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Faquirismo: jejum, serpentes e uma cama de pregos em 1958

13 de fevereiro de 2016 0

Fama e fome: performance da faquiresa Sandra em Caxias do Sul, em 1958, atraiu centenas de curiosos. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

Sandra entra na urna para o início da prova de jejum. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

Equipe lacra a urna onde Sandra ficaria exposta ao público. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

Quem viu, provavelmente não esqueceu. Aliás, como esquecer de Sandra, a jovem que permaneceu 35 dias encarcerada em uma urna de vidro, exposta ao público, sem comer, deitada sobre uma cama de pregos e tendo como companhia duas enormes serpentes?

Foi em 1958, no período da Festa da Uva, que a faquiresa chegou a Caxias para apresentar um “número sensacional de jejum e suplício”, conforme anúncio veiculado pelo Pioneiro da época:

“Está marcado para o dia 25 de fevereiro corrente o início de uma sensacional prova de faquirismo feminino, a ser levada a efeito por Sandra, nome conhecido entre os jejuadores-esportistas do Rio Grande do Sul. A prova terá lugar no edifício que fica ao lado da Bomboniére Cairo e que foi salão da exposição de automóveis. Sandra permanecerá 35 dias encerrada na urna, reclinada sobre almofadas de pregos, tendo como companhia apenas algumas jibóias. Ela nasceu no município de Osório e, dedicando-se ao faquirismo, conseguiu bater o recorde gaúcho de jejum, tanto feminino como masculino. O encerramento da prova está marcado para o dia 31 de março.”

Jornal Pioneiro anunciou a atração em fevereiro de 1958. Foto: reprodução/ acervo Centro de Memória da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul

Jornal Pioneiro anunciou a atração em fevereiro de 1958. Foto: reprodução/ acervo Centro de Memória da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul

Performance em fotos

No decorrer desse post, alguns registros da performance da faquiresa em Caxias, sob os olhares curiosos do público, e do fim do jejum, quando, visivelmente debilitada, ela foi socorrida pela equipe de apoio – boa parte do ritual foi registrada pelo Studio Geremia.

Já no final de 1958, a artista bateria o recorde mundial de jejum feminino em Porto Alegre, depois de 83 dias exposta ao público sem comer. Nascida em 1930, Sandra faleceu em 2003, aos 73 anos.

As imagens foram gentilmente cedidas pelos pesquisadores Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, a partir do acervo mantido pela família, em especial a neta Andreia Athaydes.

Clique nas fotos para ampliar.

Acrobatas alemães agitam o centro de Caxias em 1957.

Caxias do Sul, 1958: Sandra jejua sobre a cama de pregos, sob os olhares curiosos de crianças e adultos. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

Jibóias eram parte do número e permaneciam dentro da urna com a faquiresa. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

Sandra e a serpente: prova de jejum em Caxias teria durado 35 dias. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

Sandra é retirada da urna após o período de jejum. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

Equipe auxilia Sandra a sair da urna de vidro, após o período de jejum em que ficou exposta ao público. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

Faquiresa recebe os primeiros socorros da equipe após o final da prova. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

A faquiresa ao final da prova em Caxias, em 1958. Foto: Studio Geremia, acervo de família, divulgação

O faquirismo

Faquirismo é a técnica de resistência consagrada pelos faquires. Graças a ela é possível controlar a respiração e os músculos.

Seus adeptos têm o poder de andar sobre brasas, deitar em camas de pregos, atravessar o corpo com longas agulhas, reduzir o batimento cardíaco ou até mesmo interrompê-lo aparentemente.

Sandra foi uma das maiores faquiresas do Brasil e teve uma longa e sólida carreira na arte do jejum, realizando inúmeras provas ao longo de dez anos. Foto: acervo de família, divulgação

A foto promocional da faquiresa Sandra, divulgada durante suas apresentações pelo país nos anos 1950. Foto: acervo de família, divulgação

A foto promocional da faquiresa Sandra, divulgada durante suas apresentações pelo país nos anos 1950. Foto: acervo de família, divulgação

Musas do submundo

Mesclando sensualidade e ousadia e desafiando a morte, as faquiresas foram figuras emblemáticas do submundo circense, com sua vasta lista de atrações exóticas. No Brasil, a primeira mulher a jejuar em público teria sido Rose Rogé, no Rio de Janeiro, em 1923.

A época de ouro, no entanto, foram os anos 1950, quando as apresentações passaram a ser turbinadas por colchões de pregos e cacos de vidro e pela inclusão de répteis peçonhentos nas urnas. Segundo justificativas da época, as cobras serviriam para purificar o ar, mas tudo não passava de mais um truque para atrair curiosos.

A trajetória das famosas faquiresas também foi pródiga em episódios policiais: uma teria se suicidado, outra sido assassinada pelo marido, uma terceira, presa e espancada – a elas foram relacionados ainda casos envolvendo troca de identidade, fugas do país e até rapto de crianças.

Mais trash, impossível…

Livro Cravo na Carne: Fama e Fome mapeia a trajetória de 11 faquiresas brasileiras atuantes entre os anos 1920 e 1960. Foto: reprodução/Pioneiro

Livro “Cravo na Carne: Fama e Fome” mapeia a trajetória de 11 faquiresas brasileiras atuantes entre os anos 1920 e 1960. Foto: reprodução/Editora Veneta

Em livro

A trajetória de Sandra e outras 10 mulheres praticantes da controversa técnica integram o livro Cravo na Carne: Fama e Fome – O Faquirismo Feminino no Brasil, dos autores Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, lançado em 2015 pela Editora Veneta.

Chocando a opinião pública com sua postura underground e fazendo o deleite das colunas sensacionalistas dos jornais, ícones como Verinha, Suzy King, Marciana, Otamires, Zaida, Yone e Rossana por vezes não chegavam ao fim das provas. Era quando quebravam as urnas a marteladas e fugiam ou sofriam crises, convulsões e desmaios, sendo retiradas às pressas do cárcere e levadas a hospitais.

A febre do faquirismo e suas nuances erótico-marginais perduraram até meados dos anos 1960, quando mudanças culturais e políticas acabaram por minar e condenar esse tipo de apresentação.

Para mais detalhes sobre faquirismo no Brasil, acesse o site www.cravonacarnefamaefome.blogspot.com.br.

Arte do autor e cenógrafo Alberto Camarero para a divulgação do livro. Foto: reprodução/Pioneiro

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