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Agruras do poeta Cassiano Ricardo em Vacaria

04 de fevereiro de 2016 0
O poeta e escrtor Cassiano Ricardo em meados dos anos 1960.  Foto: reprodução/Agência RBS

O poeta e escritor Cassiano Ricardo em meados dos anos 1960. Foto: reprodução/Agência RBS

Integrante do movimento modernista brasileiro, o escritor e advogado paulista Cassiano Ricardo (1895-1974) teve uma passagem pelo Rio Grande do Sul, mais precisamente por Vacaria, onde morou durante quatro anos. Em 1919, aos 24 anos, instigado por um cunhado, decidiu conhecer as “coxilhas onduladas” e o pampa gaúcho, que há muito o fascinavam.

A viagem, num “fordeco bigode”, como conta em suas memórias, foi uma aventura. Trazendo consigo os pais, a mulher e um filho, entrou por Erechim, passando por Sananduva e Lagoa Vermelha, enfrentando atoleiros em estradas construídas pelas rodas das carretas.

Foi muito bem recebido pelos vacarianos, mas, já no primeiro chimarrão que lhe ofereceram, cometeu uma gafe imperdoável: pediu um pouco de açúcar, para amenizar o amargo da bebida. “Bem mostra que é baiano”, gracejaram os parceiros, dando a entender que era alguém de fora dos pagos.

Cassiano abriu seu escritório de advocacia e já no primeiro dia apareceu um cliente. Entusiasmado, foi logo firmando amizade com maragatos e pica-paus, mas a aproximação maior foi com os primeiros, tornando-se defensor do partido antiborgista.
Conheceu os principais líderes políticos da cidade, entre eles, o general Firmino Paim, que costumava, segundo os maragatos, mandar colocar o adversário indesejado no lombo de um burro e largá-lo no outro lado do Rio Pelotas, em território catarinense, vivo ou morto.

Passou também a tomar posição partidária, de que mais tarde viria a se arrepender. Enquanto isso, identificava-se cada vez mais com os costumes da terra: aprendeu a andar a cavalo, a usar a garrucha na cintura, a enfrentar o frio abaixo de zero e a dominar o linguajar do povo. Orgulhava-se de já “saber falar gaúcho”.

Fragmentos do poema Exortação estão gravados em bronze na porta do Monumento ao Imigrante. Foto: reprodução/Agência RBS

Jogo de roleta

Conforme um pesquisador local, o advogado Adhemar Pinotti, Cassiano Ricardo viveu ainda uma experiência amarga em Vacaria: o jogo de roleta, que quase o levou à falência.

Ele conseguiu superar o vício, mas não a ira dos defensores de Borges de Medeiros, motivada também pelos artigos críticos que publicava no jornal Pátria, fundado por ele e pelo amigo jornalista André Carrazoni.

Ameaçado de morte por mais de uma vez, Cassiano decidiu voltar para São Paulo, no início da revolução de 1923.

Clique nas imagens para ampliar.

Monumento ao Imigrante, um símbolo de Caxias do Sul. 

Foto: Ricardo Wolffenbüttel, banco de dados/Pioneiro

Desde 1954: poema está gravado na porta de bronze que dá acesso ao Espaço Cultural Antonio Caringi, na cripta do Monumento ao Imigrante. Foto: Ricardo Wolffenbüttel, banco de dados/Pioneiro

Poema no Monumento ao Imigrante

A presença de Cassiano Ricardo no Rio Grande do Sul não se encerrou em Vacaria. Desde 1954, ela está eternizada nos fragmentos do poema Exortação, gravado em bronze na porta da cripta do Monumento Nacional ao Imigrante, na BR-116, em Caxias do Sul.

Espaços para recordar da história: o Monumento ao Imigrante.

Monumento ao Imigrante pelo Studio Tomazoni Caxias.

Os versos

Ó louro imigrante
que trazes a enxada ao ombro…
Sobe comigo a este píncaro
e olha a manhã brasileira
que nasce por dentro da Serra,
com um punhado de cores
jogado da terra

O meu país
e todo um rútilo tesouro
nas tuas mãos
e a semente que aqui plantares
será de ouro
no chão de esmeralda

E terás, sobre o solo bravo,
aberto em flor,
a sensação, a graça
de um descobridor

Poema de Cassiano Ricardo é um dos destaques do museu da cripta. Foto: Tatiana Cavagnolli, banco de dados/ Agência RBS

Parceria

Informações desta página foram publicadas originalmente na coluna Almanaque Gaúcho, do colega Ricardo Chaves, de Zero Hora.

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