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Só mãe salva

19 de janeiro de 2012 14



Sou fã do Fabrício Carpinejar há muito tempo e fiquei bem faceira em saber que ele está cada vez mais presente no nosso dia a dia. Ontem ele escreveu uma crônica que especialmente me tocou. Vou reproduzir abaixo e recomendo a leitura.

...

Leu?

O recado que o Fabrício nos dá por meio da sua história pessoal com certeza você já viu, ou quem sabe, até viveu. Rotular uma criança prematuramente é grave e isso ocorre geralmente na fase de alfabetização, quando é feita uma avaliação para saber se o pobrezinho está apto para passar para primeira série e aprender a ler e a escrever. Se por algum motivo eles acham que a cria não está apta, ela não segue adiante, pois vai ficar boiando na aula enquanto os outros avançam.

O grande problema é que nem sempre esse "estar apto" é a VERDADE sobre essa criança, o que em outras palavras, significa gerar uma ideia errada do sujeito, rótulo que poderá prejudicá-lo pelo resto da vida. Por exemplo: a criança pode estar sofrendo bullying na própria escola, o que vai prejuducar o seu desenvolvimento, e o problema neste caso é o bullying, não a capacidade cognitiva da criança. Se o bullying tiver fim, ela voltará a ser "normal", mas até aí poderá já ter repetido de ano.

Por isso, não "engula" o que escola diz sem antes investigar muito o problema, junto a psicólogos, neurologistas, etc, e, caso haja algum problema, faça como a Maria Capri. Nunca, mas nunca duvide do potencial do seu filho. Caso contrário, você poderá se surpreender.


Retardado aos oito anos*

Fabrício Carpinejar

Mãe é exagerada. Sempre romantiza a infância do filho. A minha, Maria Carpi, dizia que eu fui um milagre, que enfrentei sérias rejeições, que não conseguia ler e escrever, que a professora recomendou que desistisse de me alfabetizar e que me colocasse numa escola especial. Eu permitia que contasse essa triste novela, dava os devidos descontos melodramáticos, entendia como licença poética. Até que mexi na estante do escritório materno em busca do meu histórico escolar. E achei um laudo, de 10 de julho de 1980, assinado por famoso neurologista e endereçado para a fonoaudióloga Zulmira. “O Fabrício tem tido progressos sensíveis, embora seja com retardo psicomotor, conforme o exame em anexo. A fala, melhorando, não atingiu ainda a maturidade de cinco anos. Existe ainda hipotonia importante. Os reflexos são simétricos. Todo o quadro neurológico deriva de disfunção cerebral.”Caí para trás. O médico informou que eu era retardado, deficiente, não fazia jus à mentalidade de oito anos. Recomendou tratamento, remédios e isolamento, já que não acompanharia colegas da faixa etária. Fico reconstituindo a dor dela ao abrir a carta e tentar decifrar aquela letra ilegível,espinhosa, fria do diagnóstico. Aquela sentença de que seu menino loiro, de cabeça grande, olhos baixos e orelhas viradas não teria futuro, talvez nem presente. Deve ter amassado o texto no bolso, relido sem parar num cantinho do quintal, longe da curiosidade dos irmãos. Mas não sentiu pena de mim, ou de si, foi tomada de coragem que é a confiança, da rapidez que é o aperto do coração. Rejeitou qualquer medicamento que consumasse a deficiência, qualquer internação que confirmasse o veredito. Poderia ter sido considerada negligente na época, mas preferiu minha caligrafia imperfeita aos riscos definitivos do eletroencefalograma. Enfrentou a opinião de especialistas, não vendeu a alma a prazo. Ela me manteve no convívio escolar, criou jogos para me divertir com as palavras e dedicou suas tardes a aperfeiçoar minha dicção (lembro que me fazia ler Dom Quixote, e minha boca andava apoiada no corrimão dos desenhos). Em vez de culpar o destino, me amou mais. Na vida, a gente somente depende de alguém que confie na gente, que não desista da gente. Uma âncora, um apoio, um ferrolho, um colo. Se hoje sou escritor e escrevo aqui, existe uma única responsável: Maria Carpi, a Mariazinha de Guaporé, que transformou sua teimosia em esperança. E juro que não estou exagerando.

Comentários (14)

  • Karen diz: 19 de janeiro de 2012

    Sem palavras. Só posso dizer que amei!

  • Lore diz: 19 de janeiro de 2012

    Lívia, dá uma olhada no site da Dulce Ribeiro,(biblioteca) a palestra de Ken Robinson sobre uma menina que a escola rotulou como impossível de aprender e hoje é uma grande coreógrafa da Broadway. http://www.dulceribeiro.com.br/biblioteca/

    Só porque uma pessoa não se encaixa num padrão pré-determinado ou alguma pessoa é incapaz de compreende-lo não quer dizer que seja totalmente incapaz. Felizmente parece que hoje o sistema de ensino está mudando e aprendendo a assimilar personalidades diferentes.

  • Juliana diz: 19 de janeiro de 2012

    Sou fãaazona do Carpinejar! Leio sempre o blog dele, a-d-o-r-o! Sempre o admirei pela sua inteligência, pela sua delicada percepção sobre a vida, por sua linda e tocante maneira de se expressa. ele começou a fazer parte de um "quadro" na Rádio Gaúcha, e escutei ele falar sobre o assunto acima. Logo ele escreveu no blog! Que exemplo não é? Uma criança que o médico constata que tem retardo mental se torna um cara tão inteligente, sensível e extraordinário!!! Magnífico! Grande Mãe, dona Mari Carpi, que acreditou em seu filho! Que deu amor e transformou seu garotinho nesse homem show!Carpinejar, te admiro horrores!

  • Adriana diz: 19 de janeiro de 2012

    emocionante! sem palavras para explicar a sensibilidade do Carpinejar. AMOO!

  • Carla mãe da Bruna diz: 19 de janeiro de 2012

    Nossa! emocionante o relato e foi de uma sensibilidade essa mãe.... uma mulher tão incrível só podia ter um filho tão maravilhoso... parabéns dona Maria!!! que todas nós possamos nos guiar mais pelo coração e não tanto pela opinião alheia...

  • Élida R.C de Moura diz: 20 de janeiro de 2012

    A-do-rei!! Me emocionei muito. Eu sempre afirmei que o amor opera grande milagres. A sua superação é uma prova. Parabéns para sua mãe que soube demonstrar amor e dedicação suficiente para materializar a cura, realizando o milagre.

  • Daniela Cioccari diz: 20 de janeiro de 2012

    Só o amor salva! Linda esta historia.

  • Juliana diz: 22 de janeiro de 2012

    AMEI!!! Me emocionei com a história!!!
    Bjs

  • Andrea, mãe do Pietro e da Sofia diz: 23 de janeiro de 2012

    Acho que é o amor de mãe que nega qualquer rotulação, e ela vai no fundo d'alma para conseguir que seu pequeno tesouro não sofra e que aprenda tudo o que a vida deve ensinar. Meu Pietro, no início da terapia ouvi da psicóloga que acha que ele tinha deficit de atenção, sinceramente, no momento fiquei furiosa, como ela podia me dizer isso? Na primeira avaliação do colégio (ele estava na ACM) do jardim B recebi uma ótima avaliação dele e nada, nem uma linha que falasse sobre isso. Claro levei orgulhosa para a psicóloga e acabei com a terapia. Não existe melhor terapia que o maor da mãe, sua presença e seu carinho.

  • O texto que emocionou | Meu Filho diz: 30 de janeiro de 2012

    [...] Se você ainda não leu a coluna do Fabrício, pode conferir neste post da Lívia. [...]

  • mara narciso diz: 30 de janeiro de 2012

    Sou professora e fiquei emocionada com o texto do Carpinejar.Nós,professores,precisamos de MARIAZINHAS DE GUAPORÉ que nos ajudem a resgatar crianças rotuladas pel escola,família e sociedde.Parabéns!

  • Andrea Maganha diz: 31 de janeiro de 2012

    Simplesmente LINDO ... me emocionei!

  • Adriana diz: 6 de fevereiro de 2012

    Realmente muito lindo... Sensibiliza e nos faz refletir...

  • Eduardo pai de Fabio diz: 16 de abril de 2012

    Me emociono também com a historia de vida do Carpinejar, pois vivencio a mesma historia com o Fabio. Por vezes fico incrédulo nos diagnósticos médicos que apenas o rotulam como uma criança desatenta e fora do padrão. Mas acredito que com calma e dedicação ele conseguirá desenvolver todo o seu potencial.

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