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Galópolis antiga: no escurinho do cinema

22 de janeiro de 2016 1

O interior do Cine Operário no final dos anos 1970, com as antigas cortinas bordôs e o nome em dourado. Em cartaz, O Grande Búfalo Branco, com Charles Bronson. Foto: acervo de Lourdes Diligenti, divulgação

O cinema em meados dos anos 1990, fechado e bem distante dos tempos áureos. Foto: acervo pessoal de Lourdes Diligenti, divulgação

Os filmes eram anunciados por alto-falantes, para todo o bairro saber se a atração seria um faroeste com Joh Wayne, uma comédia pastelão estrelada por O Gordo e o Magro ou um musical de Fred Astaire. A cada sessão, uma sirene dava o sinal para o público entrar na fila: dentro de instantes, “a película” iria começar.

Na calçada, cavaletes exibiam os coloridos cartazes responsáveis por atrair espectadores não familiarizados com as tramas. Lá dentro, ao apagar das luzes, O Coro dos Ferreiros, da ópera Il Trovatore, de Verdi, acompanhava o abrir das cortinas. De lã, na cor bordô e com a identificação “Cine Operário Galópolis” bordada em dourado, elas davam lugar à tela branca que receberia a projeção.

Impossível dissociar a descrição acima da trama do clássico italiano Cinema Paradiso (1989), mas Galópolis também pode se gabar do seu Cine Paradiso, tal qual a comuna italiana do filme de Giuseppe Tornatore.

Mais do que pontuar as sessões, nas décadas de 1940 a 1960 esse ritual fez parte do cotidiano de centenas de espectadores, que tinham no cinema “um acontecimento” para ser comentado durante a semana.

Para recordar do início do Cine Operário em Galópolis.

Dona Lourdes e o programa original de inauguração do novo palco do cinema, em 1947. Foto: Rodrigo Lopes

Lembranças: Dona Lourdes e o programa original de inauguração do novo palco do cinema, em 1947. Foto: Rodrigo Lopes

Memórias de família

Dona Lourdes Diligenti Comerlato, 80 anos, filha do fundador Victório Diligenti, teve o privilégio de acompanhar toda essa trajetória – do auge ao ocaso, como manda uma boa ficção.

A lista de lembranças boas é vasta: os flertes defronte ao cinema antes da sessões, o acendimento das luzes quando os filmes “davam problema”, os xingamentos ao operador e, pasme, o público batendo os pés no chão e gritando quando da chegada da cavalaria nos filmes de faroeste.

- Os alto-falantes da frente também serviam para mandar declarações e dedicatórias de amor – recorda ela.

Das lembranças nem tão boas assim, dona Lourdes enumera a obrigatoriedade de uma quantia x de filmes nacionais numa época (anos 1970) em que essa cota eram dominada por pornochanchadas.

- Foi quando o cinema começou a perder a magia – resume.

Clique nas imagens para ampliar.

Prédio atualmente abriga exposições esporádicas e atividades da igreja. Foto: Roni Rigon, divulgação

A segunda fase

A era Victório Diligenti à frente do cinema teve fim em 1965, após um período em que o local passou a ser “mal-visto” e condenado pela igreja. São dessa época as referências ao local como “a casa do diabo”, “casa de satanás” e outros adjetivos menos nobres – filmes com cenas de beijo mais quentes, como na trama de Cinema Paradiso, passaram a ser boicotados. Não suportando a pressão religiosa e a força da televisão , Victório desfez-se do negócio.

De propriedade da Mitra Diocesana e sob a tutela do padre Angelo Mugnol, o cinema manteve Victório como gerente até 1967. Porém, por motivos de doença, ele teve seu cargo assumido pelo antigo projecionista Eugênio Belló. Já as sessões, com queda crescente de público, prosseguiram até o início dos anos 1980.

Foi quando uma comissão de moradores, formada por Belló, Dorvalino Mincato, Marcos Scalabrin, Rita Moschen e Armando Basso, contestou uma decisão da Mitra e lutou pela continuidade da sala. A sobrevida do Cine Operário durou pouco mais de ano, culminando no fechamento definitivo, em 1983.

Bastante descaracterizado, o local hoje abriga atividades da igreja, exposições, cursos e eventuais palestras.

Clique nas imagens abaixo para ampliar e ler os textos da época.

O grupo Matéria Prima em 2005, quando promoveu várias atividades culturais dentro do prédio. Foto: Roni Rigon, banco de dados/Pioneiro

Matéria do Pioneiro em 2005 destacou as iniciativas do grupo Matéria Prima para badalar o espaço do antigo cinema. Foto: reprodução/Pioneiro

Agitos no cinema em 2004

Formado em 2004 por jovens do bairro, o grupo Matéria Prima encabeçou uma série de iniciativas para movimentar o espaço do antigo cinema. Promoveu a exibição do longa Bicho de Sete Cabeças (em DVD), a exposição Fotografe Galópolis como Você Vê, um show de Dante Ramon Ledesma e um sarau gaudério.

Integrante do extinto Matéria Prima, o advogado Alexander Canale buscava, em 2005, retomar algo que o bisavô – o fundador do cinema, Victório Diligenti – fizera a partir dos anos 1920: oferecer diversão e opções culturais para a população de Galópolis.

Passados 12 anos, Canale ainda não desistiu da ideia: a partir da história do cinema recordada na coluna de quinta-feira (21), lançou uma espécie de jogo da memória no Facebook:

“Acho que todos de Galópolis com mais de 30 anos podem contar uma história sobre o cinema. A minha é que assisti Star Wars – O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi. E Blade Runner também. Bons tempos! Meu sogro Ângelo Basso conta que certa vez colocaram um cartaz na porta do cinema com os seguintes dizeres: “Hoje não haverá sessão por falta de índios”, o que causou certa revolta no meu bisavô Vitório Diligenti, mas mostrava a predileção dele pelos “faroestes” ou “bang-bang” de John Wayne. Alegria maior seria transformar o prédio em algo que se possa recordar e um local de incentivo à cultura de Caxias.”

Em 2005: Alexander Canale (à direita, de óculos) e o grupo Matéria Prima, formado por Maurício e Roberta Felippi, Roberta Canale, Manuela Pauletti, Alexandre Echer, Ranieri Calza e André Pan. Foto: Roni Rigon, banco de dados/Pioneiro

Dona Lourdes Diligenti Comerlato e o antigo móvel da  pianola dos primórdios do cinema, nos anos 1920. Foto: Rodrigo Lopes

Dona Lourdes Diligenti Comerlato e o antigo móvel da pianola, utilizada nos primórdios do cinema, nos anos 1920. Foto: Rodrigo Lopes

Um possível espaço cultural

Se dependesse da vontade dos moradores mais antigos, os projetores voltariam a rodar em Galópolis. Menos utópico, porém, seria a transformação do espaço em um centro cultural que abrigasse, além das memórias de sua função original, várias outras atrações.

Uma das maiores entusiastas da ideia é, logicamente, dona Lourdes Diligenti Comerlato, filha do fundador Victório Diligenti. Praticamente “nascida” e criada lá dentro, dona Lourdes guarda pastas e pastas com a trajetória do cinema – entre tantas preciosidades, uma listagem com todos os filmes apresentados desde a inauguração, em ordem alfabética e com as respectivas datas.

A maior relíquia mantida em casa, porém, é o móvel da pianola, espécie de piano mecânico dotado de um rolo de papel perfurado, acionado por pedais, com as notas da peça a ser executada durante a projeção dos filmes mudos.

É de dona Lourdes um depoimento que reproduzimos aqui:

“Rendo a minha homenagem a Victório Diligenti, o pioneiro do cinema no interior de Caxias do Sul. Resgatando sua jornada memorável, resta a esperança de que a equipe do Museu de Território de Galópolis salve o que restou dessa história. É um apelo que faço em nome da tradição, das raízes e dos amantes do Cine Operário, para que não se tenha somente como testemunha solitária o móvel centenário da pianola dos tempos do cinema mudo.”

A pianola, uma relíquia do início do cinema na década de 1920, quando os filmes ainda eram mudos. Foto: Rodrigo Lopes

A pianola, uma relíquia do início do cinema na década de 1920, quando os filmes ainda eram mudos. Foto: Rodrigo Lopes

Almofadas vendidas pelo Clube de Mães de Galópolis trazem referências do antigo cinema, como a fachada e a cortina. Foto: Rodrigo Lopes

 Lembranças

O Cine Operário foi um dos vários símbolos do bairro que serviram de inspiração para os trabalhos manuais do Clube de Mães de Galópolis.

Almofadas desenvolvidas por senhoras da comunidade e vendidas aos moradores reproduzem a fachada e o interior do cinema, acompanhadas de uma breve história do lugar.

Uma história que, desde 1929, acompanhou gerações e gerações de espectadores…

Um depoimento de amor ao cinema e ao que ele representou para Galópolis desde 1929. Foto: Rodrigo Lopes

Um depoimento de amor ao cinema e ao que ele representou para Galópolis desde 1929. Foto: Rodrigo Lopes

Comentários (1)

  • GABRIELA MELISSA DANI diz: 29 de fevereiro de 2016

    Ola Rodrigo. Muito oportuno este destaque que destes à Galopolis. Minha mae nasceu ali e tenho otimas recordaçoes de minha infancia neste bairro, pois minha tia morou durante muitos anos na casa que hoje é o Instituto Hercules Gallo. Sou presidente da associaçao italiana ASPI-Associaçao Piccola Italia de Caxias do Sul e juntamente com o Renato Solio (Instituto Hercules Gallo), AMOG (Associaçao de Moradores de Galopolis), Velocino (Subprefeito), igreja de Galopolis, Clube de Maes e alguns moradores, estamos encaminhando na Italia um PACTO DE AMIZADE entre Galopolis e uma cidade do Veneto. Este pacto possibilitara a Galopolis muitas atividades culturais e com certeza fara Galopolis ser conhecida por todos. Por isso, o teu artigo sobre o cinema de Galopolis e a sua historia veio como reforço para podermos mostrar a todos a importancia deste bairro de Caxias, desconhecido por muitos. Se precisar de alguma informaçao, nos avise e continue a publicar a historia de Caxias, esquecida por muitos….. Bom trabalho. Atenciosamente, Gabriela Melissa Dani.

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