Compartilho com as amigas a reportagem que fiz e foi publicada no último fim de semana no Diário de Santa Maria. E já vou avisando. Antes de ler, busque o lencinho, porque a história é para lá de emocionante.
As lições de Joãozinho
Um anúncio na edição do Diário de Santa Maria de 21 e 22 de janeiro chamou a atenção de muitos leitores. Ele trazia uma homenagem cheia de emoção a João Auri Matzembacher dos Santos, 9 anos, que morreu no dia 16 de janeiro, depois de lutar três anos e meio contra um câncer. O Diário foi atrás da história desse pequeno guerreiro e voltou para a Redação com uma lição e tanto para compartilhar com seus leitores. Como o Joãozinho era um menino alegre, otimista e muito feliz, mesmo diante das dores e dificuldades, vamos contar sua trajetória de luta em forma de uma historinha infantil.

Era uma vez Joãozinho...
Era para serem três irmãozinhos a alegrar as vidas da mana Gabi e dos pais, Dionez e Tatiana. Mas, no sexto mês de gestação, a mãe dos trigêmeos recebeu a notícia da enfermeira:
_ Tenho uma notícia boa e outra ruim para a mãezinha. A boa é que dois fetos estão muito bem. Mas o coraçãozinho do terceiro não resistiu e parou...
Os dois coraçõezinhos que batiam fortes e saudáveis nasceram prematuros, e seus donos receberam os nomes de Guilherme e João Auri _ o dono do que parou se chamaria Lucas.
Guilherme e Joãozinho chegaram no dia 25 de março de 2002, para trazer muitas alegrias para a mamãe Tatiana e o papai Dionez. Joãozinho era um pouco mais frágil que o mano Gui. Apresentou, logo após o nascimento, uma pequena lesão no pé, logo consertada pelas mãos de um competente médico. Mais adiante, algumas crises de bronquite asmática o pegaram de jeito, mas ele resistia a todas, sempre alegre, otimista e feliz.
Joãozinho não costumava reclamar da vida. Até que apareceram fortes dores na barriga, que os médicos acreditavam ser o resultado de "alguma porcaria" que ele havia comido. Mas, não. Elas eram sinal de um câncer chamado neuroblastoma, que atinge apenas 7% do total das crianças que têm câncer.
_ Dos casos de câncer que atingem as crianças, 80% são de leucemia _ contava o médico para a mãe, atenta a todas as explicações no início da jornada de luta que se iniciava.
A doença obrigou a família a se mudar, da noite para o dia, de Santa Rosa, no noroeste do Estado, para Santa Maria, onde seria realizado todo o tratamento do Joãozinho, que, na época, tinha apenas 6 anos e estava ansioso para aprender as primeiras letrinhas no 1º ano.
A bateria de exames confirmava que o câncer de Joãozinho já estava no estágio mais avançado. As quimioterapias logo começaram _ 21 dias em casa e cinco ou sete no hospital. Mas havia esperanças de cura, confirmadas após uma cirurgia que conseguiu extrair o tumor.
A vida da família parecia voltar ao normal. Em 2009, o pequeno, que foi alfabetizado em casa pela mãe, que é professora, retornou à escola e ao convívio com os coleguinhas.
A doença voltou
Mas a história que parecia se encaminhar para um final feliz teve nova reviravolta. E o recomeço seria, novamente, cheio de dor.
Em 25 de março de 2010, quando os gêmeos faziam 8 anos, as dores na barriga voltaram. E a doença voltou com tamanha violência que não permitia mais cirurgia ou qualquer outra coisa que pudesse devolver as esperanças para a família. Ao Joãozinho, restava a quimioterapia, que não iria lhe dar a cura, mas garantiria sua qualidade de vida.
Mas não pensem que o Joãozinho se entregou. Quando o resto de saúde permitia, ele jogava bola e podia ser visto correndo pela pracinha na frente de casa.
O hospital passou a ser sua casa constante. E enganou-se quem pensou que era uma briga levá-lo até lá.
_ O que são cinco dias, pai, vamos lá? Vai ser divertido.
E ele chegava na unidade 800 do Hospital de Caridade como se ali fosse um hotel, ou melhor até, uma colônia de férias. Absolutamente ninguém escapava ao encanto e à simpatia do guri. Do porteiro ao médico, todos adoravam conversar com o Joãozinho.
_ Quando eu crescer, acho que vou ser vereador, né, mãe?
Alegria de estar em casa
E quando ele voltava para casa, era uma alegria, como a de um menino que ganhava o brinquedo dos sonhos:
_ Eu amo minha casinha. Que bom poder ter minha caminha de volta...
De noite, quando pai, mãe e manos já dormiam, após a prece em família, Joãozinho passava, de quarto em quarto, para desejar boa-noite.
_ Eu te amo, pai. Eu te amo, mãe _ e um beijo amoroso selava a despedida. Depois, ele ia até o quarto da mana Gabi e fazia o mesmo:
_ Gabi, eu te amo. Boa-noite.
Mas uma coisa intrigava a mãe, que não entendia por que aquela cena não se repetia quando Joãozinho chegava no quarto que dividia com o mano Gui.
_ Joãozinho, por que tu não diz pro Mano que tu ama ele também?
_ Ah, mãe, é pra ele não me chamar de "boiola". Depois que ele dorme, eu chego bem quietinho perto dele e digo: Gui, eu te amo.
E era a mais pura verdade. Dia desses, a mãe flagrou o pequeno declarando seu amor ao gêmeo.
Chegou o dia em que a quimioterapia não adiantava mais, e eram os fortes medicamentos contra as dores lancinantes que maltratavam o guri. Nos últimos dias, o sofrimento de Joãozinho era tamanho que, para aliviá-lo, ele recebeu na veia uma dose de medicação 60 vezes mais forte do que a que costumava receber. A mesma dada para uma pessoa de 150 quilos _ e a ele, só restavam 20 num corpo franzino e frágil. Corpinho que sequer permitia que ele conseguisse se virar na cama sozinho.
O coraçãozinho não resistiria. E, de fato, foi o que aconteceu no dia 16 de janeiro de 2012, quando Joãozinho deu seu último suspiro.
_ Ele nunca reclamava de nada e nos dava força para enfrentarmos a maratona. Passamos a encarar a vida de uma forma diferente. A dar ainda mais valor à família, a não reclamar tanto de tanta coisa. A se desapegar dos bens materiais, a aproveitar cada pôr do sol e amanhecer _ diz o pai.
_ Todos os dias, nós agradecemos a Deus por nos conceder a alegria e o privilégio de ter convivido com um espírito de tamanha luz. Vimos tantas dores maiores do que a nossa, crianças que "vegetavam" nos leitos, que não podiam mais contar com qualquer esperança. E, todas as noites, agradecíamos por ter podido estar ao lado do Joãozinho todos os dias de seu tratamento. E também por ele estar lúcido e interagindo com a gente até o fim _ acrescenta a mãe.
As lições ficam
A história do Joãozinho não acaba aqui. Ela segue viva na coragem, na resignação e no amor que ele deixou como legados a sua família. A luz do pequeno guerreiro ainda pode ser vista, com nitidez, no brilho dos olhos dos pais e dos manos quando relembram de suas histórias. E a família que esbanja união e companheirismo em cada palavra e gesto garante que transformará toda a saudade de Joãozinho em força para seguir suas lições.
E ele merece que seja assim.
OPINIÃO
"Eu não podia chorar"
Tentei me preparar antes de chegar à casa dos pais do Joãozinho para a entrevista que revelaria aos leitores como foi a vida do menino. Cheguei lá pronta para enfrentar um cenário triste, de pesar, pais chorosos, lamentando a falta que o guri faz. Seria assim em 99% ou mais dos casos como esse, não? Mas constatei meu engano antes mesmo de entrar na sala onde conversamos. A serenidade e a tranquilidade dos pais, e também dos manos do Joãozinho, me surpreenderam a cada minuto da entrevista. Em nenhum momento, por mais emocionante e duro que fosse o relato, eles se entregaram às lágrimas.
O Guilherme, gêmeo do Joãozinho, era o vigia. Durante a quase uma hora e meia em que estive lá, ele não tirou os olhos da mãe. Ele não gosta quando Tatiana chora, e, naquele dia mesmo, havia comemorado que, pela primeira vez, a mãe não havia saído do quarto, após a sesta do meio-dia, com os olhos vermelhos.
A mãozinha pousada no ombro da mãe, acariciando como se quisesse livrá-la da dor daquelas lembranças, causou-me uma emoção indescritível. O pai, entre uma revelação e outra, abraçava a filha, sentada em outro sofá.
Tive incontáveis vezes vontade de chorar. Mas me segurei até o último minuto. A coragem daquela família, a união e a cumplicidade reveladas em cada palavra ou gesto, o clima de amizade com que me acolheram para falar de algo tão difícil... Não, eu não podia chorar diante de tamanha força. Com certeza, um dos momentos mais emocionantes e de maior aprendizado nesses meus 36 anos de vida e quase 16 de profissão.
Fabiana Sparremberger é editora-executiva do Diário, colunista da Em Nome do Filho e blogueira do Meu Filho
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