Provedor interino da Irmandade Senhor dos Passos e Imperial Hospital de Caridade, Luiz Mário Machado envia contribuição do médico Mário Gentil Costa sobre o magnífico exemplo do Irmão Joaquim, o fundador da mais antiga instituição hospitalar, cultural e religiosa de Santa Catarina. O título "Meu Primo Joaquim". Confira o texto:
"Quem trafega pela Avenida Mauro Ramos, de um modo geral, sabe que uma daquelas ruas que sobem o Morro da Cruz se chama "Irmão Joaquim". Mas será que a maioria sabe quem foi esse cidadão..., o Irmão Joaquim? O que fez para merecer nome de rua?
É justamente isso que desejo divulgar aqui. Antes, porém, gostaria de justificar o título desta crônica; ele era meu primo... Não fiz as contas, mas que era, era! Claro que nem de primeiro, nem de segundo, nem de terceiro graus - talvez nem de décimo-quinto - pois que viveu entre os fins do século XVIII e começos do XIX, exatamente de 1761 a 1829.
Seu nome completo deveria ser Joaquim Francisco da Costa. Infelizmente este sobrenome, por omissões de registro ou outras liberdades tão comuns àquela época - foi suprimido. Com efeito, seu pai se chamava Tomás Francisco da Costa, e foi o meu primeiro ancestral no Brasil, cristão-novo vindo dos Açores, exatamente da Ilha do Faial, em 1748.
Querem saber o que essas duas figuras fizeram? Querem mesmo? Pois então, lá vai: ergueram juntas... o pai com a competência e o dinheiro do seu próprio bolso, o filho com o trabalho, e ambos, auxiliados por um pequeno grupo de benfeitores, com a obstinação de quem tem um ideal a cumprir, ergueram - repito - o nosso venerando Hospital de Caridade. Simplesmente isso. Não só o construíram, como o equiparam e o doaram à comunidade, inaugurando-o a 1º de janeiro de 1789.
Tomás Francisco da Costa aqui chegou com 21 anos de idade. Construtor de obras, com o trabalho, com a inteligência e com muito tino comercial, tornou-se, pouco a pouco, um homem abastado, responsável que foi pela edificação de uma série de prédios e residências senhoriais, algumas ainda de pé e resistindo estoicamente à ganância imobiliária que avassala a nossa cidade. A propósito, a antiga Prefeitura e Câmara de Vereadores, na Praça XV, também é de seu risco.
Preocupado, desde a chegada, com as precárias condições sanitárias em que vivia a população do Desterro, acalentou durante anos o sonho de dotar a vila de um hospital que atendesse os enfermos pobres. E encontrou no filho um aliado inestimável, que, imbuído de um extraordinário espírito de renúncia e de caridade, dedicava a vida, na condição de irmão religioso, aos doentes e necessitados.
Para isso, Joaquim fez voto de pobreza e saiu a pedir esmolas para ajudar a aliviar o sofrimento dos menos favorecidos. E fez mais ainda: depois de concluída aquela que seria sua missão local, saiu a fundar hospitais em outras cidades do Brasil. Fundou e ajudou a edificar a Santa Casa da Misericórdia de Porto Alegre, a de Itu no interior de São Paulo e a de Salvador na Bahia. Fundou também escolas, asilos e seminários na capital paulista e no Rio de Janeiro.
Como embaixador das comunidades que visitava e se propunha a ajudar, esteve diversas vezes na Europa, especialmente em Portugal, para obter do Príncipe Regente D. João VI - o mesmo que em 1808, fugido de Napoleão, viria esconder-se no Brasil - a autorização régia para erguer por aqui suas casas de misericórdia.
E na última dessas missões, quando viajava ao Vaticano em busca de missionários para atender às crianças pobres do Brasil, acabou morrendo em Marselha, na França.
Esse era o meu primo Joaquim: filho de rico, nunca quis saber de riquezas materiais ou de honrarias. Tanto era assim, que, após dar início à edificação da Santa Casa de Porto Alegre em 1803, lá permaneceu por três anos ajudando nas obras e, quando sentiu que a mesma já atingira seu estágio final e irreversível, e sua presença não era mais indispensável, desapareceu às vésperas da inauguração; preferiu o anonimato. E no dia em que a solenidade aconteceu, em 1806, nenhum gaúcho, por mais que tentasse, conseguiu encontrá-lo: - ele tinha partido para não mais voltar...
Suas viagens mais curtas eram feitas a pé. Tudo o que tinha, ele dava aos pobres, guardando para si apenas o necessário para sobreviver. Dedicava-se exclusivamente a fazer o bem aos desvalidos da sorte. Sua obsessão era servir; seu objetivo, se doar. Outro legítimo santo catarinense que não foi canonizado.
Se pudesse saudá-lo pessoalmente, gostaria de abraçá-lo e exclamar bem alto para que todos me ouvissem:
"Meu querido Joaquim, você foi uma grande figura humana! Tenho imenso orgulho em ser seu primo!"
Mario Gentil Costa – Floripa."