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A tragédia e a família

30 de novembro de 2008 3

Reproduzo, a pedido, o comentário na edição da versão impressa do DC:

Premiado no Festival de Cinema de Roma, o filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild) narra uma história verídica, ocorrida em 1992 com o recém-formado Chris McCandless. Inconformado com as brigas dos pais, decidiu partir para uma aventura solitária no Alaska.

Dirigido por Sean Penn, o drama tem uma fotografia exuberante. McCandless morre aos poucos, após ingerir, por equívoco, uma planta venenosa. Seu diário relata, então, o grande sonho de retornar ao convívio familiar. Sentencia: “A felicidade só existe quando é compartilhada”.

A trágica façanha do jovem americano e os pensamentos que deixou para a história dizem muito para estes dias de sofrimento vividos pela população de Santa Catarina. Sobretudo, do que as famílias e os amigos podem fazer neste momento para minorar a dor dos flagelados.

Esta inundação é diferente das anteriores. Muito mais devastadora. As enchentes tradicionais invadiam os lares, mas, quando as águas baixavam, começava a limpeza.Aos poucos, os móveis, eletrodomésticos e bens materiais perdidos, iam sendo renovados. A calamidade atual também destruiu aquilo que foi adquirido com muito trabalho, suor e lágrimas de milhares de trabalhadores, especialmente em Itajaí. 

É impossível avaliar a dimensão do infortúnio das milhares de famílias que perderam tudo, incluindo casas e até os terrenos, em Blumenau e vários municípios. As emissoras de televisão exibem todos os dias depoimentos comoventes dos que perderam parentes e amigos, do que ficaram só com a roupa do corpo e, desesperados, não sabem por onde começar.

É a estes desabrigados que devem ser voltadas todas as atenções das autoridades, das instituições e da cidadania. Salvação de vidas em primeiro lugar, assistência alimentícia e à saúde num segundo momento. E, ao mesmo tempo, uma palavra de conforto e, em especial, uma luz que lhes mostre o caminho da reconstrução.

A casa, definitivamente, o bem material mais precioso a preservar, com a saúde, a união da família e o convívio com os amigos. E ali que todos preservam a memória.No álbum de fotografias, nas obras de arte nas paredes, nos bens que deram conforto para esposa e filhos, nas peças raras herdadas dos antepassados, dos livros preciosos guardados nas prateleiras, no presente recebido da esposa ou do marido numa celebração, nos discos com seus cantores e orquestras preferidos, nos souvenirs das enriquecedoras viagens, nos diplomas que comprovam desempenhos profissionais e intelectuais. Enfim, numa sucessão de preciosidades pessoais e familiares que, de repente, e desaparecem, arrancadas pela violência das águas e soterradas pela força da lama.

Prefeituras têm a promessa das autoridades de verbas para a recuperação dos municípios. Órgãos públicos afetados contarão também com os necessários recursos. Mas — esta é a grande questão que fica para ser resolvida nesta calamidade — e como se dará a reconstrução das famílias? Quem vai assegurar-lhes um novo terreno? Em que área? E o dinheiro para construção de uma nova casa? Ou para repor, mínimamente, o que foi tragado pelas cheias?

Os 27.470 desabrigados deste infortúnio que a todos comove, não tem o que comer, nem o que vestir. Não tem onde abrigar seus filhos. E, tragédia maior, perderam seus lares e até seus endereços. Como jovem McCandless, o sonho de todos eles agora é voltar para casa.

Postado por Moacir Pereira, Florianópolis

Comentários

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Comentários (3)

  • Maria Augusta Orofino diz: 30 de novembro de 2008

    Prezado Moacir
    Fiquei emocionada ao ler a tua coluna no sábado. Faço minha as tuas palavras. Existem coisas que o dinheiro não compra e não se tem como repor. Para o restante, o tempo ajuda, vem trabalho e dinheiro e apoio dos amigos. Estou solidária aos nossos irmãos de Santa Catarina. Forte Abraço. Maria Augusta Orofino

  • Velci Nunes diz: 30 de novembro de 2008

    Os governantes governam as cidades de dentro da jaula dos macacos… O Estado é culpado e responsável pelos prejuízos por permitir contruções em áreas de risco mesmo nas situações de invasão.Esses deslisamentos acontecem devido ao desmatamento das encostas e foi o que causou mais mortes e prejuízos. O Estado tem a obrigação moral de dar casas para as pessoas que ficaram sem seus lares e não de abrir linhas de crédito para emprestar dinheiro para quem já perdeu tudo e chora os seus mortos .

  • Marcio diz: 30 de novembro de 2008

    Moacir é q este governo q tai nunca desmatou tanto como agora….