O ano passou voando e já estamos outra vez na véspera de Natal. Voou e em velocidade supersônica, dando a impressão de que aumentou a velocidade no giro do planeta.
Natal chega e outra vez o brilho fica com a pureza das crianças e seus sonhos de Papai Noel, este personagem carismático que hoje se encontra basicamente nos shoppings e sempre com a marca comercial. Perdeu aquela imagem de serenidade, afeto e carinho, marcantes 50 ou 30 anos atrás.
Todo mundo tem boas lembranças do Natal durante a infância e a adolescência. As minhas começam muito antes da festa.
Já em setembro ou outubro, meu saudoso pai, o marceneiro “seu Maneca” pegava a família e dirigia com sua camionete Ford, modelo 1952, e, sob orientação de minha inesquecível mãe, circulava pelo interior da Ilha à procura de um peru para a tradicional ceia natalina. Era sempre a mesma rotina. Pegava o bichinho, colocava no fundo do quintal para engordá-lo e “tirar o gosto de peixe”. E a criançada divertia-se naqueles dias impagáveis com o famoso “perúúúú” e a resposta “glu-glu-glu”. Era provocação de manhã a noite.
Na noite de Natal, aquela expectativa com a chegada do Papai Noel. No dia seguinte, um almoço caprichado, o melhor do ano. Tudo fruto de muito trabalho de minha mãe, Hercilia, a “Ciloca”, para as amigas. Matava a galinha, depenava, limpava, batia pesado a clara do ovo, recheava, enfim, repetia aquele ritual penoso, hoje extinto e substituído pelos eletrodomésticos. A maionese era especial. Champanhe não havia. Mas o Precioso, branco, o vinho da moda, estava sempre à mesa. No centro da mesa, o peru recheado, de pernas para o ar, rodeado de frutas e enfeites natalinos.
E, o mais importante, todos reunidos ao redor da longa mesa. Vinha a oração de agradecimento familiar pelo reencontro. E a celebração prosseguia num singular clima de fraternidade e espiritualidade. Sobremesa sempre muito especial, com receitas que a anfitriã recolhera num convívio gratificante com a família Osvi Souza, da famosa fábrica de brinquedos.
Na comunidade não era diferente. A família Pereira, dos irmãos Nelinho e Nelito, das “Lojas Eletrotécnica — uma organização às suas ordens”, nossos vizinhos na Agronômica, era o centro das atenções. A casa transformava-se no templo das comemorações natalinas. Pais do excepcional advogado João Leonel Machado Pereira (Zique), sabiam receber como poucos. A casa era uma espécie de centro comunitário, onde a garotada brincava de tudo. Abrigava todo mundo, os filhos dos comerciantes ricos e parentes da família aos meninos pobres do Chapecó. E, no Natal, tinha balas e bombons à vontade.
Um recanto familiar único, que atraía jovens e adultos de outros pontos, pela construção da primeira quadra de futebol de salão iluminada na cidade. Dona Albertina, que festeja até hoje a data com a extraordinária família, era uma santa a acolher todos com aquele abraço maternal. Sogra do ex-vereador e fiscal da fazenda Aloisio Acácio Piazza e do economista João Lúcio Baracuhy, sua imagem da acolhida maternal a todas as crianças e jovens do bairro e dos amigos da família permanece como que beatificada para a imortalidade. A programação natalina envolvia praticamente toda a comunidade. Os vizinhos mudavam até o cumprimento diário, que passava a ter mais calor humano. Incluía a Missa do Galo, quase sempre destinada mais aos adultos, a missa das oito para as crianças e a das dez, no Dia de Natal, solene e abrilhantada por um belo coral.
Florianópolis não tinha a belíssima e contagiante iluminação da Beira-Mar Norte, mas o brilho dos olhos das pessoas contaminava com o vírus da bondade, com a chama da paz nas relações humanas.
Os anos se passaram e o que se vê é muito consumismo e pouca vivência do significado da data. Mesmo assim, para as crianças certamente ficarão as mesmas lembranças dos cumprimentos, dos presentes e do abraço da paz da noite de Natal.
Postado por Moacir Pereira