
foto Fernando Gomes
Um dos entrevistados por Meu Filho para a matéria que discute a situação em que uma criança deve se submeter a uma cirurgia (página central da edição de 2 de fevereiro do Meu Filho) é o médico José Carlos Fraga. Atualmente Chefe do Serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Fraga é professor de Cirurgia Pediátrica da Faculdade de Medicina da UFRGS, com mestrado e doutorado na mesma Universidade. Confira trechos da entrevista:
Meu Filho - Adultos e crianças reagem de maneira muito diversa à necessidade de passar por um procedimento cirúrgico?
José Carlos Fraga - A cirurgia é um procedimento estressante para qualquer faixa etária, tanto para adultos como para crianças, tanto que ela deve ser realizada na impossibilidade de realização de outro tipo de tratamento mais conservador. E a primeira coisa a reconhecer de quem trabalha com crianças é que elas também sentem dor, medo e insegurança, apesar de que muitas vezes elas não conseguem expressar estes sentimentos. Como o relacionamento com as crianças é realizado através de consulta com os pais, outra característica de nossa especialidade é de que devemos também ter um relacionamento franco com os pais da criança.
Meu Filho - Que tipo de procedimento adotas para comunicar ao paciente que ele terá de ser operado? Falas antes com os pais, para que eles preparem a criança?
Fraga - Dependendo da faixa etária e do discernimento da criança, a notícia da necessidade de cirurgia deve ser dada preferentemente para a própria criança, em uma linguagem simples e que ela possa entender. Nunca se deve mentir ou iludir a criança de que ela irá "passear" no hospital, mas sempre se dizer a verdade para ela. Os pais são extremamente importantes, pois eles darão o apoio emocional e realizarão os cuidados específicos após a cirurgia, e eles devem também entender bem a indicação da cirurgia, como ela será realizada, bem como os riscos e as complicações associadas ao procedimento realizado em seu filho. Após a consulta, os pais auxiliam a explicar posteriormente à criança detalhes da necessidade do a realização do procedimento cirúrgico. A presença dos pais antes e no momento da realização da anestesia é muito importante para a criança não se sentir abandonada, e eles devem estar presentes na indução anestésica, até a criança dormir, e logo após a cirurgia quando a crianças chegar na sala de recuperação.
Meu Filho - No caso de pacientes crianças, o médico deve omitir detalhes, simplificar os diagnósticos?
Fraga - O cirurgião nunca deve esconder nada da criança, e especialmente nunca deve mentir para ela. Claro que as informações dadas dependem do discernimento da criança, e elas devem ser fornecidas de acordo com o interesse e dúvidas da criança. É muito útil para as crianças maiores a realização de desenho para mostrar o porque da cirurgia, bem como para explicar que ela irá dormir durante o procedimento cirúrgico e, portanto, não sentirá dor, que após o procedimento ela irá acordar na presença dos pais, com um soro pingando em uma veia puncionada quando ela estiver dormindo (não sentirá dor), e que será usado remédio no momento da cirurgia e após a cirurgia para evitar que ela sinta dor. Atualmente temos a maior preocupação com a analgesia, tanto que se realiza, além da anestesia geral, anestesia no local do corte, a fim de reduzir a quantidade necessária de anestésico durante a cirurgia, e garantir analgesia no pós-operatório imediato antes que a medicação ingerida por via oral faça efeito.
Meu Filho - Se fosse para dar conselhos para os pais que têm filhos que serão operados, quais seriam?
Fraga -
1) Escolher profissional médico que confiem plenamente;
2) Explicar (de acordo com a faixa etária da criança) o porquê da cirurgia, e como a mesma será realizada;
3) Para as crianças maiores, os procedimentos cirúrgicos eletivos devem ser realizados preferentemente após o consentimento da criança. Se houver dificuldades, a crianças deve ser avaliada por um profissional da área emocional;
4) Não mentir nunca, e dar as informações de acordo com as indagações e dúvidas da criança;
5) Os pais (ou um deles) devem estar presentes no momento da indução anestésica e logo após a criança acordar na sala de recuperação.
Postado por Renato Mendonça
Comentários