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"É muito amor e pouca competência"

06 de maio de 2012 3

Todos os posts de Fabiana SparrembergerAbaixo, a reportagem feita por mim e publicada no Diário de Santa Maria edição de fim de semana sobre a palestra de Içami Tiba em Santa Maria.

Psiquiatra e educador Içami Tiba orienta pais e professores de Santa Maria sobre a necessidade de assumir a educação dos filhos e alunos

Quem assiste a uma palestra do educador e psiquiatra Içami Tiba logo entende o porquê da junção de pais e professores em torno dele, tentando um autógrafo ou um registro fotográfico para eternizar o momento. O escritor é quase um popstar entre o público que está atrás de bússolas para orientar a difícil e desafiadora tarefa de educar um filho ou um aluno. Autor de 28 livros com 4 milhões de exemplares vendidos, Tiba esteve em Santa Maria, na noite de quinta-feira, para a palestra Quem Ama, Educa _ Formando Cidadãos Éticos, baseada no maior best-seller de educação no país. As orientações repassadas ao ávido público por informações constam também no livro Família de Alta Performance e no recém-lançado Pais e Educadores de Alta Performance.
Na conferência, o educador preferido de muitos pais faz rir, diverte a plateia, e ninguém vê o tempo passar. O riso funciona como uma espécie de anestesia para o “soco no rim” que vem logo em seguida, quando os pais percebem os muitos enganos que praticam no dia a dia.
_ É muito amor e pouca competência educativa _ prega o conferencista, sobre a educação que os filhos recebem hoje em dia.
Ao ler os principais momentos da palestra (nestas páginas), pais e educadores concluirão que cada um tem uma tarefa intransferível nessa missão, e que ela é bem difícil. E quem, algum dia, prometeu que seria fácil?

A estação da infância

As estações do ano são como as estações da vida. (…) E nós entortamos a estação da infância. Não soubemos educar as crianças. E a falta de conhecimento dos pais gera crianças agressivas, inseguras e instáveis. A criança não se sente segura. É muito amor e falta de conhecimento. Ninguém pode sentar num avião e pilotar sem nenhum curso. E por que uma criança pode pilotar uma família? Ela não tem experiência de vida e manda no adulto. Quem tem cachorro? O cachorro é uma espécie animal, e a gente trata como se fosse gente. E o cachorro tem de responder como gente. Se o cachorro está com semblante triste, “ele está deprimido”. Se fez xixi na poltrona, “está nos agredindo”. O cachorro precisa de um líder, e se o dono é líder, ele manda no cachorro. Se não é líder, o cachorro vai brigar, vai rosnar, vai fazer xixi na poltrona. Leve isso para a criança. Ela não pensa, não tem experiência nem conhecimento. Fica com muito poder, fica insegura e quer mandar.

Guardar os brinquedos, sim

Os pais devem se preparar para ser educadores. Mas não, eles dizem: “eu pago a escola”. A criança cresce, vira adolescente, agride o professor, vai para a balada e não atende o celular, não volta na hora combinada. E o destino dela pode ser três: o pronto-socorro, a delegacia e o necrotério. E não vai ser a escola que vai ser chamada. Vão ser chamados os pais. E como abrir mão de algo tão importante como educar?
Os filhos são diferentes uns dos outros. Mas as crianças estão fazendo só o que têm vontade, não têm noção de responsabilidade. Vocês conhecem crianças que não guardam brinquedos? Não, né? Só a dos vizinhos. Por quê? A ideia é simples. Alguém guarda para ela e não ensina que tem de guardar. Ah, mas ele brincou tanto, está cansado, o coitadinho. Isso é trabalho infantil, pensa a mãe, é explorar o moleque. Isso é, sim, falta de educação. Tem de guardar o brinquedo porque ele tem de ter sentimento de posse para cuidar das coisas. Ele não vai aprender sozinho. (…) Os pais têm de explicar que a brincadeira só acaba quando o brinquedo voltar para o lugar.

A escada não é feia

Com 6 anos, tem criança dizendo na escola “não faço porque eu estou pagando”. Em algum lugar, ele ouviu isso. E o professor, que não tem preparo, pensa: “é verdade, eu sou miserável mesmo”. Mas ele tem de dizer: “Ô, garoto, que bom o seu pai tem dinheiro, mas você não tem educação. E nós estamos falando em educação. Então, vá fazer”. E o professor deve virar as costas e ir fazer outra coisa. Deu a ordem, vira as costas. Isso é ser líder. A criança tem de guardar brinquedos. Por que não está guardando? Porque ela é o resultado da educação que recebe. Antes, o pai só olhava para a gente, e a gente já obedecia por causa de três coisas que o pai jurássico tinha: paciência curta, voz grossa e mão pesada. (…) Hoje, a mãe diz “Você não acha que seria melhor para todos você guardar o brinquedo?”. No passado, a mãe também era mandona e dizia: “Bem feito, apanhou porque não obedeceu”. Hoje, o filho cai da escada e ela diz “escada feia” e bate na escada. A criança precisa aprender a olhar a escada. Porque escadas existem. Mas ela prefere colocar rampas pela casa.

Geração asa e pescoço

Domingo de macarrão e galinha. O pai jurássico comia o peito e a coxa. A asa e o pescoço ficavam para as crianças. “Isso é para quando ela crescer, para quando ela conseguir se virar. Eu cresci comendo asa e pescoço. Tive de trabalhar muito, estudar muito, namorar muito, casar e ter filhos”. Aí, esses filhos que só comeram asa e pescoço começam a crescer. Nunca comeram peito e coxa. Mas pensam e fazem: “Meus filhos vão comer peito e coxa e só de frango, porque galinha é muito velha”. A pessoa começa a vida comendo só peito e coxa (a geração Y). Fazendo só o que quer. Não estuda muito, não trabalha quase nada, namora todas, casa ou é forçado a casar e tem filhos, muitas vezes ainda quando adolescentes. E os avós, que são da geração asa e pescoço (a geração X) vão ter de cuidar dos netos, porque seus filhos não cuidam dos próprios filhos. (…)
Aí, a mãe do Joãozinho, 6 anos, vem à palestra. Ele nunca guardou os brinquedos. A mãe sentencia: “De hoje, não passa”. Ela chega em casa, 11 da noite, o marido “em coma” e o filho brincando. O marido na poltrona, estirado, com o controle da TV na mão. E o cérebro pensando em nada. Homens são capazes de pensar em nada, “entram em coma”. E ele está lá, junto com o filho menino, num ambiente sem nenhuma conversa por horas. Só sendo homem. A mãe chega e fala “Joãozinho, o Tiba disse que você tem de guardar brinquedos”. Onze da noite, o cérebro do marido em coma, como se resolve isso? Porque qualquer mudança não dá para fazer sozinho. Então, o pai diz: “Quem sustenta a casa sou eu, eu é que mando. O Tiba é uma besta”. E queima o filme do Tiba.

Palavra é arma

Os homens são fracos em palavras. Usam de
2 mil a 4 mil por dia. Quando acabam, eles entram em coma. E, imaginem o casal jantando. Acabaram as palavras do homem, e a mulher quer discutir a relação… Ela quer é falar.
A mulher usa de 4 mil a 8 mil palavras por dia. A mulher que menos fala, fala mais que o homem que fala menos. É uma injustiça. O dom da palavra vira arma. A ausência da palavra mata um homem. (…) E por que a mulher fala tanto? Quando está entusiasmada, precisa falar. E quando fica brava, acelera de vez, aumenta a velocidades das palavras, esquece a pontuação e vira uma metralhadora… E frita o cérebro do homem. Gente, é preciso aprender a comunicar. Quer parceria? Comunica, mas não esparrama as palavras. Tudo está na maneira de falar, depende de como se fala. O filho não vai obedecer a mãe que quer dar todos os conselhos do mundo enquanto os amigos esperam no carro, do lado de fora da casa, para ir na balada. Ele não vai escutar nada. Mas a mãe tá com a consciência tranquila porque disse tudo que tinha de dizer. Quer irritar o filho? Use esse recurso.
É preciso falar, virar as costas e ir embora. Não espere seu filho agradecer. O filho está brincando, fica com sono, diz que está cansado e quer dormir. A mãe: “Deixa eu te ajudar”. Mas a gente só ajuda quando a pessoa está fazendo algo. A mãe faz no lugar. Ajudar é um pegar de um lado, e outro, do outro. Quem não cuida do brinquedo não cuida do que é seu. Não atende celular na balada, usa toda a mesada e, quando vai levar os pais para tomar sol, esquece eles lá. É muito amor e pouca competência educativa.

Quando o filho desanda

Patrão e chefe dão a ordem e, se você não obedecer, sofre as consequências. Mãe pensa “Amanhã, ele guarda o brinquedo”. Ou então, furiosa, diz que vai contar até três, dá prazo para o filho não perder o brinquedo e diz que vai dar tudo para crianças pobres. E nunca cumpre. E, quando faz isso que nunca fez na vida, acha que foi radical demais. E começa um monólogo para gastar as palavras do dia. “Ficou louca”, pensa o filho. E aí ela fica querendo agradar no meio da bronca. Fica com pena do filho. Ser mãe não é sofrer no paraíso porque isso não é paraíso, é um inferno. Aí a mãe pensa “Custava eu guardar pela milionésima vez?”. Agora que tomou uma atitude, se critica porque fez isso. E o homem em coma, no sofá, vê a mulher chorar e diz: “O quê? Na minha casa, ninguém faz isso com a minha mulher, nem meu filho”. E diz que vai resolver. E o filho entra em pânico e vai obedecer por causa das três coisas: paciência curta, voz grossa e mão pesada. (…) O filho começa a chorar porque apanhou. E a mãe diz “Filho chorando na minha casa? Ninguém faz isso na minha casa com o meu filho…”. Dá para ficar confuso, né? Pai que fala vinho, mãe que fala água, e filho que desanda. É preciso ter coerência educativa.

A cidadania familiar

O filho aos 6 anos pergunta “Por que eu tenho de guardar o brinquedo, por que sempre eu?”. Como se ele tivesse o direito de não guardar. Nós os formamos para que ele não guardasse. Nós assumimos no lugar dos filhos o que eles têm de fazer. A criança cresce incompetente porque nós deixamos. O líder precisa instigar o filho a fazer. E ele volta da escola e fala: “Na escola, eu não guardo”. E os pais calam a boca. As escolas recebem filhos desandados, que agridem professores. Voltam para casa contando a versão deles. Os pais vão para a escola reclamar do professor. Querem que a escola mude as regras por causa do seu filho. Desandado em casa, vai desandar na escola. Família que diz vinho, escola que diz água, e o estudante desanda. Os pais precisam ser coerentes em casa. Hora do atrito é hora educativa. Os pais não combinam, e um desautoriza o outro. E o filho não tem uma regra fundamental que é a cidadania familiar.

Cada filho é único

Não sei por que esse filho deu bandido, pensam os pais. O outro filho é mocinho. E eles carregam a cruz por ignorância, falta de conhecimento. O cachorro que obedece o líder, defende-o e fica perto dele. O gato vai morrer bem longe da casa. Se bem que hoje já há gatos morrendo em casa, acachorrados, tipo Garfield. Tira o instinto de independência… Solta o gato e esquece dele dentro de casa. Ele vai comer o peixe do aquário, o tecido do sofá. Vai se virar e não vai morrer. O cachorro morre de fome com o saco de ração ao lado. Instintos de cachorro e de gato são diferentes. Assim como os filhos são diferentes. E não dá para tratar os filhos diferentes do mesmo jeito. O segundo filho vai lembrar do primeiro filho enchendo a sua paciência. O primeiro filho nasce com todos da família em volta do berço. O segundo nasce com um dedo entrando no olho. E a gente quer que os dois tenham uma visão de mundo igual? Filhos são únicos. E a igualdade de tratamento só deve existir na meritocracia. Mereceu, leva. Mas, não. Quando um está de aniversário, os pais compram presentes para todos. Tentam pagar o sofrimento com lucros e correção monetária.

Estação adolescência

É a fase em que eles questionam muito a autoridade, que enfrentam os pais. Quer ver se é criança ou adolescente? É simples. Com três pessoas em casa, de noite, não faça janta e avise que vocês vão jantar fora. E o filho vai ficar sozinho. “E quem fica comigo?”, se ele perguntar isso, é criança. O adolescente dá graças a Deus.
O adolescente quer ser adulto mas sem o mínimo de responsabilidade. Garante que não vai ficar viciado em droga, que vai passar de ano… Mas isso não acontece, e, quando a família viaja nas férias, ele vai junto.
Como ficam os avós

Chamar a mãe de avó é uma sacanagem. “Vó, quer brincar com o seu neto?”, pergunta. E a vó sai correndo, larga tudo. E o vô? Ah, ele quer ficar em casa, vendo TV, porque não aguenta mais dobrar a coluna. A avó não prepara mais macarrão e galinha. Pergunta o que eles querem comer. “Nuggets”, dizem os netos. “Hã?”, pergunta a avó. E eles ficam rindo e não explicam.
A geração asa e pescoço está sustentando também os netos. E, embaixo de um folgado, sempre há um sufocado. Ou você identifica o folgado ou estraga a empresa. (…) Mesmo após velhos, eles estão sendo explorados. Falta conhecimento educativo. Muito amor e pouca competência.

Educar para enfrentar

O pai deve educar não só para o trabalho e para a vida. Também deve educar o filho para se defender do que surgir. Tem muito adolescente com 16 anos já alcoólatra. Por quê? Porque começa a beber com 12 anos. Bebe antes de ir para a festa, faz o que eles chamam de “esquenta”. E aí há ambulâncias nas festas. (…) Se chegou na festa e “fez esquenta”, tem de chamar os pais e levar embora.
Sobre as drogas, os filhos dão sinais em casa antes de ficarem comprometidos. São 30 sinais, que eu descrevo em livro. Mas os pais só descobrem quando ele roda na escola, quando vai parar na polícia.
Imagine que a mente é uma casa. O álcool quebra as janelas da casa, e casa com janela quebrada significa descuido. É a que mais vai ser assaltada porque o dono é descuidado. E os assaltantes querem pegar os descuidados. E casa com vidros quebrados tem banheiro sujo. Ninguém entra e limpa. Entra e vai usar do jeito que conseguir. (…) O álcool tira o controle do que é inadequado. Aquele fortão da turma, o brigão, quando bebe, fica macio, parece até apaixonado. Não é o álcool que o transformou. Ele é um enrustido, que saiu do armário. (…) O álcool quebra a censura, e ele fica exposto à vontade.
A maconha obriga o seu usuário a esquecer a porta aberta. Ele fica esquecido, desanimado para cuidar da casa. Entram as pessoas que ele permite. A maconha não tem amigos, tem colegas de uso.
A cocaína é quando um carro bate na parede da casa e cria um rombo. E por esse rombo, entram outras drogas indesejadas e que viciam rápido, como o crack, o óxi e as drogas sintéticas. Se o adolescente não sabe se defender dos primeiros vícios, abre um rombo. É preciso preparar o filho para o que pode atrapalhar a vida dele e a nossa.

Pais e educadores
de alta performance

Para chegar a ela (alta performance), é preciso ser ético, estar no caminho do bem. Se vai prejudicar alguém, não é ético. É preciso também fazer o melhor possível sempre. E não se deixar levar pela emoção porque, se fizer isso, não cumpre o plano educativo. O melhor é falar sempre. Se o aluno está cheirando mal, a professora não pode ir para o outro lado da sala. Ela tem de dizer: “Sinto o seu cheiro daqui” e tem de dar um sabonete, se ele não tiver um em casa.
E se eu faço bem, eu publico, eu exponho. O diretor da série mais premiada no Oscar (O Senhor dos Anéis) repassou sua técnica após os primeiros três filmes, quando ainda estava pensando no quarto. Alguém disse: “Está louco dando o caminho?”. “Não”, disse ele. “Enquanto eles ficam entretidos no caminho que eu já trilhei, eu estou atrás de outro”.

Quem é ele

Em pesquisa feita em março de 2004 pelo Ibope, a pedido do Conselho Federal de Psicologia, Içami Tiba foi o terceiro profissional mais admirado e tido como referência pelos psicólogos brasileiros, sendo Sigmund Freud o primeiro, e Gustav Jung o segundo

Comentários (3)

  • Marisa diz: 6 de maio de 2012

    Mto boa repercursão palestra do Içami Tiba

  • Juliana Corullón diz: 6 de maio de 2012

    Nossa, Fabiana! Muito obrigada por este post! Pesquiso sempre na área de educação, pois tenho o blog Nossos Filhos, desde que meu filho nasceu, há quase 2 anos. Tua entrevista me deu muita vontade de ter estado presente! Obrigada! Aproveito para deixar um convite pra que venhas conhecer o Nossos Filhos (www.blognossosfilhos.blogspot.com), pois é um blog que vem muito ao encontro do que sempre leio por aqui! Esta semana estaremos sorteando o disputado livro da Laura Gutman, que não se encontram mais nas livrarias. Ficarei muito feliz em te ter como amiga do blog e das tuas leitoras poderem se beneficiar de mais um canal de troca de experiências, para aumentarmos nossa rede! Um abraço carinhoso, Juliana.

  • Carol Lazzarini diz: 10 de maio de 2012

    Fabiana, eu nem sou mãe ainda e amei este texto. Muito bom!Adoro o blog e os posts de todas.Beijo

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