A Valquíria, uma das três filhas da Tânia Ortiz, que contou sua emocionante história aqui no blog na última segunda-feira, também atendeu a um pedido meu para escrever. Quem já se emocionou com o relato a mãe vai entender um pouco mais por que a família Ortiz, de Pelotas, é tão unida. Confira o que nos conta a Valquíria:
Meu nome é Valquíria, tenho 21 anos. Minha mãe descobriu que eu era surda quando tinha 3 anos. Não escuto nada no ouvido direito, em compensação, escuto com auxílio de aparelho auditivo no esquerdo.
A maior parte das minhas lembranças são de um pouquinho mais tarde. Lembro de tentar usar o aparelho auditivo, mas rejeitava porque não escutava nada (pois o médico recomendou que colocasse no ouvido direito). Aos 6 anos, minha mãe teve a ideia de testar o aparelho no ouvido esquerdo. Foi quando realmente eu comecei a escutar.
As limitações
Pra mim, não havia nada de muito estranho. Aquele sempre fora o meu mundo, com algumas diferenças de uma criança "normal": não podia correr, por causa do risco do aparelho cair, não podia ficar de cabelo molhado, pois o aparelho não era à prova d'água (o que era uma constante briga entre eu e minha mãe, pois eu tinha um cabelão), assistia pouquíssimo à televisão (já que na época não havia o closed caption), meu desenho preferido era Tom & Jerry, (pois eles não falavam). Sempre li muito, gibis e livros, e mais tarde, programas legendados.
As amizades
Dos 3 anos aos 12 anos, dançava no CTG, onde fiz amigas que perduram até hoje, apesar do pouco contato. Nunca tive muitos problemas, pois me aceitavam com naturalidade, pois eu sempre agi assim. Também frequentei por muitos anos as piscinas de clube, onde fiz vários amigos, mesmo não podendo usar aparelho, eu os entendia, pois me utilizava da leitura labial. O engraçado é que alguns dos meus amigos eu nunca escutei a voz, pois eu fazia amigos diferentes a cada temporada, e eu não saí nunca da água.
Na escola
Apesar do amplo apoio da direção da escola, passei por alguns percalços. No pré, minha professora me deixava de lado, ao ponto de chegar no final do ano, e ter de repetir novamente, por escolha da minha mãe. Na 3ª série, tive uma professora que implicava comigo, mas nunca dei motivo para que ela se queixasse de mim. O modo dela de se "vingar" era me dando um 9,9. Somente no último bimestre, ela me deu um 10. Na quinta, novamente tive problemas com outra professora. Ela tinha o costume de ditar a matéria, o que tornava as coisas difíceis para mim. A minha solução era virar de lado na cadeira e acompanhar a minha amiga, que sentava atrás de mim. Conforme ela ia escrevendo, eu copiava. A professora passou a não permitir, querendo que eu acompanhasse o ditado. Me queixei para a minha mãe, que foi conversar com ela. Ela alegou que eu queria privilégios, mas que eu deveria ser tratada igualmente, já que escutava.
Esqueceram de mim
À medida que fui ficando mais velha, fui aprendendo a me defender sozinha. Às vezes, acontecia dos próprios professores se esquecerem da minha condição, como quando uma vez fui fazer uma prova de espanhol, e havia uma parte que consistia em escutar uma música e ir preenchendo as lacunas. Pra mim, já era um pouco difícil entender corretamente em português, quanto mais em espanhol. Lembrei a professora, que pediu que ao menos eu "tentasse", o que só me deixou mais frustrada ainda, de modo que não fiz nada, somente a parte escrita. Por fim, ela teve que avaliar a minha prova somente pela parte escrita.
Um outro episódio ocorreu em sala de aula, quando a professora queria se fazer ouvir, e estava uma bagunça, até que ela perdeu a paciência e gritou: "Vocês são surdos?" Eu deixei passar, porque era mais uma força de expressão, mas um amigo, não. Discutiu com ela, pois aquilo não era coisa que se dissesse, pois eu estava presente, o que quase resultou na expulsão dele da sala.
Nada é por acaso
Mas o mais significativo aconteceu no primeiro ano do Ensino Médio, entrou um colega novo que era insuportável, pois incomodava a todos, alunos e professores. Era incorrigível. Até que ele resolveu me perseguir, me incomodando de várias maneiras, como gritar no meu ouvido, ou fingir que não falava para que eu não entendesse. Isso sempre acontecia na aula de uma professora em particular, pois ela só mandava parar, mas nunca o tirou de sala, nem reportou a direção. Até que um dia, na aula dela, ele achou que seria engraçado atirar pedacinhos de borracha no meu aparelho. Me queixei à professora, que nada fez. Como já era a quarta aula consecutiva que me incomodavam, saí da sala chorando de furiosa e fui embora. Cheguei em casa e comuniquei minha mãe que não voltaria ao colégio, contando o episódio mais recente, fora os outros que ela sabia. Na mesma tarde, uma outra professora ligou para minha casa, indagando o motivo de ter saído chorando da escola. Contei o ocorrido, e depois de falar com a minha mãe ao telefone, junto com a direção, prontamente resolveram tomar uma atitude, convocando uma reunião de professores, contaram o ocorrido e resolveram comunicar à família e ao aluno. Se acaso ocorresse novamente algum tipo de perseguição, seria sumariamente expulso e processado pelo colégio.
O pai dele era um advogado bem conhecido na cidade, só teve que acatar. Uma semana depois, ele veio e pediu desculpas. Aceitei, mas nunca mais falei com ele, até que, dois anos depois, ele veio conversar comigo, pois havia a possibilidade de ficar surdo, pois seu tímpano havia perfurado. Foi o que nos tornou amigos.
Muitos micos - e risos
Apesar de algumas dificuldades, também paguei vários micos, por entender errado. Por muitos anos cantei uma música do Rappa, "A minha alma", com uma palavra trocada. O trecho é esse:
"A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!"
Eu trocava o "sossego" por "morcego". Eu estava cantando, minha irmã mais velha ouviu, e depois de muito rir, me corrigiu. Outra que aconteceu (e o pior que foi no mesmo dia do morcego!) foi que a minha irmã mais nova estava brincando no quarto, e diz pra mim:
- Ninguém encara um ninja e sobrevive!
E eu respondo:
- Depende do carro!
Ela ficou me olhando com uma cara, até que esclarecemos: eu havia entendido que ela havia dito: "Ninguém em carro ninja sobrevive!" O que resultou em mais risadas.
Decepção na faculdade
Com 19 anos, passei para a faculdade. A minha paixão por livros fez com que eu considerasse em fazer faculdade de Biblioteconomia, embora o meu sonho fosse fazer Direito. O primeiro ano foi um pouco difícil, pois cursava 13 cadeiras, todas elas teóricas, e metade dos professores ditava, embora tenha feito questão de esclarecer a cada professor a minha objeção ao ditado. Nem todos foram compreensivos, o que me restava adotar o antigo método de copiar da colega ao lado.
Um fato que me indignou na época, e até hoje me indigna quando relembro, foi no primeiro ano, eu estava assistindo uma aula com uma professora formada em psicologia, e ela abordou a questão da deficiência em sala de aula. Tudo corria bem, até o momento que ela declarou:
- Os deficientes seguem uma vida relativamente normal, e até namoram!
Na mesma hora, a turma inteira me olhou, pois sabiam da minha história, e ela também. Meu sangue ferveu e discuti com a professora, em vista da declaração dela. Mesmo assim, ela não teve humildade suficiente para se retificar. Foi a minha maior decepção com o ambiente acadêmico.
Namoradeira assumida
Quando eu era mais nova, sempre pensava que não namoraria, pois achava que os meninos não iriam querer namorar comigo por causa do aparelho. No fim das contas, foi bem ao contrário. Fui bem namoradeira, tive namorados ótimos. O início do meu primeiro namoro foi engraçado, porque nós não nos entendíamos. Com o tempo nos adaptamos, como sempre foi. Eles se adaptavam a mim, e eu a eles.
Hoje estou namorando há três anos, juntos há quatro, no último ano de faculdade, enlouquecendo com TCC e sonhando com a formatura.
Muitos me peguntam que, se existisse a possibilidade de fazer uma cirurgia, se eu faria. Eu respondo que não, pois não sei se melhoraria ou pioraria. Apesar das dificuldades, minha qualidade de vida é muito boa.
O sonho de ouvir o mar
Sim, tenho o sonho de poder mergulhar no mar e escutar o barulho das ondas, ou tomar banho de chuveiro e escutar a água caindo, ou não ter que me preocupar a cada vez que chove e estou na rua, mas são coisas tão pequenas. Tem gente que sofre muito mais. Além do que, o mundo pode estar desabando, mas eu ainda posso tirar o aparelho e dormir feito pedra.
Além disso, eu sempre digo que eu sou o que sou por causa da minha deficiência. Tenho plena consciência de que poderia ser uma pessoa "normal" e ruim. Isso mantém a minha humildade, e faz com que eu lute muito mais, sabendo que há outros por aí que não tem força, voz e vez.
Histórias, tenho aos montes, micos, mais ainda, mas também tenho força de vontade e persistência. Para alguns parece que é acomodação minha, mas não é.
Eu me aceito como sou, faço o que posso, e o que não posso, uso a criatividade; e quando realmente não tem jeito, eu simplesmente aceito. Afinal, até os ditos "normais" não fazem tudo...
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