
Aproveitando a matéria de hoje publicada no caderno Meu Filho, reproduzimos aqui a entrevista que fizemos com a psicóloga Caroline Rubin Rossato Pereira, pesquisadora do Estudo Longitudinal sobre o Impacto do Nascimento do Segundo Filho na Dinâmica Familiar e no Desenvolvimento Emocional do Primogênito (NUDIF-UFRGS). Leia, aprenda.
Se quiser, envie um relato pra gente sobre sua experiência. O e-mail pode conter uma foto também. Publicaremos as histórias no nosso blog.
Nosso endereço é meufilho@zerohora.com.br
Pergunta - Como os pais podem lidar com a chegada de um novo filho? Como explicar para as crianças?
Caroline Rubin Rossato Pereira - Os pais devem explicar para os filhos conforme suas capacidades de compreensão. Alguns pais adiam o momento de contar para criança sobre a gestação do irmãozinho, por temer magoá-lo.
Contudo, os pais devem ficar tranquilos sobre suas decisões e passar esta segurança para o filho. Assim como o irmão inevitavelmente fará que o filho mais velho tenha de abrir mão de alguns espaços que até então eram exclusivos seus, também trará a possibilidade de um convívio cheio de aprendizados, companheirismo e alegrias.
Com crianças pequenas, os pais devem evitar super valorizar o papel do filho mais velho como aquele que vai cuidar do irmão, pois gera uma expectativa irrealísticas além de suas competências. Pareceria mais realístico dizer à criança que elas poderão ajudar um pouco os pais, ver o que os pais fazem, e aprender.
Os pais podem estimular o filho mais velho a compartilhar uma pequena responsabilidade sobre o bebê, sem forçá-lo ou colocar sobre ele tarefas dos adultos. Também se deve cuidar para não criar uma expectativa de que o irmão será um grande amigo de brincadeira e diversão, o que não vai se concretizar de início, ao menos no primeiro ano de vida.
Pergunta - Nesta fase é comum a criança ter comportamentos regressivos, como voltar a tomar mamadeira ou fazer xixi na cama?
Caroline Rubin Rossato Pereira - Sabe-se que toda mudança, mesmo que cheia de alegrias, gera ansiedade e tensão, pois coloca a criança frente a uma situação desconhecida. A criança precisará dividir a atenção dos pais, o tempo, o espaço da casa, seus objetos e brinquedos, a atenção dos familiares, entre outras.
Dentro deste contexto, é natural que a criança sinta-se mais ansiosa e preocupada, o que pode ser demonstrado de diversas maneiras, como voltar a fazer xixi na cama, ficar mais agressivo na escola ou com os familiares, não querer se afastar dos pais (ficar mais "agarrado"), falar como bebê, querer usar novamente a mamadeira ou a chupeta. Os pais devem ser tolerantes com a criança neste período de maior estresse para ela. Essas alterações de comportamento são transitórias, e, caso não haja uma supervalorização dessas atitudes por parte dos pais, tais comportamentos tendem a ser abandonados gradativamente pela criança.
Destaca-se que todas estas manifestações são acompanhadas paralelamente por demonstrações de carinho e alegria pela chegada do irmãozinho. Para que a criança possa expressar livremente seu amor e afeto pelo irmão, precisa ter espaço para também demonstrar desgosto e insatisfação.
Pergunta - Existe uma idade ideal para a criança ter um novo irmão?
Caroline Rubin Rossato Pereira - Não existe uma idade ideal para se ter um novo irmão. Cada idade traz seus desafios particulares. O que se sabe é que crianças por volta dos dois e os seis anos de idade manifestam mais claramente sua ansiedade neste período.
Isso se deve ao fato de terem maior capacidade de compreensão e de comunicação do que crianças menores para perceber que a chegada de um irmão poderá interferir nos cuidados que recebe dos pais e no seu dia-a-dia. Além disso, nessa faixa-etária, diferente das crianças mais velhas, as crianças ainda são bastante dependentes emocionalmente e precisam dos pais para muitas atividades do seu cotidiano.
As crianças bem pequenas, por sua vez, não demonstram sentir tão intensamente a chegada do irmão, pois ainda não são capazes de compreender o impacto disso em sua vida familiar. Nestes casos, pode ser mais fácil para os pais lidar com o filho mais velho, que não apresentará tantas reações de descontentamento com a chegada do irmão.
Por outro lado, é um grande desafio para as famílias cuidar de duas crianças pequenas. Esta é uma etapa da vida em que as crianças exigem muita atenção, cuidados e tempo livre dos pais. É o que se chama da "fase da panela de pressão". Pode ser um momento de muitas alegrias e aprendizados em família, desde que os pais se apóiem mutuamente nesta tarefa, contando com uma rede de familiares, amigos e profissionais como auxílio.
Pergunta - Quais as reações mais comuns das crianças que recebem um novo irmão?
Caroline Rubin Rossato Pereira - Paralelamente a demonstrações de alegria e carinho pelo irmão, são comuns nos primeiros meses após a chegada do bebê manifestações de ciúmes por parte filho mais velho. Algumas crianças vivenciam esse momento com grande tranqüilidade e esse período acaba sendo um propulsor para seu crescimento e amadurecimento. Contudo, se espera que a criança apresente momentos de raiva e ciúmes também. A este respeito, quanto mais a criança for compreendida e puder demonstrar sua ambivalência, mais condições terá para controlar os sentimentos hostis que acompanham o carinho e a alegria pela chegada do novo irmão.
Embora os cuidados com o novo bebê exijam muito da energia e tempo dos pais, é importante para o filho mais velho ter momentos especiais os pais também. Lembre-se de reservar um tempinho para se dedicar ao filho mais velho. Fazer algumas atividades a sós com ele, sem o bebê, o ajudará a sentir-se importante e a perceber que continua ocupando um lugar especial na vida dos pais.







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