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Hermínio Bassanesi, uma vida atrelada à arte

04 de julho de 2015 0

 

Foto: Rodrigo Lopes

Entre tintas, pinceis e molduras: Hermínio Bassanesi foi retratado pelo artista Selestino Oliveira em 2000. Foto: Rodrigo Lopes

Desde o início da década de 1950, ele contribuiu para a formação de uma Caxias mais “apurada” esteticamente. Em busca de quadros, espelhos, telas ou esculturas, não houve quem não tenha se dirigido a Hermínio Adelmar Bassanesi e ao clássico endereço da Molduraria Caxiense, localizada na Rua Moreira César, 2.775, em São Pelegrino.

Filho de Hermínio Bassanesi e Ana Maria Bottini Bassanesi, o caçula de oito irmãos nasceu em 14 de outubro de 1925, recebendo o mesmo nome do pai _ apenas com o segundo nome Adelmar para não confundir. Após receber o diploma de contador no Colégio Nossa Senhora do Carmo, em 1940, seu Hermínio iniciou profissionalmente na Metalúrgica Abramo Eberle. Mas os cálculos logo foram deixados de lado.

Convidado pelo irmão Otoni, entrou como sócio de uma fábrica de espelhos instalada na Rua Coronel Flores, próximo à Estação Férrea, em 1952. Com a transferência para o atual endereço da Rua Moreira César, o negócio passou a abarcar os trabalhos de emolduração e vidraçaria. Era o início da fase áurea da casa, a primeira a contar também com uma galeria de arte, inaugurada em 1981 – época em que esses espaços multifuncionais ainda engatinhavam na cidade.

Clique nas imagens para ampliar.

A família Bassanesi em 1930: Hermínio (o caçula) entre os pais Hermínio e Ana Maria e os irmãos Ottoni, Humberto, Atílio, Natalino, Danilo, Helena e Carmem. Foto: acervo de família, divulgação

O diploma de contador fornecido em 1940, quando Hermínio finalizou o ginásio do Colégio Nossa Senhora do Carmo. Foto: acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Escola de formação

Espécie de escola para vários profissionais atuantes até hoje, a então Vidraçaria Caxiense também teve como sócios, nos anos 1960 e 1970, o casal Léo e Celeste Brustolim, pais do atual bispo auxiliar de Porto Alegre Leomar Brustolim. Porém, foi no finalzinho dos anos 1970 que iniciou na molduraria aquele que hoje dá continuidade ao legado do mestre.

Aos 14 anos em 1979, Dalfrei Carniel Horbach, 50, teve em seu Hermínio um segundo pai, com quem aprendeu muito mais do que um ofício. Atual proprietário da molduraria, Dalfrei faz questão de manter a memória do fundador bem próxima.

Desde a última quinta-feira, o óleo sobre tela pintado pelo amigo Selestino Oliveira em 2000 – e disposto sobre um cavalete na entrada da galeria – traz seu Bassa em meio a tintas, pinceis e molduras.

Nada menos do que sua vida.

Hermínio Bassanesi (o segundo agachado à direita) e os colegas de teatro da Aliança Francesa, no final dos anos 1950. Foto: Mauro De Blanco, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Foto emblemática

Na imagem acima vemos nomes fundamentais que passaram pelas salas e pelo palco da Aliança Francesa no final dos anos 1950 e início dos 1960.

Além de Hermínio Bassanesi (o segundo agachado, à direita), aparecem ainda o ator e diretor Nilton Scotti e a esposa Rose Scotti, a figurinista Corina Wainstein (sentada, ao centro), o arquiteto Rubens Baldisserotto (agachado ao lado de Corina), o casal Ely Andreazza e Lorita Sanvitto Andreazza, Liliana Rosseti, o filósofo e professor Gerd Bornheim (à direita, de óculos), o médico Darwin Gazzana e a esposa Jaqueline Gazzana (agachados à direita), Yole Bellini, Zilá Dankwardt Azevedo (sentada ao centro, ao lado de Corina), David e Gloria Andreazza, Renan Falcão de Azevedo, Carmem Bassanesi, Ulisses Paulo da Silva, Irmgard Bornheim, Zilia Garcia, Iara Mattana e o casal Máximo e Edith Nandi (sentados à esquerda) – pais da atriz Ítala Nandi, revelada no palcos da Aliança Francesa.

Colaboraram na identificação acima a senhora Gerda Bornheim e o senhor Ruben Festugato, o Tuga, amigos de Hermínio “desde sempre”. Se você reconhece mais alguém, entre em contato com a coluna.

O Teatro da Aliança Francesa

Localizado junto à sede da Aliança Francesa, na Av. Júlio de Castilhos, entre a Farmácia Central e o Cinema Central, o teatro comportava 80 lugares e costumava atrair também os frequentadores do cinema.

Na sequência abaixo, por exemplo, seu Hermínio aparece junto aos companheiros de elenco da montagem O Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado, no início dos anos 1960.

O Cavalinho Azul: Bassanesi (ao centro) e os colegas nos bastidores da montagem. Foto: Mauro De Blanco, acervo de família, divulgação

Bassanesi (sentado ao fundo), o amigo David Andreazza (ao lado dele) e os colegas de teatro da Aliança Francesa. Foto: Mauro De Blanco, acervo de família, divulgação

Uma rara imagem colorida de O Cavalinho Azul, com Bassanesi em ação (à direita). Foto: Mauro De Blanco, acervo de família, divulgação

Eterno Bassa

“Bassa”, como seu Hermínio ficou eternizado, era do tempo das brincadeiras no meio da rua com os irmãos Andreazza, das livrarias Rossi, Saldanha e Mendes, do “galinheiro” do Cine Ópera, dos flertes da juventude defronte ao Guarany e ao Central, da efervescência cultural promovida pela Escola Superior de Belas Artes, do teatro de vanguarda de Nilton Scotti na Aliança Francesa, dos flashes de Mauro De Blanco, enfim, de várias coisas que Caxias hoje sente falta.

Falecido na última segunda aos 89 anos, em decorrência de uma infecção pulmonar, o chamado mecenas das artes caxienses deixa um legado de bom gosto, discrição e carisma. Cada moldura, tela ou espelho saído de sua loja refletem um pouco dessa personalidade que fugia dos holofotes. Mas que, por isso mesmo, manter-se-á reluzindo.

A missa de sétimo dia ocorre neste domingo, às 17h, na Igreja São Pelegrino.

Foto: acervo de família, divulgação

Em 2010: Hermínio Bassanesi e o amigo Ruben Festugato, o Tuga, durante a Feira do Livro. Foto: acervo de família, divulgação

Endereço

Um dos moradores mais antigos e conhecidos do bairro São Pelegrino, Hermínio Bassanesi residiu por toda a vida na casa de madeira construída pelos pais na Rua Pinheiro Machado, 2.314, a poucos metros da Molduraria Caxiense e do Bazar Andreazza.

Bassa eternizado por amigos

Nas imagens a seguir, Hermínio Bassanesi retratado por artistas que ajudou a divulgar ao longo de sua trajetória.

Rara pintura de seu Hermínio na juventude, por um autor não identificado, integra o acervo particular. Foto: Rodrigo Lopes

Rara pintura de seu Hermínio na juventude, registrada por um autor não identificado, integra o acervo particular. Foto: Rodrigo Lopes

Robinson Sobrera, ícone da pintura em Caxias do Sul nos anos 1970 e 1980, presenteou o amigo Hermínio Bassanesi com um retrato e uma dedicatória em 1975. Foto: Rodrigo Lopes

Robinson Sobrera, ícone da pintura em Caxias do Sul nos anos 1970 e 1980, presenteou o amigo Hermínio Bassanesi com um retrato e uma dedicatória em 1975. Foto: Rodrigo Lopes

Em 2000: tela pintada por Selestino Oliveira atualmente decora a entrada da galeria. Foto: Rodrigo Lopes

Em 2000: tela pintada por Selestino Oliveira atualmente decora a entrada da galeria, uma homenagem do sócio e amigo Dalfrei Carniel Horbach. Foto: Rodrigo Lopes

O último trabalho

As duas imagens a seguir foram as últimas de seu Hermínio Bassanesi e trazem o artista no atelier, trabalhando em sua última obra, uma mandala inacabada.

Os registros foram captados pela funcionária da molduraria Roselita Fontana.

Foto: Roselita Fontana, divulgação

Uma das últimas fotos de seu Hermínio, em ação no atelier, pintando uma mandala. Foto: Roselita Fontana, divulgação

Foto: Roselita Fontana, divulgação

Mandala não chegou a ser concluída por seu Hermínio, falecido no último dia 29. Foto: Roselita Fontana, divulgação

Espaço sagrado: o atelier de seu Bassa, localizado em uma sala anexa à molduraria. Foto: Rodrigo Lopes

Foto: Rodrigo Lopes

Tintas, pinceis, quadros e posteres: o antigo atelier do Bassa. Foto: Rodrigo Lopes

Fragmentos de uma trajetória estão por todos os lados do atelier junto à molduraria, na Rua Moreira César. Foto: Rodrigo Lopes

Depoimentos

“Conheci o Bassa ainda menina, quando acompanhava minha mãe, Lilia, ao seu ateliê, à Rua Moreira César. Durante muito tempo, a emolduração de quadros e a confecção de espelhos passavam por ali, já que ele implantara um negócio pioneiro. À prestação de serviço, agregava particular sensibilidade e conhecimento sobre as artes, sobre a cultura. Mas seu carisma advinha, mesmo, do otimismo perante a vida e do genuíno carinho que nutria pelas pessoas – amigos, clientes, funcionários, familiares.
Conforta saber que ainda posso encontrar o ateliê no mesmo endereço que faz parte de minha memória afetiva e que o sucessor, Dalfrei, criado na parceria cotidiana do trabalho, continuará a exercer a atividade com o esmero e atenção característicos. Será assim que sempre lembraremos de alguém que fez a diferença em nossa cidade.” Liliana Alberti Henrichs, diretora de Memória e Patrimônio Cultural de Caxias do Sul

“Nosso Bassa tinha alma de artista, daquelas de antigamente, em que a arte deveria ser quase um sacerdócio. Uma pessoa mágica, um semeador de poesias visuais. Deixa saudade e, como legado, a construção de um olhar estético.” Mara De Carli, artista plástica

Hermínio Bassanesi entre a artista plástica Mara De Carli e a professora Zilia Garcia, durante um vernissage na Galeria de Arte da Casa da Cultura, em 2011. Foto: Maurício Concatto, divulgação

Foto: Valéria Rheis, acervo Galeria Arthista Um, divulgação

Hermínio Bassanesi em novembro de 2014, quando conferia a exposição da amiga artista plástica Beatriz Balen Susin, na Galeria Arthista Um. Foto: Valéria Rheis, acervo Galeria Arthista Um, divulgação

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