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Hotel Avenida, um clássico da Av. Rio Branco

03 de setembro de 2015 7

Esquina emblemática: o casarão de 1927, o senhor e o fiel cachorro que costumam posicionar-se frequentemente no canteiro em frente, aos finais de tarde. Foto: Bruno Zulian, divulgação

O velho casarão de madeira adornado por lambrequins é provavelmente a construção mais antiga do trecho da Av. Rio Branco, na divisa entre os bairros Rio Branco e São Pelegrino. E sua permanência na esquina com a Olavo Bilac há mais de 85 anos transformou-o informalmente em um patrimônio histórico caxiense – apesar de não constar no Livro de Tombo do Município.

O espaço surgiu por volta de 1927, cinco anos após a chegada do casal Francisco Casara e Paulina Tisott Casara ao bairro, em 1922. Construído por seu Francisco e batizado de Hotel Avenida, o local logo transformou-se em pouso para os migrantes que chegavam para trabalhar na antiga Industrial Madeireira, na safra da uva e nas vinícolas próximas à linha férrea, como a Mosele e a Cooperativa Vinícola Caxiense.

O aposentado Nadir Casara, 86 anos, filho de Francisco e Paulina, tem boa parte dessa história bem viva na memória. Além de ter nascido lá dentro, em 1º de junho de 1929, seu Nadir morou no casarão por 27 anos, até 1956, quando casou.

– Era o dormitório de mascates, tropeiros e militares, além dos migrantes que chegavam diariamente à cidade. Eles permaneciam ali até arranjar uma casa e trazer o restante da família – recorda Nadir, ex-goleiro do Juventude nas décadas de 1940 e 1950.

Na imagem abaixo, uma vista aérea de meados dos anos 1930, onde é possível visualizar o casarão (à esquerda), o complexo da Vinícola Mosele (em frente) e o antigo 9º Batalhão de Caçadores (atual quartel).

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Década de 1930: vista aérea do bairro Rio Branco, com o antigo Hotel Avenida (à esquerda), o quartel e a Vinícola Mosele. Foto: acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

O início

Originalmente, o lugar dispunha de dois salões no térreo, para refeições e estar, e apenas um banheiro – para todos. No segundo pavimento ficavam os oito quartos. E bem na esquina, uma espécie de bar. Dona Paulina respondia pela comida. Seu Francisco, também funcionário do vizinho Moinho Germani, administrava a casa. Nadir e os irmãos, Nestor, Emeri e Sadi, ajudavam.

– Era tudo rua de chão batido, passavam bois, vacas, cavalos, a gente jogava milho para os porcos – lembra.

Conforme Nadir, a família morou no hotel até construir a residência de alvenaria ao lado, na Olavo Bilac, em finais dos anos 1940. A mãe, dona Paulina, seguiu com o aluguel de quartos até por volta de 1966.

Ela faleceu em 2002, aos 99 anos.

Os irmãos Casara em 1948: Nadir (à direita) Emeri (E) e Sadi (ao centro) na esquina do casarão, com a Av. Rio Branco ao fundo. Foto: acervo de família, divulgação

Hóspedes ilustres

No Avenida hospedaram-se nomes que dali a algum tempo estariam ligados à fundação e administração da Vinícola Mosele – bem em frente –, como Eduardo Mosele e Beno Weirich.

Militares do antigo 9º Batalhão de Caçadores e, posteriormente, do 3º Grupo de Canhões Automáticos Antiaéreos 40mm, também eram assíduos. Entre eles, o sargento José Scussiato, que faleceu “de tifo” (febre tifóide) e foi velado lá dentro.

O registro abaixo, por exemplo, traz o cortejo fúnebre de Scussiato, com o hotel ao fundo, em 28 de abril de 1935 – o séquito deu-se pela Av. Rio Branco em direção à Forqueta, onde ele foi enterrado.

Av. Rio Branco em 1935: registro do cortejo fúnebre de José Scussiato, militar e antigo morador do Hotel Avenida (o casarão ao fundo). Foto: Lauro Schmitt, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

História atrelada ao hotel

A foto do cortejo fúnebre acima integra o acervo do Arquivo Histórico Municipal e foi doada por dona Ivone Denicol, 70 anos, a partir das recordações mantidas pelo pai, João Cirilo Denicol, amigo de Scussiato.

Seu Denicol morou por vários anos no hotel, atuando como barbeiro. Inclusive, a barbearia anexa ao casarão – e existente até hoje – foi construída por seu Francisco Casara para ele trabalhar. Foi no hotel também que seu Denicol conheceu a futura esposa, Pierina Formolo, uma das funcionárias da casa.

Após o casamento, em 1944, João Cirilo e Pierina deixaram o Avenida. Já em 1945 nascia a filha Ivone – que, sete décadas depois, ajudou a recontar toda essa história…

O casarão atualmente, ainda com aluguel de quartos na parte superior. Foto: Edson Pereira, divulgação

Várias ocupações

Ao longo de mais de 80 anos, o casarão sediou, além do hotel, lancherias, floriculturas, bazares e toda sorte de comércios. Logicamente, também sofreu com remendos, puxadinhos e alterações desordenadas em sua arquitetura colonial típica.

Atualmente, abriga uma espécie de pensão no segundo andar, resquício de sua função original. No térreo, a Casa do Estofado, responsável pela colorida fachada.

O vermelho berrante, as pinturas nas paredes e uma certa poluição visual chamaram a atenção da artista plástica Vivi Pasqual, que eternizou o lugar em um divertido desenho (abaixo).

Artista plástica Vivi Pasqual eternizou o casarão da estofaria em um simpático desenho. Foto: reprodução

Futuro

Volta e meia o casarão é colocado à venda pelos proprietários. O destino da clássica esquina, porém, segue uma incógnita…

Comentários (7)

  • jose diz: 3 de setembro de 2015

    Realmente complicada a situação do casarão. Por lei não pode ser demolido e localiza-se em um excelente ponto comercial. Esperamos que o antigo casarão seja respeitado.

  • Vini diz: 3 de setembro de 2015

    Eu sinto muito porque essa pintura está estragando o patrimônio. A edificação simplesmente foi encoberta por uma tinta vermelha e uns desenhos de sofás, além de letreiros enormes espalhados, nessa madeira antiguíssima. Quer dizer, respeito nada! Vendem sofá, mas não querem nem saber do que se trata. Acho que se está tombado, devia haver uma proteção quanto a pintura, como ela será elaborada, que cores usar, letreiro, etc.

  • paulo barp diz: 3 de setembro de 2015

    Não deixem morrer nossa historia.

  • Anderson diz: 3 de setembro de 2015

    Realmente é emblemático ter uma construção assim ainda numa cidade como Caxias que assiste dia a dia o erguer de prédios por todo lado. Ja vi muitas casas serem colocadas abaixo para dar lugar ao modernismo desta era. De todo modo, seria interessante que seja preservado em sua totalidade, pois com certeza devem haver muitas histórias este casarão a nos contar.

  • Francisco Casara Neto diz: 5 de setembro de 2015

    Eu como neto do sr. Francisco Casara fico orgulhoso pela matéria, que lembra de uma família empreendedora que contribuiu para o desenvolvimento de Caxias do Sul.

  • Katia Casara diz: 10 de setembro de 2015

    Prezado Rodrigo
    Parabéns pela reportagem, faço parte dessa historia. Sou filha de Sadi Antonio Casara. Além dos ilustres empresários Caxienses o nosso Rei Pelé jantou varias vezes na companhia dos irmãos Casara na casa ao lado como informa a reportagem. Foram cedidas as fotos para os arquivos do jornal O Pioneiro.Espero contar com outras reportagens das famílias ilustres da terra.
    Grande Abraço

  • Carla Casara diz: 10 de setembro de 2015

    Fiquei emocionada e muito orgulhosa quando vi a reportagem. Faço parte dessa história. Passei boa parte de minha infância no casarão junto com meus irmãos. Tenho lindas lembranças do lugar. Continue mostrando a história que faz parte da cidade.

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