
Muito repercutiu o post em que escrevemos sobre a preocupação de uma dinda com o afilhado, um menino de 4 anos, que só brincava de bonecas. Muitos comentários foram feitos sobre o assunto, alguns depoimentos e outros compartilhando experiências.
Para qualificar ainda mais a discussão, solicitei uma opinião da psicóloga Débora Cristina Rocha da Costa, especialista em Humanização da Atenção e Gestão do SUS/Ufrgs e mestranda em Ciências Sociais da UFSM. Veja o que ela escreveu:
A dúvida sobre a inversão de papéis sociais nas brincadeiras infantis e sua correlação com as escolhas objetais na sexualidade adulta ocupa lugar em muitos debates sobre a educação na infância.
Muitos pais buscam amparo para suas dúvidas no conhecimento da saúde e da educação.
Um das teorias mais utilizadas no campo da Psicologia para explicar tais questionamentos é a Psicanálise. Neste sentido, Winnicott (Psiquiatra Inglês) estudou a relação entre o brincar e a realidade. Este autor trabalha com a perspectiva de que o brincar consiste em um espaço transicional entre a fantasia e a realidade, ou seja, um espaço potencial à elaboração da realidade.
Neste sentido, o brincar fornece à criança a possibilidade de compreender a realidade que a cerca e, também, de expressar seus afetos (sentimentos, emoções) e fantasias.
Na idade de 4 anos, a criança ainda está em pleno desenvolvimento cognitivo, e processos básicos como linguagem e memória ainda estão em formação. Neste sentido, a aprendizagem ocorre por meio da atividade lúdica.
Portanto, se uma criança brinca com bonecas ou carrinhos (independente do sexo desta) ela está utilizando os recursos lúdicos que expressam suas curiosidades, suas necessidades de compreensão da realidade em que vive.
A construção da brincadeira ocorre no território da criação. Portanto, o adulto que permite essa construção ou até mesmo participa desta (através de sua interação) investe na formação educativa de seu filho.
Os brinquedos irão depender do contexto de vivências desta criança. Crianças brincam com vários objetos, não somente com brinquedos. Elas brincam com o palitinho do picolé, com o papel da bala, com o botão da blusa da mãe, com a chave do carro do pai _ e essas brincadeiras, embora influentes, não são, necessariamente, determinantes para o seu futuro.
Quanto às identificações e às escolhas de objeto sexual, Freud, em "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", aponta que existem dois momentos diferentes que definem estas etapas.
Na primeira infância até a idade aproximada dos 6 a 7 anos, a criança passa pela primeira etapa da escolha objetal, na qual esta se posiciona perante os limites dela e dos outros e, ao incorporar essa noção de lei, ela também estabelece identificações com aqueles (geralmente os pais) que exercem funções em seu cuidado.
Em momento posterior, na puberdade, o seu corpo se modifica com as transformações do corpo infantil para o corpo adulto e ocorre a retomada do desenvolvimento que ficou latente na infância: o segundo momento da escolha de objeto. Neste período, então, ocorre a escolha de objeto sexual que, independente de ser hetero ou homossexual, não impede que existam práticas sexuais diversas no decorrer da vida adulta.
O Desenvolvimento Psicossexual depende muito mais das relações de afeto e cuidado do que dos brinquedos. Desta forma, o limite da brincadeira não está vinculado ao tipo de brinquedo que a criança escolhe, mas, à criatividade infantil.
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