Sempre quis - e estimulei - que o pequeno curtisse contar tudo sobre o seu dia, seus medos, suas conquistas... Sou jornalista, né, gente? E a-do-ro saber de tudo... E de preferência, que seja tudo nos mínimos detalhes... Já ouvi de interlocutores "A gente está conversando ou tu estás me entrevistando?" ou então "Tu estás me perguntando ou ou estou sendo interrogado?" Cavacos do ofício...
E o guri não caiu longe do pé. À noite, o relato do dia é repleto de detalhes, dos mais aos menos importantes, e tudo ao menos tempo agora... E é preciso, muitas vezes, vencer o sono para se manter interessada na conversa... Quem mandou?, penso eu. Precisa estimular tanto para que ele me contasse absolutamente tudo?
Dia desses, o pequeno participou de seu primeiro campeonato de futsal, desses para valendo mesmo. Pois era meu domingo de trabalho, não pude ir, mas tenho certeza de que não perdi um lance sequer do torneio.
O relato era tão rico de detalhes, que eu sei quantas vezes o guri chutou na bola, quantas vezes errou, quantas vezes a bola pegou na trave, quais foram os lances mais perigosos, a cor do colete que o pequeno usou e quantas dezenas de vezes saiu da reserva para entrar em campo, se o juiz era bom ou não, como se comportou a torcida, o placar geral da competição.... Também as orientações dos profes - a melhor era repetida com esmero pelo piá: "se fizer o gol, baixa a cabeça pra comemorar. E se levar gol, ergue a cabeça e vai em frente".
Tudo nos mínimos detalhes e com direito a repeteco. Sim, o lance é repetido mais de uma vez e com requintes de veracidade.
E quando o guri quer começar a história de novo: a mãe pede, com jeitinho: "por favor, hoje não mais, vamos dormir. Deixa o jogo pra amanhã...". O piá acha graça, e ameaça com aquela cara de sem-vergonha, no outro dia de manhã: "mãe, de hoje não passa, vou te contar tudo sobre o jogo...". "Não, por favor, não... Eu imploro...", e ele ri aquele riso gostoso que eu amo de paixão.
A gente estimula tanto, eles respondem ao apelo, e, depois, a gente reclama... Quem mandou, né? Filho de jornalista....
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