Enjoo, desejos. Juro, sempre pensei ser coisa de grávida “fresca” ou de personagem de novela, cinema. Mas dou a mão à palmatória e confesso estar percebendo que a realidade é muito mais complexa que isso.
Tá certo, desejo ainda não tive, acho que não estou no patamar das “embaraçadas chiques”, mas as sensações desagradáveis vão muito além do enjoo, passam por azia, cólicas, dor nas costas, nos seios, inquietações psicológicas...
Por outro lado, parece que não é apenas o abdômen que cresce... a grávida adquire proporções gigantescas em vários aspectos. Nunca minha opinião, por mais furada que seja, foi tão respeitada. A preocupação com o meu bem-estar em casa também é surpreendente... Às vezes, chegando ao nível altíssimo, ou melhor, quase insuportável. Tenho notado que quando a palavra “gestante” é falada, as pessoas mudam... Tem aqueles que se levantam para ceder a cadeira, outros fazem questão de dar passagem na fila. A minha primeira experiência racionalmente direcionada no sentido de aproveitar a minha “condição” não foi tão bem-sucedida assim.
Entro num supermercado lotado na sexta-feira à tardinha já com aquela “intençãozinha”. Em 30 minutos pelos corredores, encho o carrinho. Dirijo-me em direção ao caixa, avisto filas, a do caixa rápido com pelo menos 50 pessoas, a dos outros caixas com uma média de oito pessoas. Procuro a placa “atendimento preferencial gestantes, idosos etc”. Apenas um senhor aguarda na fila “preferencial”, coloco a barriga pra frente (por enquanto é só gordura, mas afinal tenho o exame na bolsa para futuros questionamentos) e olho prazerosamente em direção à moça que atende. Fico um tempo esperando e só aí noto... A bobina acabou, e a atendente aguarda um colega para fazer a troca. Penso: “não vai demorar muito”. Aguardo por não sei quanto tempo e cabisbaixa acabo desistindo e encarando a fila do caixa ao lado. Na saída, avistei de longe o paciencioso velhinho pagando a conta no caixa “preferencial”.
Acho que meu pai tem razão. Ele sempre fala que é preciso paciência para recorrer ao atendimento num caixa “preferencial”, porque o tempo é sempre relativo. O cliente, a máquina e o atendente normalmente fazem parte de um grupo cada vez mais seleto de pessoas: “os sem-pressa”.
Acabei relacionando a minha “condição” e o desejo constante de ver tudo acontecer rapidamente... a barriga crescer, o “girininho” se manifestar, o tempo passar... No fim da conta, ou melhor, após pagar a conta no supermercado, percebi que é preciso ter calma, não adianta ter pressa. A natureza é sábia... Tudo a seu tempo.
Postado por Ticiana Fontana








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