Coluna publicada em Zero Hora no caderno Meu Filho de 8 de outubro de 2012.
Camila Saccomori, 34 anos, editora do TV Show e mãe da Pietra, 1 ano e meio
Muito se questionou nas publicações de entretenimento a validade de se fazer um remake de Guerra dos Sexos em pleno ano de 2012. A nova novela das sete da TV Globo, originalmente exibida em 1983, estaria ultrapassada: afinal, hoje em dia, homens e mulheres já estão em posição de igualdade. Disputam os mesmos postos de trabalho, ganham os mesmos salários, até a presidente do Brasil é mulher, blablablá.
Não, você não errou de caderno: este é mesmo o Meu Filho, e não o TV Show. Trago o assunto à baila aqui porque, uma semana após a estreia da nova versão da novela de 1983, sem querer encontrei um baita motivo para justificar que a guerra dos sexos ainda precisa, sim, continuar sendo debatida. E que nós, mulheres, ainda estamos em desvantagem. Muita desvantagem.
Tudo começou quando caiu no meu colo um folheto publicitário para o Dia das Crianças. Entre bichinhos de pelúcia fofinhos e bonecas simpáticas, ele trazia a seguinte foto:
Choquei. Olhei de novo para ter certeza: sim, era uma lava-roupas infantil. Minha memória buscou outros brinquedos semelhantes que eu já havia visto de relance em sites e prateleiras de lojas sem dar maior importância. Lembrei do kit de pás de vassoura, do aspirador de pó em miniatura e do conjunto de ferro de passar e tábua.
Feito o bocó Tufão catando peças de um quebra-cabeça em Avenida Brasil, juntei lé com cré e morri: é tudo rosa. Tudo rosa e lilás. Tudo para menina. Somente para meninas. Em pleno ano de 2012. Como se os meninos não precisassem ser “treinados” para o serviço doméstico no futuro.
Sim, estes brinquedos são evoluções dos fogões e pias que eu mesma tinha quando era pequena. Ou seja, justamente à época da Guerra dos Sexos original, lá no início dos anos 1980. Nossos pais não tinham nenhuma obrigação de ajudar em casa, seja varrendo a casa ou aspirando o pó do chão e muito menos lavando roupa no tanque. Hoje os tempos são muito diferentes, mas a lavadora pink e outros itens de faxina seguem por aí como sugestão de presente para meninas.
Sim, a máquina é tão tão tão fofinha que dá vontade de montar uma área de serviço completa para nós, adultas. Mas que recado estamos passando para nossas crianças ao investir nisso? Acho óbvio: passa o recado de que serviços domésticos ainda são tarefas preferencialmente femininas.
No dia em que recebi o tal folheto de brinquedos, virei a noite lendo sobre o assunto. E acabei recorrendo ao premiado e polêmico Menino Brinca de Boneca?, do sexólogo Marcos Ribeiro, lançado em 1990. Ele explica em breves 56 páginas os conflitos do tema, mas o resumo é este aqui: não existe brincadeira de menina ou de menino. A diferenciação é apenas cultural.
Considerando que brincar é sinônimo de aprender, por que devemos perpetuar preconceitos e machismos desde cedo para as crianças? É a sociedade que limita os papéis de como guris e gurias devem se comportar.
Portanto, um alô aos fabricantes de brinquedos: que tal oferecer opções de cores neutras para os itens citados? Um fogãozinho azul, uma pia verde. Meu futuro genro, marido da Pietra lá em 2040, precisa ser prendado.


















Comentários