O depoimento abaixo é do pai da garota Nicole que recuperou-se espantosamente de um grave acidente sofrido no começo de novembro e mostrada na Coluna Em Nome do Filho desta segunda-feira:
"Um Mundo Melhor
Agora são 07:34, manhã do dia 20 de novembro de 2012, daqui a algumas horas completam-se 2 semanas, nas quais as horas e os dias arrastaram-se e sinto-me anestesiado, confinado num tempo que não conheço e num espaço que não me pertence, desde o acidente com minha filha. Quando ela foi atropelada no início da tarde do dia 06 de novembro, uma terça-feira calorenta e abafada.
Lembro-me dela jogada no asfalto, que parecia derreter e ela gritando, gritando e querendo se levantar; parecia um animalzinho ferido, ensanguentado, sem forças para reagir, ou quem sabe, um pássaro ferido, cuja as asas foram cortadas abruptamente e já não conseguia alçar voo.
A partir daquele momento, coloquei minhas energias e minha fé direcionadas somente para aquela que faz meus dias e minhas noites terem um significado mais belo e mais profundo. Pela espontaneidade e alegria, características das crianças nessa idade. A Nicole tem 8 aninhos.
Jamais esmoreci na fé e na certeza que vem da esperança e do amor. Em nenhum momento, achei que perderia minha filha para a fatalidade, essa desconhecida imprevisível que surge do nada e nos arrasta para o sofrimento inesperado.
Eu acredito em Deus, não em padrões deterministas e atávicos, que sob uma pseudo-hereditariedade psíquica que supostamente trazemos de nossos antepassados, de gerações mais antigas, cujas as influências culturais, morais e, principalmente, espirituais ( karmas para os espíritas kardecistas ou transmigração de almas para os budistas e algumas vertentes do hinduísmo ) teriam o poder de alterar nossos destinos, fazendo-nos aceitar passivamente sofrimentos e misérias, anulando o nosso livre arbítrio, nosso direito de escolha, tornando-nos marionetes nas mãos do imponderável e um mata-borrão humano, sem vontade e capacidade para mudar a nossa realidade.
Alguns preferem acreditar nesses princípios espirituais e não questionam seus dogmas e preceitos e seguem arrastando vida a fora um trilho pesado de tristezas e infelicidades; outros ainda sentem o cheiro do ópio, do qual Karl Marx falava e estão entorpecidos nas religiões e em nome delas, matam, discriminam, isolam, ferem e maltratam seus semelhantes, e nos seus extremos estão os fanáticos e radicais e também os conformistas e alienados.
Eu sempre procurei extrair dos meus dramas pessoais e das tragédias pelas quais passei, um aroma agradável que pudesse minimizar as perdas, apaziguar o coração e seguir em frente, num comportamento meio polliana mesmo.
Porém, desta vez, ao ver o sofrimento da minha caçula, não consegui encontrar justificativas aparentes e todas as respostas conclusivas do jogo me pareciam superficiais e destituídas de significados para dizer:
- estou contente por minha filha ter sofrido esse acidente por quê? Por quÊ? e não consegui completar o jogo.
Enquanto buscava e não encontrava respostas para esse contentamento um tanto quanto paradoxal, meus passos tomaram outro rumo e me levaram todos os dias e algumas noites para aquele prédio espelhado da Avenida Presidente Vargas, onde se misturam o novo e o velho, o pobre ( leia-se SUS ) e o rico ( chame-o particular ), onde a doença e o sofrimento andam de mãos dadas com a saúde e a alegria; alguns chegam e outros partem numa viagem sem bagagem e sem o bilhete de volta. Alguns riem no retorno para o aconchego do lar e outros choram, porque na mesa do jantar há uma cadeira sobrando; alguns comemoram a plenitude da vida enquanto outros lamentam a alma vazia.
Esse que agora gasta a tinta da caneta numa folha branca de papel, voltará em breve acompanhado da amada filha, sorrindo e confiante em dias melhores. Quero esquecer que chorei quase todas as madrugadas, sozinho no meu quarto, e as vezes, andando na rua e não me envergonho disso, porque aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvidas, com alegria, trazendo consigo os seus molhos ( Salmo 126:6).
Porém, minhas lágrimas não eram de desespero, e sim, porque eu próprio sentia as dores que minha filha sentiu e ainda vai sentir, dores física e psicológica, traduzidas no seu silêncio profundo e nas pequenas gotas de lágrimas que as vezes rolavam do canto dos seus olhinhos, quando ainda estava no coma e isso me angustiava muito, pois nada, absolutamente nada podia fazer, a não ser orar e confiar em Deus, sem questionar seus desígnios e propósitos nas nossas vidas, apenas tendo uma fé inabalável que tudo isso não passaria de um grande susto e nada mais.
Eu acredito em Deus, como já me referi antes, e, acredito no potencial do ser humano para um mundo melhor.
Minhas orações foram ouvidas e depois de vinte dias, dos quais nove no coma induzido, minha filha voltou para casa como sempre visualizei na mente e no espírito, como se tudo não tivesse passado de um grande susto. Sabe aquele mundo melhor ? Ele está dentro de você!
Francisco de Vargas Ilha"


















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