A declaração é do pediatra José Carlos Diniz Barradas, delegado regional da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul que atende em Santa Maria. Como prometi aqui no blog, fui em busca de um profissional para ajudar uma leitora, que queria saber se poderia dar chá para o bebê, na tentativa de diminuir a cólica. Barradas nos ajuda a esclarecer muitas dúvidas sobre um problema muito comum em recém-nascidos, que é capaz de quase enlouquecer os pais.
Fiz parte do time dos "pais em pânico", que, como relata o médico, choram junto com o bebê.
- Por que nossos bebês têm cólicas?
José Carlos Diniz Barradas - Diferentemente de outras espécies, nosso filhotes nascem com vários orgãos em avançado grau de imaturidade, o que se reflete no funcionamento irregular de suas funções - enquanto um terneirinho nasce e caminha no mesmo dia, nosso bebê levará quase um ano pra caminhar... O mesmo ocorre com o aparelho digestivo - por conta desta imaturidade, a digestão é parcial e incompleta, ocorrendo grande fermentação dos alimentos (que, nesta fase em geral, é leite), o que resulta numa maior produção de gases, que, ao migrarem dentro do intestino, podem produzir dor (cólica). Ao mesmo tempo, o movimento intestinal (chamado de peristaltismo) é ainda descoordenado, o que também pode levar à cólica, além de vômitos, regurgitações e irregularidade das evacuações
- Elas têm data para começar e terminar? E por que elas se intensificam à noite?
Barradas - Podemos dizer que cólicas ocorrem, em maior ou menor intensidade, na maioria dos bebês nos primeiros meses de vida (em geral até o terceiro ou quarto mês), caracterizando-se por "crises" de choro ou inquietude que predominam no final da tarde e à noite, em razão da menor capacidade digestiva que temos nestes horários. Podem ser intensas e prolongadas, requerendo calma e paciência de pais ou cuidadores, pois quanto mais tenso for o ambiente, mais agitado e choroso fica o bebê. Assim, é ilusório achar que teremos um bebê sem cólicas (provavelmente, este seja literalmente um "bebê dos sonhos"...)
- Há algo que pai e mãe possam fazer para tentar ajudar o bebê?
Barradas - A dor de cólica costuma ser cíclica, não contínua, mas, em alguns bebês mais excitáveis, ela desencadeia um estado de agitação que torna o choro persistente por longo tempo. Assim, uma das primeiras medidas a serem lembradas nesses casos é a redução dos estímulos ambientais em torno do bebê - diminuir o volume da TV, falar mais baixo e tranquilamente, penumbra ao invés de luzes intensas, um suave balanço ao colo (e não sacudir nervosamente o bebê como vemos muitas mães fazendo nestes casos...) podem ser um bom começo para solucionar ou amenizar o problema. Pais em pânico, não raro chorando junto com o bebê, são uma combinação "sinistra" nestes casos...
- Massagem ajuda?
Barradas - Como dissemos antes, a digestão incompleta dos alimentos neste fase gera uma maior produção de gases intestinais, razão pela qual massagens abdominais suaves podem ajudar na eliminação destes gases, além do repouso, no colo, em posição ventral (barriga para baixo). Medicamentos que facilitem a migração e eliminação dos gases intestinais podem e devem ser considerados em alguns casos.
- Tem algum cuidado na alimentação que a mãe deve ter para tentar diminuir as cólicas?
Barradas - Embora sem grande base científica, admite-se que alguns cuidados alimentares na dieta da mãe que amamenta podem ser úteis, como a redução da ingestão de leite de vaca e derivados. Outros alimentos e bebidas, como cítricos (laranja, por exemplo), chocolate e chimarrão devem ser observados quando ingeridos pela mãe, no que se refere a algum aumento de intensidade das cólicas. Falando em alimentação, é óbvio que o leite materno implica numa incidência muito menor de cólicas, que costumam ser mais frequentes e intensas com outros tipos de leite, sobretudo nos bebês alimentados com leite de vaca (que, lembrem, é leite pra terneiro, não pra bebê...). As chamadas fórmulas infantis (leites em pó ), embora longe de serem ideais, são, sem dúvida, melhores do que o leite de vaca, pois tem diversas modificações em suas fórmulas que facilitam a digestão pelo bebê.
- E se o choro não for por causa de cólica?
Barradas - Embora cólicas sejam a causa mais frequente de choro em bebês menores, sempre que as crises são excessivamente intensas e frequentes, mesmo com os cuidados acima descritos, convém se considerar outras causas de choro nesta idade, que, embora muito menos frequentes, podem ocorrer e merecem uma conduta diferenciada. Alergia a proteína animal, refluxo gastro-esofágico com esofagite e fome devem ser pesquisadas e afastadas sempre que que as crises persistirem além do desejado ou esperado. Sinais de alerta como vômitos excessivos, acompanhados ou não de choro, ganho de peso insufuciente, crises de choro sem horário definido, sangue ou muco nas fezes, devem ser prontamente relatados ao pediatra que acompanha o bebê.
- Se o bebê estiver chorando muito e sem parar, devo levar ao pronto-socorro?
Barradas - O uso (muitas vezes exagerado) de consultas em pronto-socorro para a solução deste tipo de queixa é, em geral, insatisfatório, pela impossibilidade do pediatra de plantão ter uma adequada avaliação de uma situação que costuma ser crônica e que necessita de uma continuidade para seu correto atendimento.
- Posso dar o chá tão recomendado pelas avós?
Barradas - Chá pouco ou nada ajuda - alguns estudos mostram que os chás talvez diluam ainda mais as enzimas digestivas, piorando assim o processo digestivo e aumentando, em consequência, as cólicas - aparentemente o suposto efeito positivo é mais psicológico, fazendo a mãe acreditar que está fazendo algo pelo seu bebê e conseguindo talvez manter a calma por mais tempo, a espera da melhora que, mesmo que demore, sempre ocorre...
Postado por Fabiana Sparremberger
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