"Meu bebê toma fórmula infantil e está constipado. O que devo fazer? Tento leite de vaca?"
Diante do questionamento, o gastropediatra de Santa Maria Ivo Prolla colabora com o blog. Foi assunto também da coluna Em Nome do Filho, publicada nesta segunda-feira no Diário de Santa Maria. Confira:
É comum que bebês que recebem outra fonte alimentar diferente do leite materno apresentem algum grau de constipação. Esta constipação frequentemente caracteriza-se pela eliminação de fezes duras (em bolinhas ou volumosas) associada à dor e esforço, ou redução do número de evacuações (menos de 4 vezes por semana). Estes sinais e sintomas determinam uma busca angustiada por medidas que possam solucionar ou aliviar o problema.
Porém, antes que qualquer decisão seja tomada, é importante considerar alguns aspectos relacionados à alimentação infantil nos primeiros meses de vida e que devem nortear a conduta a ser seguida.
Em primeiro lugar, o leite de vaca é frequentemente considerado como uma das saídas para o problema da constipação do lactente.
Ideal para... o terneiro
Para algumas mães e avós, o leite de vaca ainda é considerado a melhor opção, tanto como fonte alimentar quanto para a regularização do hábito intestinal. Na verdade, o leite de vaca é a melhor opção quando o ser em questão é o bebê terneiro, não o humano.
Este alimento é produzido pela vaca para alimentar especificamente sua cria. Ele é riquíssimo em gorduras e proteínas, pois precisa suprir a alta demanda metabólica do filhote terneiro nesta fase de sua vida. Sua formulação permite ao bezerro dobrar seu peso e atingir uma composição corporal com predomínio de massa magra (músculos) em um curto espaço de tempo.
No leite de vaca, os nutrientes presentes não contemplam as necessidades do bebê para o padrão de crescimento humano (mais lento que o do terneiro), nem visam a proteção contra doenças limitadas a nossa espécie. O leite de vaca não contém o perfil de gordura necessário à perfeita maturação do sistema nervoso infantil, além de impor uma "sobrecarga" aos rins devido à ingestão protéica excessiva.
Acalma, mas...
É claro que o leite de vaca parece acalmar de forma mais eficaz um bebê que chora. Aliás, ele faz com que bebês que "mamam toda a hora no seio" durmam por várias horas seguidas, supostamente bem alimentados. Esta idéia reforça a fantasia materna de que "seu leite é fraco" e contribui sobremaneira para o desmame precoce.
O que não é falado ou sabido é que a composição protéica e de gorduras do leite de vaca desencadeia a formação de uma "pasta" a nível estomacal de lenta digestão. Assim, o bebê fica literalmente "embuchado" por horas a fio, fazendo com que todos acreditem que "agora sim ele está bem alimentado". O leite materno, por sua vez, contém uma enzima própria (lipase) que, uma vez atingindo o suco gástrico, é ativada, auxiliando na digestão e tornando o leite materno "mais leve", facilmente digerido e absorvido. Além disto, alguns ainda insistem no uso do leite de vaca, pois as crianças alimentadas com ele "engordam mais rápido que com o leite materno".
E quem é que não gosta de ver um bebê bem gordinho, tipo de propaganda de fraldas? Todo mundo, exceto nós médicos que sabemos que este ganho rápido e excessivo de peso é devido ao alto teor protéico do leite de vaca (3 vezes maior que no materno) e que este "bebê gordinho" terá mais chance de se tornar um adolescente e/ou adulto obeso e de apresentar dislipidemias, diabetes e doenças cardiovasculares na idade adulta.
Nós também não gostamos de ver estes bebês "alimentados" com leite de vaca, pois eles apresentam risco de alergia à beta-lactoglobulina (proteína altamente alergênica, presente no leite de praticamente todos os mamíferos, exceto no humano), de desidratação hipertônica (pelo excesso de "sal" contido no leite bovino sem ingestão adequada de água), de anemia (por perda crônica e microscópica de sangue nas fezes), e de rebaixamento do quociente de inteligência no futuro (devido à carência crônica de ferro nesta fase precoce da vida).
O bebê que mama leite materno exclusivo até os 4-6 meses e complementado com alimentos sólidos até 1 ano ou mais apresenta crescimento diferente, são menos gordos, e tendem a ser mais saudáveis. Isto porque cada espécie produz o leite com os nutrientes que sua cria necessita para seu crescimento adequado. Eventualmente, a quantidade do leite materno produzido ou dificuldades alheias à vontade impedem o uso da amamentação exclusiva e o aleitamento materno necessita ser complementado ou substituído.
As fórmulas infantis
A ciência e a indústria pesquisaram por anos a melhor formulação que propiciasse um alimento o mais adequado possível a estes bebês. Surgiram, então, as "fórmulas infantis" específicas para o primeiro ou segundo semestre de vida. Assemelham-se ao perfil (tipo e quantidade) de nutrientes presentes no leite humano, e por isto são chamadas "maternizadas". Estas fórmulas são frequentemente modificadas, sempre tentando adequar seus nutrientes ao padrão de referência: o leite materno.
Recentemente estas fórmulas foram revistas, principalmente em relação ao teor protéico o qual foi levemente reduzido, no intuito de evitar o sobrepeso e a obesidade nas crianças com ela alimentados. Infelizmente, a proteção fornecida pelos anticorpos maternos não pode ser fabricada pela indústria, e o tipo de proteína utilizada nas fórmulas ainda apresenta a alergenicidade, embora mais reduzida, daquela apresentada pelo leite de vaca in natura ou em pó.
Retornando ao assunto em questão, tanto leite de vaca quanto as fórmulas infantis podem apresentar efeitos constipantes no bebê. Na busca pela solução, alguns bebês responderão à troca da marca da fórmula infantil; outros, ao uso de leites comercialmente desenvolvidos para esta finalidade.
Alguns bebês melhorarão com a diluição destas fórmulas com a água de aveia ou com a introdução precoce de um caldo de ameixa ou de uma fruta laxativa. É claro que alguns também responderão à introdução do leite de vaca puro ou diluído. Porém, estes irão incorporar os riscos inerentes ao uso do leite bovino no primeiro ano de vida, embasados por inúmeras pesquisas médicas recentes.
O último recurso
Assim, a decisão de usar o leite de vaca como possível solução para o tratamento da constipação em períodos precoces da vida deve sempre ser a última opção a ser cogitada. Deve-se, sim, considerar os riscos e os benefícios de cada conduta acima citada e ter em mente que nenhuma delas é tão boa quanto à manutenção do aleitamento materno exclusivo, mas que nenhuma delas é tão ruim quanto a introdução precoce do leite de vaca na vida destes bebês.
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