A pedido do blog, Maria Luiza Leal Pacheco, psicóloga, especialista em Psicologia Clínica( UFRGS), mestranda em Psicologia Clínica (PUCRS) e professora universitária comenta sobre o caso do menino "motorista" de 12 anos que pegou a caminhonete da família, enquanto os pais estavam viajando, e acabou causando um acidente envolvendo seis veículos, em Santa Maria, na última terça-feira. Confira que dica ela dá a esses pais e como outros, que passam por situações parecidas, devem agir.
Na Psicologia, primeiramente quando acontecem situações genéricas como a que ocorreu com o menino de 12 anos que pegou o carro dos pais, criamos hipóteses, pois não temos como dar uma "receita" ou até mesmo falar dessa situação específica.
Não temos dados, não conhecemos a família e nem o menino, mas, mesmo assim, podemos encontrar caminhos que possam orientar outras famílias que podem vir a vivenciar situações parecidas com a que ocorreu na última terça-feira, em Santa Maria.
Como dito anteriormente, entende-se na Psicologia que, quando acontece uma situação atípica, pequenos ou grandes delitos, significa que há "recados" para alguém, ou seja, trata-se de um sintoma que tem a função de um sinalizador de que algo não está bem.
Pode-se pensar que o menino queria dizer algo a esses pais. Talvez mostrar a eles a falta de atenção em determinadas questões, uma falta de olhar, de cuidado. A situação que o menino vivenciou foi a mesma que meninos da idade dele vivenciam nos jogos eletrônicos, só que, nesse caso, o prazer é maior, pois é real, um real que é inatingível em situações de video game.
O mundo virtual que se faz real ou o real que se faz virtual? Nessas situações, pode-se pensar que, em casos de vida intensa no mundo virtual, há um empobrecimento das relações reais - família, escola, amigos, enfim, todas as possíveis relações consideradas saudáveis para todos os sujeitos, as relações de trocas e investimento que são constituintes para sujeitos saudáveis.
Podemos pensar que pré-adolescentes muito tímidos, que não conseguem extravasar suas emoções, criam estratégias para tal. E isso geralmente acontece em casos em que a repressão familiar é muito intensa ou a falta limites é substancial.
Nas famílias, geralmente falta o olhar, o olhar para além dos cuidados básicos. Falta o investimento no filho, pois as crianças e adolescentes, em muitos casos, ficam sem referência e, quando isso acontece, eles vão buscar no externo uma forma de contenção.
Nesses casos, a intervenção da polícia é um pedido inconsciente dessas crianças ou adolescentes para serem olhados e orientados.
Não podemos pensar na polícia em uma única direção, a da punição. Na verdade, a polícia tem uma função social, de dar limite, estabelecer ordens e regras, dizer o que se pode e o que não se pode fazer. Mas, infelizmente, quando os casos chegam para a polícia, há uma dor maior da família, pois a mesma entende que existe um tipo de falência de seu poder, e que, em alguma instância, houve falhas. E isso é em relação a qualquer situação em que a intervenção da polícia é prioritária, como nos casos das drogas, furtos, roubos, roubos patológicos, que chamamos de cleptomania( que é um roubo sem fins comerciais). A contravenção, de modo geral, para quem pratica dá prazer, e o prazer sinaliza o desprazer, a falta de algo. E nesse sentido, a pessoa que comete delitos busca nesse objeto idealizado uma forma de preencher o vazio subjetivo.
Diante disso, os pais precisam ficar atentos para saber quem são seus filhos, e qual a melhor forma de se sentir próximos a eles, sem ser igual a eles. A relação não é de igual para igual, se fosse, seriam irmãos. Mas são pais, pais que escutam, que dão bronca e dizem o que é certo e o que é errado, ou seja, dão uma referência, pois, sem esse investimento, não há lugar para esse jovem e, não havendo lugar, ele busca estratégias para encontrar um lugar... E esse lugar pode ser o da contravenção.
Por Maria Luiza Leal Pacheco, psicóloga, especialista em Psicologia Clínica ( UFRGS), mestranda em Psicologia Clínica (PUCRS) e professora universitária
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