A saga de uma mãe tentando salvar desesperadamente a vida do filho recém nascido está sendo contada por Zero Hora desde a semana passada. Como pode haver mais mães e pais que, como eu, não conheciam ainda essa emocionante história, vou reproduzi-la aqui.
A reportagem abaixo foi publicada por Guilherme Mazui e Sancler Ebert, com fotos de Nauro Júnior, fotógrafo e blogueiro do Retratos da Vida, hospedado em Zero Hora. Aliás, o Nauro é pai da Sofia, uma linda menina que nasceu prematura e ficou por vários dias na UTI. O depoimento dele no blog (também reproduzido abaixo) é outro texto imperdível. Compartilho a emoção com vocês, pais e mães:
ZERO HORA - SÁBADO, 11 DE SETEMBRO
CAMINHO DA ESPERANÇA

Mais 260 quilômetros pela vida
Jason, 43 dias, conseguiu leito em hospital de Porto Alegre após peregrinar entre Ijuí e Pelotas em busca de atendimento
A peregrinação de Jason de Mello Brondani por cidades e hospitais gaúchos ganhou mais 260 quilômetros.
Acréscimo comemorado. Após 40 dias, o bebê que cruzou o Estado atrás de atendimento especializado, enfim, conseguiu a transferência para Porto Alegre.
Com a mãe Piera de Mello, 22 anos, um médico e um auxiliar, Jason deixou o Hospital Universitário de Pelotas, sua casa desde 1º de agosto, às 19h37min de ontem, em uma ambulância. Às 23h10min, o menino, que tem uma má-formação no intestino, chegou ao Hospital da Criança Conceição (HCC), onde foi internado no setor de emergência.
Jason foi encaminhado para uma equipe de médicos e enfermeiras, que avaliou o estado de saúde do bebê. O menino deverá ficar internado por vários dias, segundo o médico Rodney Fonseca de Carvalho, responsável pelo plantão clínico e de internações do hospital. Piera estava cansada, mas emocionada.
_ Eu só tenho a agradecer. A gente tentou de tudo, me mandaram desistir_ disse a mãe de Jason, com lágrimas nos olhos.
Apesar da incerteza sobre o tratamento do bebê, nascido há 43 dias em Ijuí, a 220 quilômetros de Faxinal do Soturno _ onde mora a família _ a transferência revigora a esperança de Piera, que percorreu 946 quilômetros, cinco cidades e quatro hospitais. Mostrada por Zero Hora, a cruzada de Piera pela vida do filho sensibilizou gaúchos como o médico José Roberto Saraiva, gerente de internação do HCC:
_ Li a matéria de manhã cedo e contatei logo nossa central de leitos para ver se tínhamos como recebê-lo.
A ligação acionou uma rede que definiu a transferência. O Conceição informou sobre a disponibilidade à Central Estadual de Regulação, que avisou Pelotas. Jason poderá ficar na enfermaria para lactentes (crianças de um mês a dois anos de vida) e não na Unidade de Tratamento Intensivo Pediátrica. A notícia da transferência devolveu a graça ao olhar de Piera. Para acompanhar o filho, ela ficará na casa de duas tias em Canoas. Na Capital, Jason ficará sob os cuidados de um grupo formado por pediatra, gastroenterologista, cirurgião pediátrico, enfermeiros e equipe de terapia nutricional. O time avalia a situação do bebê, vítima da síndrome do intestino curto, na qual parte do intestino delgado não funciona corretamente,
o que resulta na não absorção de nutrientes, podendo ocasionar a morte por desnutrição. Alimentação adequada, cirurgia ou transplante de intestino serão definidos no HCC.
_ A esperança segue. Há muito caminho pela frente, mas esse já é um grande passo _ emociona-se Piera.
ZERO HORA DE SEGUNDA-FEIRA, 13 DE SETEMBRO
Jason fará série de exames hoje
O leito na UTI pediátrica do Hospital da Criança Conceição em Porto Alegre trouxe tranquilidade para os pais de Jason de Mello Brondani. O bebê de 45 dias percorreu mais de 800 quilômetros, do norte ao sul do estado, à procura
de tratamento adequado para um problema de má-formação no intestino.
O hospital aguarda laudos mais detalhados dos procedimentos que o menino já realizou para definir o tratamento. Hoje, Jason deve passar por uma série de exames exigidos pela equipe de gastroenterologia pediátrica e de cirurgia pediátrica do HCC. O próximo objetivo é fazer com que o bebê possa começar a se alimentar pela boca com um leite especial de fácil absorção. Na noite de sexta-feira, veio de Pelotas para Porto Alegre, e ontem seu quadro era estável. Jason é vítima da síndrome do intestino curto, que faz com que parte do seu intestino delgado não funcione da forma correta.
NAURO JÚNIOR (que está na foto abaixo, ao lado de Piera), NO BLOG RETRATOS DA VIDA (publicado em 12 de setembro. Com foto de Maria Amélia Saavedra)

Um olhar de súplica
Nos últimos dois dias estive envolvido em uma cobertura que me fez reviver o momento mais intenso de minha vida. Na luta de Piera e Jason, revivi parte de uma história que estive mergulhado intensamente ao lado da Gabi e da Sofia, quando moramos por três meses na UTI Neonatal do Hospital São Francisco de Paula, em Pelotas, no ano de 2005.
No olhar de súplica de Piera, lembrei que o mundo nos prepara para ficarmos por nove meses grávidos, depois dar uma passada no hospital para fazer um parto, e em seguida ir para casa com nossos bebês nos braços, receber visitas dos amigos.
Porém, para quem tem filhos prematuros, esta não é a realidade. Eles se apressam e vêm ao mundo como um frágil cristalzinho, jogado no meio de uma tropa de cavalos em desabalada carreira. É um serzinho muito frágil e desprotegido, em um mundo cheio de bactérias e fungos. Nós somos pais completamente despreparados para trilhar este caminho pantanoso e desconhecido que é ser pai e mãe de prematuros. Nos primeiros dias os amigos vêm nos visitar, depois só os parentes, e por fim ninguém mais aparece. Fica só o pai, a mãe o bebê e os novos amigos que são enfermeiras, médicos, técnicos em enfermagem, pessoal da limpeza do hospital e os pais das outras crianças que estão passando pela mesma situação. Pessoas que você nunca viu passam a ser as mais importantes de sua vida.
Quando vi Piera pela primeira vez, o olhar dela parecia uma faca cortando exatamente em cima de cicatrizes que eu pensei já estarem curadas. O olhar de Piera me dizia que a luta dela também era minha, e que eu precisava pegar em armas para guerrear junto com ela. E qual a única arma que eu sei usar e que usei durante os três meses em que a Sofia esteve no hospital? Minha máquina fotográfica.
Sabia que o Sancler e o Guilherme, dois meninos talentosos e promissores, fariam um belo texto com sua sensibilidade. Mas aquela causa era minha. Eu tinha que fazer uma foto que mostrasse por completo a realidade de Piera e Jason, da minha Gabi e da Sofia, e de todos os pais e filhos que sofrem a solidão de uma UTI por este Brasil à fora. Via no olhar de Piera, o mesmo olhar de fera que protege sua cria que tinha visto nos olhos da Gabi há cinco anos. Via nos olhos de Jason, o mesmo olhar de guerreiro que não desistiria, que vi nos olhos de Sofia um dia.
Foi só usar o instinto, estudar a luz e clicar. Era uma foto que gritava, que suplicava ajuda, que me fez chorar ali mesmo, no ambiente inóspito daquela UTI.
Já tinha feito a minha parte, se Piera e Jason queriam ir para Porto Alegre, a sorte estava lançada, agora era só esperar.
Acordei na sexta-feira com o Sancler me ligando e avisando que tinha que ir até o hospital porque o Rio Grande do Sul todo queria ajudar Piera e Jason. Recebi uma ligação de um leitor que me disse que depois de ver a foto resolveu que ajudaria mãe e filho no que fosse preciso. Acompanhei os dois durante todo o dia. Fotografei mãe e filho abraçados novamente às 16h, só que agora Piera sorria. Tenho certeza que também vi um sorriso nos lábios do minúsculo guerreiro. Uma enfermeira me disse que também viu…
Às 19h fui até o hospital me despedir de Piera e Jason, que entravam em uma ambulância em direção à capital. Eu disse pra ela que o caminho é longo, mas que ela estava dando um passo para frente naquele instante. Perguntei se podia fazer uma foto com ela, apesar dela não entender muito porque, disse que sim.
Sou fotógrafo há 21 anos, odeio tietagem, não peço para tirar fotos com ninguém que eu fotografo, mas eu sabia que estava de frente com uma guerreira. Não poderia perder a oportunidade. Guerreiras são todas as mães, mas as mães de UTI recebem um poder especial de Deus para lutar.
Não sei se é a idade que tem me pego de jeito, mas tenho me questionado muito ultimamente sobre qual a verdadeira função do jornalismo. Me pergunto se vale a pena lutar por um mundo mais justo usando a única arma que tenho, que é a fotografia. Mas o sorriso nos olhos de Piera me deu a certeza de que estou no caminho certo.
Como é bom ver Piera e Jason sorrirem quando conseguem com a nossa ajuda dar um passinho pra frente. Como é bom trabalhar ao lado de jovens talentosos, que têm muito a me ensinar como é o caso de Sancler e Guilherme Mazui. Estamos com o nosso trabalho transformando o mundo em que vivemos em um lugar mais justo.
Para ajudar Jason
A família de Jason organiza um jantar beneficente para 18 de setembro, no Ginásio de Esportes Irmão Ademar da Rocha, em Faxinal do Soturno, às 20h30min. Informações: (55) 3263.2402 / 9977.0160
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