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O ateliê de Saint Clair Cemin e o encontro com Vik Muniz

31 de maio de 2013 2

Zero Hora visitou o ateliê do escultor gaúcho Saint Clair Cemin em Nova York.Criador da Supercuia, instalada à beira do Guaíba, escultor reconhecido internacionalmente mora nos EUA desde 1978. Clique aqui e leia a matéria em que ele fala mais sobre arte e sua atual produção

São 9h de sexta-feira, 10 de maio. A reportagem de ZH acompanha o artista que foi convidado a expor a obra Fotini (2013), um martelo de aço de três metros de altura dentro de uma caixa de vidro, no Parque das Esculturas da Frieze Art Fair NY 2013.

– Gostei muito do que vi – diz, enquanto dirige por Manhattan rumo ao Brooklyn, onde mantém seu ateliê. – A feira está pictórica, visual. Há muita pintura, escultura, textura. A impressão do feito à mão está presente.

Depois de transpor a entrada do prédio industrial, chegamos ao corredor que leva a uma das salas do ateliê de Saint Clair Cemin, em Nova York. Entendo de imediato quando ele afirma que espaço e luz são fundamentais.

O pé- direito tem mais de cinco metros de altura, e amplas janelas deixam entrar o sol da manhã que ilumina Nova York.

– Morei em Paris alguns anos, mas você pode ficar lá por três gerações e nunca se sentirá em casa. Minha cidade é Nova York, sempre foi, desde que cheguei, nos anos 1980. Os artistas se reuniam, era uma efervescência cultural, muita boemia e bom humor. Vamos tomar um café? Mas é café de americano – diz, sorrindo.

Cemin passeia entre obras prontas, como os exemplares em menor escala da Supercuia, e mostra duas inéditas nas quais está trabalhando. O molde de um candelabro que será feito em bronze e uma escultura em madeira que emana delicadeza. Ele acaricia a peça e revela:

– Pensei em esculpir os pensamentos de uma mulher, então percebi que eram os pensamentos rebuscados de uma adolescente. É, é a Sara (sua filha de 13 anos).

A maior parte das grandes obras de Cemin é executada em Pequim, na China, desde 1999:

– A tecnologia é incomparável, o que aumenta as possibilidades de criação. Lá, consigo fazer esculturas em aço inoxidável martelado, o que é dificílimo.

Cemin vem ao Brasil todos os anos. Em breve, a galeria Bolsa de Arte, que o representa em Porto Alegre, exibirá uma obra sua de grandes proporções.

O ENCONTRO COM VIK MUNIZ


Depois da visita ao seu ateliê, Saint Clair Cemin segue junto com a reportagem até o próximo destino, também no Brooklyn: a casa-ateliê de Vik Muniz, seu amigo de décadas. Paulista radicado no Rio de Janeiro, Vik se dedica a revelar o invisível, fotografando e ampliando materiais diversos, como areia, chocolate, papel e todo o tipo de matéria- prima.

Uma vez por mês, Vik fica em Nova York trabalhando e morando em uma casa com ares de loft. E, assim como Cemin, trata a arte com uma fala leve que mistura ciência, piadas e risadas.

A sala de entrada comporta computadores, armários de aço, equipamento fotográfico e duas obras que atraem Cemin. A primeira é um exemplar da série Espelhos de Papel, na qual o paulista recompõe obras referenciais a partir de colagens de milhares de imagens. A outra, em preto e branco e ainda em desenvolvimento, leva Vik a explicar que, mais uma vez, quer tornar visível o imperceptível:

– Essa largura (cerca de 1,2m) na verdade equivale a oito mícrons (0,008mm). Vou reconstruir todos os castelos do Vale do Loire em grãos de areia!

Vik Muniz colore suas definições com historietas:

– Me perguntam que artistas contemporâneos eu admiro. Digo que não conheço muitos. É como o cara dirigindo: ou olha para frente ou pelo retrovisor. Não para os lados. Só em filme o cara dirige olhando para o lado (risos). Se você começa a ver o que os outros estão fazendo, fica para trás. Um trabalho relevante tem que estar relacionado não com a arte, mas com o mundo. Meu interesse mais profundo é por ciência e por materiais. Gosto de falar sobre arte, mas sob o ponto de vista das possibilidades, da vida.

Antes de se despedirem, Vik comenta:

– Uma hora dessas, tenho que ir ao Rio Grande do Sul. Nunca fui. O dia em que alguém me convidar, eu vou.

– É mesmo? Você tem que ir lá para falar sobre a Supercuia – provoca Cemin.

– Notas e pensamentos sobre a polêmica da cuia – devolve Vik, sorrindo.

OS DOIS COMENTAM SOBRE CIÊNCIA E ARTE:


– O cientista precisa desenvolver linguagens para poder entender o que é matéria. Esse é o trabalho do artista: aprimorar a relação dos sentidos porque todas as linguagens são desenvolvidas através dela. É algo que nunca termina. Até os próprios sentidos vão se transformando, e, também, a forma de ver as coisas. Isso causa certa confusão nos cientistas – diz Vik, com quem Cemin concorda.

Investigadores, ambos estão interessados nas seguintes obras:

Livro que Cemin recomenda:
Design in Nature: How the Constructal Law Governs Evolution in Biology, Physics, Technology, and Social Organization (2012), do professor americano de engenharia mecânica Adrian Bejan. Segundo a sua teoria da Contructal Law, formulada em 1996, “tudo o que se existe, seja animado ou inanimado, precisa fluir de forma eficiente para se perpetuar no tempo”. Para Bejan, a lei não é apenas uma questão de ciência descritiva, mas define o que significa vida: “Estar vivo é ser um sistema de fluxo livre para alterar sua configuração ao longo do tempo”.

Indicação de Vik:
Bright Earth: Art and the Invention of Color
(2001), do cientista inglês Philip Ball, doutorado em física. Ball conta a história de como arte, química e tecnologia têm interagido ao longo dos tempos para tornar as cores surpreendentes que são admiradas em obras de arte.

Fotos: Milena Fischer

Comentários (2)

  • Ranieri Rizza diz: 31 de maio de 2013

    Que luxo ! Falo nisso no sentido de expansão cultural. De grandeza mundial e ao mesmo tempo de proximidade. Dois grandes talentos. Arte. Vida. Parabéns pela matéria !

  • carla almeida diz: 2 de junho de 2013

    Oi,adorei a reportagem!

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