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Memórias cruzadas da Segunda Guerra Mundial

08 de maio de 2015 1
70 anos depois: Ana Maria Cornutti confere parte da história do ex-pracinha Alberto Ariloi, registrada no livro "Cabedelo: A Odisséia de uma Vida". Foto: Rodrigo Lopes

70 anos depois: Ana Maria Cornutti confere parte da história do ex-pracinha Alberto Arioli, registrada no livro “Cabedelo: A Odisséia de uma Vida”. Foto: Rodrigo Lopes

Quando o jovem Alberto Arioli alistou-se como voluntário para representar o Brasil na Segunda Guerra Mundial, em julho de 1944, Ana Maria Cornutti já trabalhava havia quatro anos na Metalúrgica Abramo Eberle. Ele tinha 18. Ela, 20.

Atuando na seção de controle de qualidade, cabia a Ana averiguar e mandar de volta para a fábrica qualquer peça com riscos ou falhas – uma rigidez que garantiria a qualidade dos produtos da marca pelas décadas seguintes.

Guardadas as devidas proporções, Arioli também era posto a prova naqueles tempos. Após três meses de treinamento em São Leopoldo, o jovem soldado e outros 168 militares oriundos de Caxias e outras cidades da Serra, de um total de 25.334, rumaram ao Rio de Janeiro e, de lá, para a Itália.

Sete décadas depois, essas memórias se cruzam para recordarmos da Caxias da Segunda Guerra Mundial. Membro da Infantaria (tropa que atua a pé), o aposentado caxiense de 89 anos viajou como cabo, retornou com a patente de sargento e a sua arma era uma metralhadora Thompson de 22 tiros.

O desembarque em Nápoles foi seguido de intenso treinamento, instrução com militares americanos e recebimento de pesados fardamentos – para enfrentar o frio de -14 º C –, bem como armas e munições para os campos de batalha em Monte Castelo e Montese.

Por aqui, as notícias sobre o fogo cruzado no continente europeu chegavam da rua, mais especificamente do antigo Cine Theatro Apollo, embrião do Ópera. Ana, hoje com 91 anos, e outros tantos trabalhadores da área central sabiam: quando tocava a sirene do Apollo era hora de sair para a rua, papel e lápis na mão, para copiar do quadro negro as notícias da guerra e passá-las adiante.

Foi assim também há exatos 70 anos, em 8 de maio de 1945, quando a jovem e um grupo de amigas circulavam tranquilamente pelo Centro.

Depois do muro de silêncio decorrente da proibição ao dialeto, o fim do conflito ecoou em alto e bom som: La guerra è finita.

Leia mais sobre o salvo conduto clicando AQUI.

Alberto Arioli, um dos ex-combatentes da região que serão homenageados nesta sexta-feira. Foto: Rodrigo Lopes

Alberto Arioli, 89 anos, um dos ex-combatentes da região que serão homenageados nesta sexta-feira, durante solenidade pelos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Foto: Roni Rigon, banco de dados

Passagem pelo Eberle

Em julho de 1945, Alberto Arioli retornou da Itália. Após cinco meses, em dezembro, começou a trabalhar na Metalúrgica Abramo Eberle, onde aposentou-se após 25 anos de serviços no setor de compras.

No início de 1946, Ana abandonou o ofício na metalúrgica para casar. Provavelmente eles nunca tenham se cruzado lá dentro, mas as memórias de guerra e da metalúrgica fazem deles os protagonistas desta sexta-feira.

Em 1940: Ana Maria Cornutti (a primeira a partir da direita) e um grupo de colegas da Metalúrgica Abramo Eberle junto ao chafariz da Praça Dante, durante o desfile de Sete de Setembro. Foto: acervo pessoal, divulgação

Marca de guerra

Na época da Segunda Guerra Mundial, empresas como a Metalúrgica Abramo Eberle e a Gazola foram declaradas de interesse do governo brasileiro, colaborando na produção de artefatos para as Forças Armadas.

Enquanto atuou no Eberle, dona Ana foi responsável por passar vaselina na lâmina das espadas e colocar um papel pardo nas peças antes de embrulhá-los. Um pequeno incidente daqueles tempos nunca foi esquecido.

– Escorregou uma espada da mesa e fincou na minha perna. É a minha marca de guerra – brinca dona Ana, mostrando a pequena cicatriz que carrega até hoje.

Alberto Arioli, um dos personagens do documentário “Velhos Heróis”. Foto: Roni Rigon, banco de dados

O Dia da Vitória

O 3º Grupo de Artilharia Antiaérea promove hoje uma dupla celebração ao Dia da Vitória Aliada na Segunda Guerra. Às 8h, no quartel, ocorre uma cerimônia militar com a presença de autoridades municipais, estaduais e federais, militares da reserva residentes em Caxias, amigos e colaboradores.

Às 11h30min, está prevista uma homenagem cívico-militar, junto ao Monumento aos 50 anos da participação da FEB na Segunda Guerra, no Largo Padre Giordani, defronte à Igreja São Pelegrino. Na ocasião, os ex-combatentes Alberto Arioli e Antuérpio Nemen receberão a Medalha da Vitória da Academia de História Militar Terrestre Brasileira e da Liga da Defesa Nacional.

Conforme informações do Museu dos Pracinhas, os outros seis ex-combatentes ainda vivos são Antonio Romeu Zuanazzi (morador de Criciúma, SC), Cirino Francisco Silva (residente em Esmeralda), Waldomiro Rodrigues de Campos (de Vacaria), Antonio Delfis Teixeira (também de Esmeralda), Anastácio Dedea (natural de Antônio Prado e atual morador de Nova Roma do Sul) e Francisco Pertile (de Bento Gonçalves).

Leia mais sobre a trajetória do ex-pracinha Anastácio Dedea cliacando AQUI.

Imagens raras

Na sequência abaixo, a despedida dos pracinhas da FEB de Caxias e região defronte à Catedral, antes de rumarem ao Rio de Janeiro. As imagens integram a coleção de Maximiliano Zattera e foram doadas por ele ao Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.

Foto: coleção pessoal de Maximiliano Zattera, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Foto: coleção pessoal de Maximiliano Zattera, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Foto: coleção pessoal de Maximiliano Zattera, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Viagem

Em 1995, Alberto Arioli recebeu um convite do governo italiano para visitar o local onde lutou em 1944, sendo o único pracinha do Sul entre os 21 convidados do Brasil. Em 2005, ele foi um dos personagens do documentário Velhos Heróis, produzido pela Spaghetti Filmes.

História preservada: Arioli defronte ao Museu dos Ex-Combatentes, aberto ao público na Rua Visconde de Pelotas. Foto: Roni Rigon, banco de dados

História preservada: Arioli defronte ao Museu dos Ex-Combatentes, aberto ao público na Rua Visconde de Pelotas. Foto: Roni Rigon, banco de dados

Espaço para a memória

No ano em que se comemoram os 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, o Museu dos Ex-Combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) é roteiro obrigatório.

Fotografias, documentos, objetos de uso pessoal, armas, uniformes e equipamentos doados pelo ex-combatentes formam o amplo conjunto exposto no primeiro pavimento. A contextualização histórica – em âmbito internacional, nacional e regional – é realizada por meio de fotografias, textos e trechos de depoimentos pessoais, além da exibição de documentários.

Já no subsolo encontra-se um espaço de convivência carinhosamente denominado “Casamata do Pracinha”. É ali que se realiza a confraternização mensal dos ex-combatentes, no tradicional almoço da primeira quarta-feira de cada mês, reunindo amigos e familiares.

Após um período fechado e sem receber escolas, o espaço foi reinaugurado em 2007, concentrando atividades como palestras, aulas, visitas e encontros com os ex-pracinhas.

Agende-se:

O quê: Museu dos Ex-Combatentes da FEB na 2ª Guerra Mundial
Endereço: Rua Visconde de Pelotas, 249, Centro
Visitação: terça-feira a sábado, das 9h às 17h (horário alternativo mediante agendamento)
Contato: (54) 3901.1422

Comentários (1)

  • ademir luis dambros diz: 8 de maio de 2015

    O sr alberto arioli tive o prazer de conhecer quando fui visitar o museu de ex_combatentes muito simpatico respondeu perguntas minhas . Serviu junto com meu tio Alcides Dambros foram companheiros durante a segunda guerra.

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