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Um prédio com vocação para hospedar (e ensinar)

08 de abril de 2015 2

O prédio em 1947, quando já abrigava o Caxias Hotel. Foto: Studio Geremia, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Um dos símbolos arquitetônicos da Rua Vinte Setembro, o prédio que abriga o Hospital Saúde teve boa parte de sua estrutura modificada e ampliada desde a construção, iniciada em 1932. Lá funcionaram, respectivamente, o Hospital Beneficente Santo Antonio, o Caxias Hotel, a Escola de Enfermagem Madre Justina Inês e, finalmente, o Hospital Saúde.

Autor do livro Vocação para Hospedar – Trajetória de um Hospital/Hotel/Hospital, Alvino Melquides Brugalli recontou toda essa história em 1995, quando a obra foi lançada.

Conforme ele, o Hospital Santo Antonio foi fundado ainda em 1931, instalando-se provisoriamente na Casa de Saúde do Dr. Rômulo Carbone, na Av. Júlio de Castilhos (hoje sede do Arquivo Histórico Municipal), conforme mostra a foto abaixo. Por volta de 1934, aproximadamente, é que passou a funcionar no novíssimo prédio da Vinte de Setembro.

Clique nas imagens para ampliar.

A inauguração do provisório Hospital Beneficente Santo Antonio em 1931, junto a então Casa de Saúde do Dr. Carbone, na Av. Júlio. Foto: acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami , divulgação

Desenho a bico de pena de Eduardo Santos para o Hospital Beneficente Santo Antonio. Prédio localizado na Rua Vinte de Setembro foi projetado pelo arquiteto Luiz Valiera, originalmente com duas cúpulas nas laterais. Foto: Studio Tomazzoni, reprodução

Anúncio do hospital em 1943. Foto: reprodução

O início

Sob a direção de um grupo formado, entre outros, por Aristides Germani, Francisco Oliva, Vicente Rovea, Eduardo Mosele, Joaquim Pedro Lisboa e Demetrio Niederauer, a instituição surgiu seguindo “as normas mais modernas de hospitalização, tendo seções de cirurgia e tratamento clínico, para primeira e segunda classes. Junto a essas funcionavam ainda um pavilhão para indigentes e a maternidade.”

Foto: reprodução

Foto: reprodução

Primórdios da musicoterapia

Conforme relato extraído do Guia Ilustrado Comercial, Industrial e Profissional de Caxias, elaborado por ocasião da Festa da Uva de 1937, “pertencem ao estabelecimento os abnegados médicos Homero Tarragô, Henrique Fracasso, Renato Del Mese, Luiz Faccioli e muitos outros residentes que tem seus documentos legalizados no departamento competente”.

O local possuía ainda um espaço destinado a psiquiatria. Naqueles tempos, as “pessoas portadoras de psicoses, loucuras e lesões resultantes da desintegração da personalidade” recebiam a visita da professora Maria Helena Soares. Cabia a ela tocar, voluntariamente, um velho harmônio durante tardes inteiras, incentivando os internos a acompanhar os sons relaxantes e os movimentos suaves. Eram os primórdios da musicoterapia.

Com a desativação da ala psiquiátrica, as apresentações musicais cessaram, e o harmônio foi doado à comunidade da Linha 40.

Em 1947: o Caxias Hotel em uma ainda tranquila Rua Vinte de Setembro. Foto: Studio Geremia, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Um hotel surge em 1945

O Caxias-Hotel Ltda. tinha como sócios proprietários os empresários Dino Felisberto Cia, Carlos Leonardelli, Luiz Bertola e Guerino Isidoro Calcagnotto, que, após adquirirem o hospital em 1945, promoveram uma radical transformação em sua estrutura.

Cinco anos depois, em 1950, o jornalista Duminiense Paranhos Antunes qualificava o espaço como o mais elegante e confortável estabelecimento de hospedagem de Caxias do Sul.

“Um centro de atração de turistas e viajantes de todos os recantos do Estado e do país, que conta com 25 apartamentos privativos, com banheiros, além de 20 quartos, todos com água corrente e amplos. (…) O seu salão de refeições, que mede 300 metros quadrados, apresenta um conjunto agradável, com iluminação direta, soalho de parquet e luz fluorescente, sendo atendido por pessoal competente e especializado.”

Registro da passagem do então governador do Estado, Walter Jobim (ao centro), e parte de sua comitiva pelo Caxias Hotel em 1947. Na fila da frente, o prefeito Dante Marcucci (o primeiro à esquerda). Atrás dele, José Ariodante Mattana, diretor de obras da prefeitura. Foto: acervo pessoal de Jacyra Mattana, divulgação

Hóspedes ilustres

Turbinado pela fama do elogiado restaurante, o hotel era destino de hóspedes ilustres. Entre eles o candidato a presidência da República pela União Democrática Nacional em 1950, Brigadeiro Eduardo Gomes – derrotado por Getúlio Vargas.

Juntamente com ele, passaram pelos salões do Caxias Hotel em 1950 o estadista gaúcho Osvaldo Aranha, os políticos Pedro Marques Vianna e Luiz Compagnoni, e os empresários caxienses Humberto Bassanesi e Américo Ribeiro Mendes.

Invasão platina

Enquanto sediou o Consulado do Uruguai, o Caxias Hotel foi o grande hospedeiro dos turistas vizinhos que rumavam à Serra. Todos os anos, durante a Semana Santa – que no Uruguai era um legítimo feriadão de segunda a domingo -, Caxias se via tomada pelos irmãos platinos.

Em 1947: a fachada do hotel e seu sócio-gerente, Dino Felisberto Cia, com seu impecável terno de linho branco irlandês. Na varanda, o brasão de armas do Uruguai, identificando a sede do consulado daquele país. Foto: Studio Geremia, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Fechamento no dia do suicídio de Vargas

O fechamento do hotel coincidiu com a noite em que o presidente Getúlio Vargas suicidou-se, no Rio de Janeiro. Conforme detalhado pelo autor Alvino Brugalli, “na noite de 24 para 25 de agosto de 1954, as compradoras do estabelecimento chegaram com as malas contendo o dinheiro da transação. Reunidos, vendedores e compradores contavam o dinheiro quando o Repórter Esso, na voz inconfundível de Heron Domingues, narrava para um Brasil atônito a morte de Vargas”.

Documentos e atas das Irmãs de São José posteriormente ratificaram a data: 24 de agosto de 1954. Após o encerramento das atividades do hotel, o espaço voltou à sua vocação original. Até 1970, o então denominado Hospital Nossa Senhora da Saúde abrigou a Escola de Enfermagem Madre Justina Inês, cuja aula inaugural deu-se em 1º de março de 1957.

Com a absorção da escola pela recém-criada Universidade de Caxias do Sul, em 1967, o local consolidou-se, a partir de 1974, como o atual Hospital Saúde.

Escola de Enfermagem Madre Justina Inês: salas de aula que acolhiam as alunas eram pequenas e simples, dotadas dos clássicos quadros negros sobre um tripé. Foto: Centro de Documentação Histórica da UCS, reprodução

Para auxiliar o aprendizado: esqueleto de uma das salas de aula era chamado de Giovani pelas alunas e professoras. Foto: Centro de Documentação Histórica da UCS, reprodução

A antiga sala de estar dos professores, com cortinas de crochê produzidas artesanalmente. Foto: Centro de Documentação Histórica da UCS, reprodução

Sala de estar das alunas abrigava uma mesa de pingue pongue, para diversão e exercício. Foto: Centro de Documentação Histórica da UCS, reprodução

Comentários (2)

  • Maqria Helena Muratore diz: 8 de abril de 2015

    Que excelente histórico do prédio construído na Rua Vinte de Setembro e as transformações que abrigaram desde Hospital ,Hotel , Escola de Enfermagem , até um Consulado e agora ainda funcionando como o Hospital Saúde . ” Memória ” está sempre de parabéns pelas ” matérias interessantes ” que aborda e que nos faz retroceder no tempo.

  • Neila Zatti Bertola diz: 16 de abril de 2015

    Muito feliz ao ver este resgate de memórias, ver o trabalho, que não conhecia, do avô do meu marido. Sabia que ele estava junto nesta obra e depois na reforma, meu sogro, que tinha um estaqueamento também ajudou. obrigada aos que guardam estas memórias

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