Fato histórico da semana que merece registro: o centenário de nascimento do professor João David Ferreira Lima, fundador e primeiro reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Integrou uma geração de notáveis do ensino, ao lado de outro insuperável mestre, o professor Henrique da Silva Fontes, fundador da Faculdade de Filosofia,Ciências e Letras, e outro incansável formador de cidadania, que plantou a semente do “campus” universitário da Trindade. E que geração qualificada! Ferreira Lima tinha vínculos com o PSD; Henrique Fontes integrava família da UDN. Mas ambos rejeitavam qualquer vinculação das origens partidárias com a exemplar missão educadora que cumpriram com destaque na história de Santa Cataria.
Ferreira Lima já havia batalhado pela Federalização da Faculdade de Dïreito, com outros notáveis da magistratura, da advocacia e da política estadual. Passo definitivo para o sonho maior de criação da Universidade Federal. E ali recrutou um grupo de jovens, formado uma equipe criativa e dinâmica que se transformou em exemplo de renovação e modernidade para universidades brasileiras e estrangeiras. Aluisio Blasi, Emanoel Campos, Vivaldo Garofalis, Antônio Grillo, Antônio Miroski, Teodoro RogérioVahl, João José Caldeira Bastos, Ari Ramos de Castro, Ernani Bayer, Jair Francisco Hamns, João Nilo Linhares, Amaral e Silva, Murilo Martins, eram alguns dos jovens colaboradores de primeira hora, os que cravaram os primeiros alicerces do magnífico edifício da cidadania. E, sobretudo, os que instalaram a reitoria e construíram a unidade acadêmica e realizaram a integração das faculdades isoladas.
Mérito
O “Doutor David”, como era chamado, não fez outra coisa na vida senão cuidar da educação. Viveu dentro da Universidade mais de 50 anos. Depois da esposa Nelly e dos filhos David, Paulo e Murilo, a Universidade era sua grande paixão. Transmitiu este amor à instituição a todos. Implantou uma verdadeira escola de administração, com um modelo que não se encontra mais hoje na Ufsc ou em outra instituição pública de ensino. Os que trabalhavam na Ufsc, professores e servidores, formavam uma só família. Todo mundo vestia a camisa e amava a instituição, como ele. Dava liberdade de ação, incentivava a criatividade e nunca pediu filiação partidária ou fez distinções de credo, raça ou classe.
Comandou a construção de obras milionárias no “campus”, mas não se tem notícia do menor ilícito. A ética e a honestidade que ensinava e praticava contaminavam os subordinados. A independência e a coragem eram outras qualidades excepcionais. Presidente do Conselho de Reitores enfrentou com bravura o governo militar quando a crise financeira comprometia o funcionamento das universidades federais.
A Universidade Federal de Santa Catarina abriga hoje 25 mil alunos. Nestes 50 anos formou mais de 68 mil profissionais. Um gigantesco contingente de especialistas que qualificou a vida de milhares de catarinenses em todos os setores. E agora, com a Ufsc produzindo cérebros em várias regiões do Estado. Embrião da Universidade da Fronteira no oeste.
João David Ferreira Lima antecipou-se à lição do genial
estadista Nelson Mandela, quando pregou: “A educação é a arma mais
poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”
Em Santa Catarina, as mudanças chegaram meio século mais cedo.