um dos personagens mais emblemáticos da cidade. Além de colaborar no desenvolvimento e expansão da indústria caxiense, manteve forte envolvimento comunitário, atuando junto à Apae, ao Aeroclube e à Festa da Uva.

Depoimento prestado pela historiadora Loraine Slomp Giron ao Pioneiro, por ocasião da morte do amigo, em 2012, resumiu um pouco desse vínculo:

“Foi uma figura muito interessante. Ficou um tempo morando fora, na Itália, e, quando voltou, assumiu os negócios do pai na tecelagem. Depois da guerra, houve uma crise geral, e eles foram perdendo a hegemonia. Mas Doviglio não foi apenas um empresário, estava muito ligado à cidade. Tinha uma voz maravilhosa, cantava junto com a minha mãe no Coral Santa Tereza. Nas décadas de 1950 e 1960, todo mundo esperava a Festa da Uva para ver os bonecos do Lanifício Gianella no desfile. Lembro que tinha um boneco que ficava debaixo de um cobertor. Era uma diversão! Doviglio foi um homem de sua cidade”.

Homenagem: Doviglio Gianella (ao centro) recebe o Troféu Caxias em junho de 1987, acompanhado por Sérgio Cesa (E) e Bernardino Conte (D). Foto: Gilmar Gomes, banco de dados/Pioneiro

Em 2000: Doviglio Gianella defronte a um dos prédios do império têxtil que comandou a partir dos anos 1940. Foto: Roni Rigon, banco de dados/Pioneiro

O complexo

As edificações de tijolos artesanais do Lanifício Gianella, no bairro Santa Catarina, são uma influência da arquitetura industrial inglesa. O complexo está tombado pelo Patrimônio Histórico do Município desde 2003.

Confira a história do Moinho da Cascata clicando AQUI.

Leia mais sobre a história da Paróquia de Santa Catarina clicando AQUI.

Contrastes: o prédio do antigo lanifício acompanha a crescente verticalização do bairro Santa Catarina. Foto: Roni Rigon, banco de dados/Pioneiro

Contrastes: prédio do antigo lanifício acompanha a crescente verticalização do bairro Santa Catarina. Foto: Roni Rigon, banco de dados/Pioneiro

Comentários (4)

  • Arquiteto Francisco Imperatore Fernandes diz: 1 de abril de 2015

    Parabéns pelos artigos publicados.

  • Eleonora Gianella diz: 2 de abril de 2015

    Desta forma seguimos um caminho de muita responsabilidade e trabalho.
    Emocionante reportagem Rodrigo!

  • CLAUDIA diz: 8 de abril de 2015

    Linda reportagem! Bateu uma saudade do Seu Doviglio, uma pessoa maravilhosa, sempre de bem com a vida! Um privilegio ter convivido com ele!

  • César Fin diz: 11 de maio de 2015

    Que saudades do Sr. Doviglio. Meu pai, Anselmo Fin trabalhou por muitos anos na Fiação Ermelinda Gianela. Tive o privilégio de conhecer e conviver um pouco com este verdadeiro cidadão Caxiense. Uma história linda deixada por ele. Doviglio, uma referência para todos nós. Parabéns pela reportagem.

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