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A desvalorização do profissional da educação

01 de junho de 2011 2

Artigo sobre “A perspectiva de um Professor em Santa Catarina”, de autoria do professorJosé Antunes de Souza, foi enviado para publicação neste blog. Segue transcrito para reflexão das autoridades, dos politicos e das sociedade catarinense:
“Diante de todo o descaso com a Educação em nosso Estado, resolvi fazer uma análise sobre o ano de 2011 a partir de seu início com o descaso em relação aos Professores ACT’s, a falta de Professores nas Escolas até a Greve dos Professores, sendo aqui a constatação do maior grau de descompromisso com o aprendizado de qualidade, uma vez que se negam a remunerar aqueles que colocam os princípios educacionais na vivência das pessoas em formação, por ora alunos.

Verdade seja dita: rolar uma pedra morro acima e quando se “termina” este ciclo ela ser rolada para baixo a fim de que novamente se desça e torne a subí-la para que novamente isso ocorra, é uma função cansativa, ingrata, desesperadora.
Apresentei uma paráfrase ao mito de Sísifo de Albert Camus, filósofo francês. Ela serve em muito para ilustrar o processo de cada Professor ACT que se dedica a uma carreira nobre, que exige postura, inteligência, capacidade, conforme Carl Rogers explicita em Tornar-se Pessoa:

(…) importância de um educador consciente de suas atitudes e sua capacidade de compreender os sentimentos e as reações do seu aluno, ou seja, a importância de ser uma pessoa real, “não a encarnação abstrata de uma exigência curricular ou um canal estéril do qual o saber passa de geração em geração” (1991, p.265).

Ser Professor, Lehrer, Teacher, Professeur, conforme descreve o comercial na TV visando um incentivo para que os jovens queiram seguir tal Profissão. Uma motivação louvável, pois ser tido como o “motivador” de grandes desenvolvimentos pelo mundo é algo nobre! Mas olhar para a situação atual, que vivo e conheço me mostra outro lado. O de que não é isso que ilusoriamente tentam vender. Pesquisem sobre a quantidade de escolas em nosso Estado que tiveram e estão tendo grande dificuldade com o início das aulas deste ano. Tendo escolas a ter 3 Professores apenas e, digo a vocês – não é falta de Professores na grande maioria dos casos, tem Professores sim,o que acontece é uma política de vagas que não podem ser quebradas, isto é, oferecem 40 horas e ponto final, não importa se o Professor que ficou classificado bem na lista dê aula em outros lugares, que ele tenha apenas um horário disponível, é aquilo e pronto; errado ou certo? Dá para se falar em duas versões, primeira o Professor melhor colocado nem sempre está disponível para todos os horários que as vagas propõem porque ele não é apenas ACT como (parece que o edital) espera que seja, isto é, que esteja um ano todo empregado, ou parcialmente conforme surgem as vagas de licenças, afastamentos, funções gratificadas etc (um bom profissional vive para esperar vagas assim?), no fim do ano desempregado e a espera de vaga para o ano seguinte (uma espécie de escravo do sistema).
Por segundo a versão boa para a vaga completa, quem quiser atuar como Professor sem outra opção, então sendo ACT que se dedique somente a isso e ponto final. Isso seria uma maravilha, mas quem assume esta vaga nem sempre é o melhor classificado e logo o que teria mais a oferecer aos cidadãos em formação.
Em época de renovação de governo vê-se tantos projetos apresentados, tais como o de bolsas para financiar o Estudo Superior em nosso Estado. Louvável a intenção, mas lembrado via twitter quanto ao compromisso com o Ensino Público e não enriquecimento do Ensino Privado, pois para se estudar nas Instituições lá citadas é preciso pagamento, isto é, as vagas dessas instituições seriam preenchidas por estudantes patrocinados pelo Governo… surge aqui um questionamento. Sendo a intenção muito boa, a de investir dinheiro público para preencher vagas de instituições privadas, tendo como objetivo a formação de mais profissionais, de dar oportunidade aos jovens, como seria se estes jovens viessem a se tornar Professores e ACTs? O que resolveria tal investimento? Pois, no período de estudo raramente conseguiria uma vaga em sala de aula, quando habilitado, quatro ou cinco anos depois iria para uma prova classificatória e mesmo que ficasse bem colocado, caso tenha um outro emprego, pois foram anos para se formar, ele precisava se manter de alguma forma ele talvez não poderia assumir alguma vaga, pois teria que para isso se desfazer do que o manteve até agora.
Outro ponto as chamadas para suprir as vagas, na primeira aparece um número bem pequeno de vagas, e quem porventura ainda depende de ser ACT para se manter se pegar uma vaga na qual se classificou (porque o edital previa que com o Ensino Médio se inscreveria para qualquer disciplina do Ensino Fundamental, e muitos fizeram isso) não pode, depois deixar esta vaga para assumir uma de sua especificidade, pois ficaria eliminado o restante do ano, não podendo atuar como Professor da Rede Estadual neste período. Pergunto: quem, na verdade sai ganhando com isso? Uns diriam a ordem do processo seletivo tem que valer, é a autoridade, outros diriam que é justo. Mas o que deveria estar em questão seria a justiça burocrática de ideias concretas vindas de um órgão ou o aprendizado dos alunos? Um Professor não formado na disciplina não oferece o mesmo que um formado ofereceria!
Com todo o desleixo com a Educação, acima de tudo a desvalorização do Profissional da Educação, vê-se cada vez mais a debandada de Professores para inúmeras outras profissões, isso feito através de Concursos Públicos e, a cada dia é maior o número de Professores que dão aula das 6h da manhã as 22h30 da noite e ficam até as 2h30 da madrugada estudando para as provas de concursos. E passam, e deixam a educação por falta de incentivo e agora, comprovado, falta de respeito por parte de seus representantes maiores. Será que estes que passam em concursos de outras áreas e deixam a sala de aula, são Profissionais ruins em sala de aula? Com certeza não! São estes, notoriamente os mais preparados, os que ousam, os que incentivam a ousadia por uma vida melhor!
Assim, já na metade de mais um ano de subida de pedra morro acima, gera-se a esperança de que em 2011, depois dessa justa e já atrasada greve, porque deveria ter acontecido sempre que um dos direitos tinha sido ferido, surja a possibilidade de se encontrar um lugar fixo e seguro para a pedra pesada que a cada ano, cada prova, cada escolha, cada desistência duramente se empurra. Que se pague o que é de Lei, se cumpra a lei na íntegra, que surja Concurso na área da Educação e chegue ao fim todos esses impasses.”

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Comentários (2)

  • Marianna Mussatto diz: 1 de junho de 2011

    Muito Obrigada por expor a precariedade da educação em Santa Catarina, você é um dos poucos jornalistas que fala honestamente sobre isso.Cadê o dinheiro do FUNDEB?Cadê o dinheiro da educação?Isso é uma vergonha, não é mesmo?

  • Renata diz: 1 de junho de 2011

    Prezado Prof. Antunes…

    Gostaria de apresentar minha estima pelo depoimento acima apresentado!
    Apenas faço uma pequena ressalva quanto ao concurso… pois apesar de não ser a melhor proposta – ao menos conseguimos desmascarar um pouco do nepotismo, já que, com a prova – nos foi permitido apelar para o ministério público nos casos das muitas irregularidades. Confesso que, como habilitada, especialista e mestre – demorei cinco anos para conseguir ingressar no magistério pela falta de critérios para seleção de profissionais e malabarismos efetuados pelas Gereds,e, há dois anos (período de realização das provas), consigo permanecer em primeiro lugar. Todavia, é muito triste saber que a qualificação, COMPETÊNCIA e amor pela profissão infelizmente não funcionam como critérios de seleção atualmente no sistema onde nos encontramos!
    Abraços e obrigada pela defesa aos ACT´s – profissionais que merecem todo o nosso respeito e (com exceções, como em todas as categorias e profissões) admiração pela perseverança!