
(foto: Fernando Gomes, ZH)
Anelise Zanoni
As horas pareciam se arrastar na UTI neonatal. A sequência de mamadas, banho e consultas médicas deixavam Cláudia Oliboni muitas vezes cansada, pensativa. Mãe prematura, ela ouvia com frequência que, em breve, deixaria o hospital com a filha nos braços. Só que o dia parecia não chegar.
Em meio à rotina de Joana, a menina entrou para o calendário de vacinas dos recém-nascidos. Cada vez que o procedimento era iniciado em algum bebê, o burburinho habitava as dependências do hospital.
_ É sinal de que ela está quase preparada para ir embora _ especulava uma das mães.
_ Desse jeito, ela sairá em uma semana. Só estão esperando ela ficar mais forte para sair _ dizia outra.
Aos poucos, Cláudia ganhava ânimo, alimentado cada vez que olhava para a pequena deitada no berço. Joana tinha sinais de saúde: se espreguiçava, tinha as bochechas coradas, sugava para se alimentar, ganhava peso.
De vez em quando, conseguia roubar um sorriso do pai e da mãe quando olhava fixamente para eles.
_ Vocês estão de parabéns. Segunda-feira ela estará liberada. Entretanto, na quinta, o bebê deve fazer um exame nos olhos. Sugiro que vocês fiquem mais dois dias aqui _ disse a enfermeira.
Imagens de Joana recém saída do ventre da mãe, com seus minguados 38 centímetros, surgiram na mente de Cláudia. A emoção de vê-la nascer, respirar e comer sozinha e a informação de que as semanas de clausura na UTI estavam no fim trouxeram de volta o brilho no olhar da mamãe. Ela acreditava nas palavras ouvidas, mas tinha medo de que tudo não passasse de mais um sonho postergado.
_ É, sim... Podemos ficar mais dois dias. Mas é verdade mesmo?
Quando o marido, Ademir, entrou na sala para buscá-la, a mulher tinha um sorriso largo. Aquele dia era, sem dúvida, o mais feliz de todos vividos dentro da UTI.
_ Estamos indo esta semana. Mas vamos manter segredo, porque ainda tenho medo _ confessou ao pai de Joana.
Naquele noite, o casal voltou para Farroupilha fazendo planos. Precisavam instalar um ar condicionado em casa, organizar as roupas da menina e improvisar um lugar para ela dormir. A mãe, insone, zanzava pela casa sem rumo. Abria as portas dos armários, conferia o número de fraldas, pijamas, sapatinhos. Fez uma pequena lista de compras: mais pacotes de fraldas tamanho pequeno e latas de leite em pó.
Agarrou um tip-top vermelho e um casaco de tricô da mesma cor, para evitar o mau olhado e dar sorte à pequena. Por segurança, separou também um vestido amarelo _ a filha poderia ficar mais bonita com as perninhas à mostra.
Quarenta e três dias depois de nascer prematuramente, Joana alcançava os 47 centímetros e dois quilos e meio. Estava liberada para ultrapassar a fronteira que separava o hospital do mundo real. Daquele momento em diante, sairia do ambiente com cuidadores de plantão para viver sob o zelo da mãe de primeira viagem.
_ Preciso agradecer a todos. É um momento único em minha vida _ falava Cláudia enquanto tentava conter as lágrimas que insistiam em derramar por trás dos óculos de grau.
Com a bebê nos braços, vestida de vermelho (para dar sorte), a mãe abraçou um por um dos funcionários da UTI. Deixou palavras de incentivo àquelas que iniciavam o caminho que acabara de concluir. Visitou bebês em situações extremas, com menos de um quilo, tirou fotos e foi embora.
Do lado de fora do prédio, o vento típico do inverno ultrapassava os fios da roupa. Cláudia enrolou Joana em uma coberta e entrou no carro. Primeiro, pararam em Bom Princípio, onde ficaram poucos minutos para apresentar a filha à avó paterna.
Em Farroupilha, ao estacionarem em frente à casa da família, Ademir foi o primeiro a descer do carro. Precisava ligar o ar condicionado para aquecer o quarto do casal, onde a pequena ficaria.
Quinze minutos depois, Joana estava lá, pela primeira vez, deitada na cama da mãe e do pai. Cláudia e Ademir olhavam para a filha orgulhosos. Sabiam que o trajeto para chegar até ali fora cheio de percalços e acabavam de ter a certeza de que, para serem pais de uma apressadinha, precisavam apenas de um ingrediente: amor.
anelise.zanoni@zerohora.com.br
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