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Nu fotográfico agita a Aliança Francesa em 1955

16 de setembro de 2015 0

Imagem intitulada “Silhueta” integrou o I Salão de Amadores de Arte Fotográfica de Caxias do Sul, aberto em agosto de 1955. Foto: Studio Beux, acervo de Anthony Beux Tessari, divulgação

Fotografar um nu artístico, ok. Ao longo do século 20, vários fotógrafos antigos de Caxias devem ter experimentado essa ousadia. Porém, incluir uma imagem erótica em uma mostra pública, em plena Av. Júlio de Castilhos, há 60 anos, não era bem assim.

Tanto que quando o então estudante de Engenharia Mecânica e fotógrafo amador Carlos Caetano Pettinelli (1928-2008) resolveu expor a imagem de uma modelo de perfil, com o contorno do seio em evidência, não escapou de uma polêmica. Não dos espectadores, mas da igreja.

– Os padres quiseram retirar a fotografia da mostra, mas a direção da Aliança Francesa (onde ocorria a exposição) não permitiu – recordou Pettinelli em 2005, durante uma entrevista em vídeo concedida ao produtor e fotógrafo Javier Masiá, o Paquito.

Tudo ocorreu em agosto de 1955, quando a imagem intitulada Silhueta foi uma das integrantes do Primeiro Salão de Amadores de Arte Fotográfica de Caxias do Sul. Organizado pelo fotógrafo Mauro De Blanco (1924-2010), com o patrocínio do Foto Cine Clube, do Juvenil, o salão reuniu imagens em três categorias: retratos, paisagens e temas livres.

Pettinelli e outros 16 expositores tiveram seus trabalhos em preto & branco avaliados por um júri especialmente vindo de Porto Alegre. O grande vencedor foi Ari De Carli, autor da imagem San Carlos de Bariloche, que, além do primeiro lugar na categoria paisagens, faturou o prêmio de melhor foto do salão.

Clique nas imagens para ampliar.

Ousadia: fotografia de Carlos Pettinelli foi feita no Rio de Janeiro e integrou o salão promovido pela Aliança Francesa. Foto: Maria Angélica Pettinelli Angonese, divulgação

Modelo do Rio de Janeiro

No depoimento de 2005, Carlos Caetano Pettinelli, o Carluccio, detalhou o trabalho feito entre 1954 e 1955. Como dispunha de equipamento próprio completo, ele fez, revelou e ampliou a fotografia.

Munido de uma clássica câmera Rolleiflex, eternizou sua modelo ao ar livre, com luz natural, na cobertura do edifício onde ele e o irmão, Mario Alberto, moravam, no Rio de Janeiro – na época, ambos eram estudantes de Engenharia Mecânica.

A modelo?

– Era uma amiga minha, corretora de imóveis, do Rio. Uma mocinha, guriazinha, devia ter uns 20 e poucos anos – revelou Carluccio.

Porém, quando a foto foi exposta por aqui, imediatamente provocou alvoroço. Na provinciana Caxias de 1955, todo mundo buscava a identidade da “formosa” jovem.

– Queriam saber quem era, de onde era. O interesse não era pelo fotógrafo e nem pela fotografia, era pela modelo…

Clique na imagem para ler o texto original da época.

Matéria de agosto de 1955 no Pioneiro detalhava o júri e os vencedores de cada categoria. Foto: reprodução/Pioneiro

Os autores

Além de Pettinelli, Antonio Beux e Ari De Carli, o salão de 1955 teve a participação de Alcides Furlan, Carlos Grubber, Carlos Braga, Clovis Rossi, Ely Andreazza, Clovis Pradel Pinheiros, Gerd Borheim, Germano Pezzi, Girólamo Magnabosco, Gil Horta Barbosa, Mário Pereira da Costa, Renan Falcão de Azevedo, Roberto Torelly e Victor Mandelli.

O primeiro lugar na categoria retratos ficou com a foto Repouso Merecido, de Ely Andreazza. Já Roberto Torelly venceu a categoria temas livres, com a imagem Passeio.

O reconhecimento a Pettinelli veio na segunda edição do certame, em 1961. Ele faturou o prêmio de melhor foto do salão e o primeiro lugar na categoria paisagem, com a imagem Bruma no Guaíba. Desta vez, a mostra ocorreu na antiga Escola Superior de Belas Artes, onde hoje situa-se o prédio da Casa da Cultura, na Rua Dr. Montaury.

A Escola de Belas Artes nos anos 1950.

Hermínio Bassanesi e os bastidores da Aliança Francesa.

50 anos depois: Carlos Pettinelli, autor da foto, relembrou da história em 2005. Foto: Roni Rigon, banco de dados/Pioneiro

História retorna 60 anos depois

Toda essa história ressurgiu a partir de uma rara foto do vernissage de 1955. Ela foi disponibilizada pelo professor e historiador Anthony Beux Tessari, neto do fotógrafo Antonio Beux – fundador do lendário Studio Beux e um dos participantes do salão de 60 anos atrás.

O flagrante destaca o público conferindo a mostra, com a silhueta da jovem carioca afixada ao alto. Logicamente, bem longe do olhar das crianças. Já a imagem original foi cedida pela leitora Maria Angélica Pettinelli Angonese, filha de Carlos Caetano Pettinelli – o quadro com a foto permanece com a família até hoje.

Na entrevista de 2005, o autor da imagem cogitou a possibilidade de outros antigos fotógrafos de Caxias (Julio Calegari, Ulysses Geremia) terem feito esse tipo de registro, mas com um ressalva.

– Possivelmente tenham feito, mas não era algo público. E expor, muito menos…

Família Pettinelli hospeda Martha Rocha em Caxias do Sul em 1955.

Em 1955: Carlos Pettinelli e a Miss Brasil Martha Rocha durante a passagem da beldade por Caxias do Sul. Foto: acervo pessoal de Carlos Caetano Pettinelli, divulgação

Nus de Mauro de Blanco

O fotógrafo Mauro De Blanco, que organizou o Primeiro Salão de Amadores de Arte Fotográfica de Caxias do Sul, em 1955, e registrou as apresentações teatrais promovidas pela Aliança Francesa até 1964, também costumava fazer ensaios de nu artístico em seu estúdio.

Várias dessas imagens, inclusive, obtiveram premiações nacionais e internacionais. Mas essa é uma história que abordaremos em outra coluna…

Agradecimento

Informações e imagens desta coluna são uma colaboração de Anthony Beux Tessari, Maria Angélica Pettinelli Angonese e do Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.

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