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A Novembrada, hoje(2)

30 de novembro de 2009 6

Há exatamente 30 anos um grupo de estudantes protestou contra o presidente João Figueiredo, na mais confusa, inábil, inoportuna, tumultuada e descabida visita de um chefe de Nação a Santa Catarina.

A placa que o Palácio do Planalto enviou a Florianópolis com despropositada homenagem Floriano Peixoto despertou ira em setores das classes média e alta que até hoje choram a perda de seus antepassados na chacina de Anhatomirim pelo coronel Moreira Cesar, a mando de Floriano, na Revolução Federalista.

O aumento nos preços do gás e da gasolina na semana da visita, a declaração do general de que “preferia o cheiro de cavalo ao cheiro de povo”, a negativa na véspera da visita de autorizar a implantação da Sidersul, principal razão da visita, foram as causas imediatas.

Figueiredo também deu sua contribuição ao descer para o confronto físico com os estudantes. Mas há uma razão na “novembrada”, que permanece atual: o protesto dos catarinenses contra a falta de atenção do governo federal em relação às principais reivindicações do Estado.

Naquele época era a Sidersul; hoje a lista incluir a duplicação da BR-101 sul, a duplicação da BR-470 no Vale do Itajai, da BR-282 no oeste e da BR-280 no Planalto Norte, para ficar apenas no plano rodoviário.

Os aeroportos caindo pelas tabelas, especialmente o de Florianópolis, que não sai do papel. Um governo que está identificado realmente com o clamor da população catarinense jamais deixaria de incluir no orçamento da União para 2010 uma dotação específica, carimbada para obras de prevenção de cheias no Vale do Itajaí.

Pior e muito mais grave: o governo se esqueceu e a bancada federal também ignorou estas obras fundamentais para evitar catástrofes futuras. É preciso enfatizar para não esquecer: entre as emendas individuais e coletivas dos senadores e deputados catarinenses, totalizando 781 milhões de reais, não há um único real para obras de prevenção.

Marco A Novembrada é um episódio relevante na história brasileira que mereceu o mais amplo destaque na imprensa nacional durante vários dias que se sucederam aos incidentes.

Mas, infelizmente, está na sombra dos grandes acontecimentos, pelo menos na ótica dos registros nas obras dos principais historiadores, como lembrou em recente debate na UFSC o competente sociólogo Remy Fontana.

Foi um protesto contra o regime militar e um marco na luta pela redemocratização. A partir dali, o povo de Florianópolis mostrou na garra, no peito e na coragem que os brasileiros poderiam ir às ruas e lutar pela democracia plena, que dava os primeiros passos, mas enfrentando resistências internas da linha dura.

Houve, sobretudo, um motivo especial a oxigenar a manifestação dos catarinenses: a tradicional e histórica discriminação do Estado pelo governo central, especialmente, depois que se transferiu para Brasilia.

Já na origem da República Juliana, depois repetida na reação com a Revolução Federalista. Jorge Bornhausen havia sido indicado pelo regime militar, através da influência decisiva do general Golbery do Couto e Silva. A maioria parlamentar dava respaldo as ações do governo militar no Congresso Nacional.

Figueiredo executava a política populista bolada pelo seu ministro da Comunicação, Said Faraht, tomando cafezinho nas esquinas das cidades que visitava. Vir a Florianópolis e nada dizer sobre a Sidersul, maior reivindicação dos catarinenses, era um desprezo inaceitável.

E, ainda por cima, homenagear Floriano Peixoto, era demais. Para detonar a crise só faltava o pavio curto do general. Ele mesmo acendeu o estopim. Duas vezes: enfrentando os estudantes de peito aberto na Praça XV e, apesar dos tumultos, insistindo em ir ao Ponto Chic, nosso Senadinho, tomar um cafezinho.

Decorridos trinta anos, constatase que o Brasil avançou — e muito — na redemocratização, tem há 21 anos uma nova Constituição e há liberdade de expressão e de imprensa.

Mas o menosprezo às principais aspirações do povo catarinense continua. Está faltando uma nova Novembrada. Pela duplicação da BR-101 sul, e das brs mais congestionadas que continuam matando inocentes, pelo aeroporto internacional, pelas obras de prevenção das enchentes no Vale do Itajaí.

E por uma longa lista de obrigações do governo federal, em retribuição mínima ao que os catarinenses fazem pelo desenvolvimento do país.

Líderes estudantis como os daqueles anos de 1979 é que não existem mais. A turma da UNE quer mamar nas tetas do governo Lula, recebendo milhões de reais por mês.

E a turma daqui anda mais ausente e desmotivada do que servidor público derrotado por greve impopular. Quem sabe a nova geração tenha mais conscientização política e esteja menos atrelada ao esquema de poder.

Confira mais informações sobre a Novembrada no site especial

Postado por Moacir Pereira

Comentários

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Comentários (6)

  • antônio Estanislau Ferreira diz: 30 de novembro de 2009

    Alguém poderia me informar como andam as investigações dos crimes ambientais promovidos pelo Secretário Benedet? Pelo visto foram 5 crimes ambientais na sua fazenda.

    Será que a imprensa quer esconder isso?

  • JEAN REINERT diz: 30 de novembro de 2009

    Tenho medo das gerações futuras. Vai parecendo cada vez mais normal, levar os 10% de qualquer coisa que se faça ou exista. E a juventude vai se acostumando e gostando disso. Meu medo é que as próximas gerações se acostume, gostem e achem isso normal.

  • Antônio Padilha diz: 30 de novembro de 2009

    Moacir, mudaram as moscas, estas aprendem rapidamente. Como você bem lembrou: os antigos estudantes agora governam ou mamam no governo e os atuais já lutam por privilégios. Outro problema é o que também nos afeta: dos três senadores, todos são governistas. Dos deputados federais, quase todos estão na base de apoio do governo federal.
    Com forte abraço de
    Antônio Padilha

  • Narbal A. Marcellino diz: 1 de dezembro de 2009

    Parabéns Moacir
    Enquanto o “estrangeiro” do JA da RBS vomita seus argumentos estúpidos, com a sua habitual valentia solitária, você traz uma brilhante síntese do que aconteceu naquele dia 30. Por essas e outras nos sentiremos sempre orgulhosos de ser catarinenses.

  • Anilzo da Silva Filho diz: 30 de novembro de 2009

    Quem sabe a nova geração tenha mais conscientização política e esteja menos atrelada ao esquema de poder.E então essa nova geração perceberá que temos em SC uma imprensa que só faz críticas a Brasília. E aqui no Estado? A publicidade de quem está no poder compra o silêncio da grande mídia? Há muita coisa para ser avaliada criticamente em Sc. Por que fazem vista grossa? A crítica à maneira como trataram os atingidos pelas enchentes, é justa. Mas não esqueçam do nosso quintal!

  • Flavio diz: 30 de novembro de 2009

    Excelente reflexão.