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Médicos: a importação e a realidade do SUS

30 de junho de 2013 13

A médica Juliana M. da Fonseca Cardoso, cirurgiá do Hospital Estadual Azevedo Lima, do Rio, assinou um depoimento comovente e realista sobre a situação da saúde e do SUS no Brasil.  Lavrou seu protesto contra a decisão do governo de importar médicos estrangeiros.  Confira:

“Há alguns meses eu fiz um plantão em que chorei. Não contei à ninguém (é nada fácil compartilhar isso numa mídia social). Eu, cirurgiã-geral, ‘do trauma’, médica ‘chatinha’, preceptora ‘bruxa’, que carrego no carro o manual da equipe militar cirúrgica americana que atendia no Afeganistão, chorei.

Na frente da sala da sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado na parede num prego similiar aos que prendemos plantas (diga-se: samambaias). Ao seu lado, seu filho. Bem vestido. Com fala pausada, calmo e educado. Como eu. Como você. Como nós. Perguntava pela possibilidade de internação do seu pai numa maca, que estava há mais de um dia na cadeira. Ia desmaiar. Esperou, esperou, e toda vez que abria a portinha da sutura ele estava lá. Esperando. Como eu. Como você. Como nós. Teve um momento que ele desmoronou. Se ajoelhou no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse “não é para mim, é para o meu pai, uma maca”. Como eu faria. Como você. Como nós.

Pensei ‘meudeusdocéu, com todos que passam aqui, justo eu… Nãoooo….. Porque se chorar eu choro, se falar do seu pai eu choro, se me der um desafio vou brigar com 5 até tirá-lo daqui’.

E saí, chorei, voltei, briguei e o coloquei numa maca retirada da ala feminina.

Já levei meu pai para fazer exame no meu HU. O endoscopista quando soube que era meu pai, disse ‘por que não me falou, levava no privado, Juliana!’ Não precisamos, acredito nas pessoas que trabalham comigo. Que me ensinaram e ainda ensinam. Confio. Meu irmão precisou e o levei lá. Todos os nossos médicos são de hospitais públicos que conhecemos, e, se não os usamos mais, é porque as instituições públicas carecem. Carecem e padecem de leitos, aparelhos, materiais e medicamentos.

Uma vez fiz um risco cirúrgico e colhi sangue no meu hospital universitário. No consultório de um professor ele me pergunta: ‘e você confia?’.

‘Se confio para os meus pacientes tenho que confiar para mim.’

Eu pratico a medicina. Ela pisa em mim alguns dias, me machuca, tira o sono, dá rugas, lágrimas, mas eu ainda acredito na medicina. Me faz melhor. Aprendo, cresço, me torna humana. Se tenho dívidas, pago-as assim. Faço porque acredito.

Nesses últimos dias de protestos nas ruas e nas mídias brigamos por um país melhor. Menos corrupto. Transparente. Menos populista. Com mais qualidade. Com mais macas. Com hospitais melhores, mais equipamentos e que não faltem medicamentos. Um SUS melhor.

Briguei pelo filho do paciente ajoelhado. Por todos os meus pacientes. Por mim. Por você. Por nós. O SUS é nosso. Não tenho palavras para descrever o que penso da ‘Presidenta’ Dilma. (Uma figura que se proclama ‘a presidenta’ já não merece minha atenção).

Mas hoje, por mim, por você, pelo meu paciente na cadeira, eu a ouvi.

A ouvi dizendo que escutou ‘o povo democrático brasileiro’. Que escutou que queremos educação, saúde e segurança de qualidades. ‘Qualidade’… Ela disse.

E disse que importará médicos para melhorar a saúde do Brasil….

Para melhorar a qualidade…?

Sra ‘presidenta’, eu sou uma médica de qualidade. Meus pais são médicos de qualidade. Meus professores são médicos de qualidade. Meus amigos de faculdade. Meus colegas de plantão. O médico brasileiro é de qualidade.

Os seus hospitais é que não são. O seu SUS é que não tem qualidade. O seu governo é que não tem qualidade.

O dia em que a Sra ‘presidenta’ abrir uma ficha numa UPA, for internada num Hospital Estadual, pegar um remédio na fila do SUS e falar que isso é de qualidade, aí conversaremos.

Não cuspa na minha cara, não pise no meu diploma. Não me culpe da sua incompetência.

Somos quase 400 mil, não nos ofenda. Estou amanhã de plantão, abra uma ficha, eu te atendo. Não demora, não.

Não faltam médicos, mas não garanto que tenha onde sentar. Afinal, a cadeira é prioridade dos internados.

Hoje, eu chorei de novo.


Comentários

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Comentários (13)

  • Teresinha Ceccato diz: 30 de junho de 2013

    é lamentável o que está acontecendo no Brasil e vai ficar pior ainda com a proposta do Governo. Para quem conviveu com as rivalidações de diplomas de medicos estrangeiros durante mais de 8 anos na UFSC é triste. Temos exceções mas a maioria vem completamente despreparada.

  • Junior diz: 30 de junho de 2013

    Prezado Moacir, a saúde realmente está precária, a tabela do SUS é uma vergonha, mais vergonhosa ainda é a estrutura, …… o problema dos médicos. Ora, vários deles querem ganhar R$ 6 mil por mês/4horas de trabalho (acham pouco ainda) mas só querem trabalhar três horas no posto de saúde (PQ eles tem o consultório, o plantão, o outro hospital / ou município que trabalham) e o dia tem apenas 24hs. Posso também dizer aqueles que trabalham pelo SUS mas cobram uma gorjeta por fora e respondem por processos. Que venham os médicos cubanos (Cuba, especialista em medicina preventiva, exporta médicos para 70 países, como diz o querido frei Beto: “Se não chegam médicos cubanos, o que dizer à população desassistida de nossas periferias e do interior? Que suporte as dores? Que morra de enfermidades facilmente tratáveis? Que peça a Deus o milagre da cura?”Verifique em nossa região, não precisamos ir muito longe pergunte aos prefeitos dos nossos municípios, já fizeram vários concursos e processos seletivos e as vagas estão em aberto, além do poder judiciário que analisa vários TAC´s (termo de ajustamento de conduta) e processos judiciais de médicos que não cumprem seu horário e/ou não respeitam o cidadão…ou seja, alguns deles não cumprem horário, mal atendem pq querem continuar no padrão de vida de classe alta….POR FAVOR VAMOS RESOLVER TODOS OS PROBLEMAS.!!!!!

  • fabio carminatti diz: 30 de junho de 2013

    Sentimento verdadeiro.Parabéns pela leitura acertada.Espero pelo dia em que pelo menos 51% do brasileiros votantes ,sejam agraciados com a sabedoria demonstrada pela autora.Neste dia,representantes(entendá-se -genocidas) que hoje torturam a nação,não mais terão as rédias deste país.

  • nina diz: 30 de junho de 2013

    Dra. Juliana é um caso raro na medicina.

    Trabalho em um hospital público;
    sou funcionária da SES;
    E tenho plano de saúde;
    Sendo funcionária da secretaria da saúde, tenho plano de saúde para ter atendimento médico de qualidade.

    Neste hospital, tem médicos! Mas eles atendem a hora que querem.
    A maioria tem seus consultórios particulares. Nada contra!
    Mas será que o atendimento é da mesma qualidade?
    Atendem bem o paciente necessitado e carente do SUS como atende seus pacientes que podem pagar?

    Não! A resposta é não. Os pacientes que podem pagar são melhor atendidos.
    Por que? Por que Dra. Juliana?

    A saúde pública está sendo entregue para empresas particulares administrar.
    Por que? Por que os políticos, o secretario da saúde não quer arregaçar as mangas e trabalhar. Prefere pagar e privatizar a saúde do que trabalhar. E pagam alto. Outra forma de auto-beneficiamento e enganar a população…Pois esse dinheiro que vai para as empresas administrar a saúde é um dinheiro sem fiscalização…

    O sucateamento da saúde é para privatizar!
    Os médicos sabem disso. Também têm seus interesses…

    Que venham os médicos estrangeiros. Qual o problema? Vão auxiliar e diminuir as filas nas emergências. Vão atuar no interior.
    Não consigo identificar o “medo” dos médicos brasileiros com a vinda dos médicos estrangeiros…
    Dra. juliana chorou. Já vi muita gente chorando também…

  • Catarina diz: 30 de junho de 2013

    É representativo o número de processos administrativos contra médicos pelo não cumprimento da jornada de trabalho.
    Lembram daquele caso que a RBS mostrou, o médico entrando no Hospital Celso Ramos batendo o ponto e saindo segundos depois.
    Isto está correto, receber e não trabalhar?
    Não querem a importação de médicos cumpram o seu papel o que não é possível é deixar a sociedade desatendida.

  • Alexandre S. diz: 30 de junho de 2013

    Os médicos brasileiros atendem muito bem…bem a quem tem dinheiro.

    Talvez tenha uns 10% como a Dra. Juliana. 10% superfaturando…

    Não me venham com bláblá.

  • Teco diz: 1 de julho de 2013

    Sugiro a Dra Juliana que envie cópia de sua carta ao Joaquim Barbosa, ao Gurgel PGR, enfim aos responsáveis pela apuração e aplicação das penas
    não aplicadas aos que desviam verbas que poderiam ser aplicadas no SUS.
    Crime hediondo? Vai demorar….

  • Marcelo diz: 1 de julho de 2013

    Os médicos formam um “truste”, são uma máfia. O fato de não ter estrutura em nada tem a ver com a falta de médicos. A grande maioria dos médicos está preocupada somente com seus bolsos, com a manutenção do seu padrão de vida. Agora ouço falar em PLANO DE CARREIRA IGUAL AO DE JUIZ??? Pergunto: Juiz trabalha 20 horas semanais?? Juiz pode exercer a profissão de advogado em escritório particular em horários de folga?? Chega de HIPOCRISIA, devemos melhorar a estrutura, mas saúde não se faz só com estrutura, precisamos de médicos, e se for cubano, não importa, desde que minimize o sofrimento de quem procura atendimento. O governo vai abrir concurso nacional para as vagas existentes no SUS, veremos quantas serão preenchidas, depois quero ver reclamarem dos médicos importados.

  • Parabólica diz: 1 de julho de 2013

    E que tal um pouco de imparcialidade, se não doer demais, e mostrar os favoráveis à importação de médicos também? Por que só aparecem textos à favor do corporativismo dos médicos? Que tal mostrar os dois lados como deveria acontecer no bom jornalismo?

  • Marcos Vinicius diz: 1 de julho de 2013

    É claro que é extremamente necessário adequar as estruturas físicas como os médicos estão reivindicando. Mas enquanto isso não acontece, qual o problema de aumentar o numero de profissionais? Uma estrutura com recursos humanos volumosos com certeza vai ser super importante. Não concordo com muita coisa que o governo federal faz, mas esta é uma decisão acertada! Se numa eventual fatalidade do destino eu precisar de auxílio médico num local remoto, onde não tem hospital ou posto de saúde, prefiro que este seja feito por um desses médicos vindos de outros países: A lingua dos faladores e críticos não cura, não auxilia nem atende ninguém que está enfermo!

  • Ana Paula diz: 1 de julho de 2013

    Vocês todos que acham que a culpa do problema da Saúde Publica do Brasil é dos médicos brasileiros: espero realmente que sejam atendidos por médicos cubanos nos maravilhosos hospitais do Sistema Único. E não pelos mercenários e descomprometidos médicos brasileiros. Vocês e a nossa grande presidentA.

  • marcelocardosodasilva diz: 2 de julho de 2013

    …Caro Mestre MÔA;;; que tal um “Trabalho” Jornalístico sobre ÔÔ Tema “CARREIRA de Estado” para ÔÔ Magistério Público Catarinense??? ………….Com relação ao “SALÁRIO” de R$ 15.000,00 dos “DotÔÔris”; “Nós” do Magistério Público de Sta. Catarina estamos à reclamar e à MÍDIA e ÔÔ DESgovernadÔÔ columbiforme, “NEM AÍ”!!! —DETALHE—-;;; Professora e Professor são PROFISSIONAIS Graduados, muitos(as) com Mestrado e Doutorado e ÔÔ SALÁRIO não chega à R$ 5.000,00!!!………….”Alguma coisa está fora da Ordem…fora da Ordem, Mundial!!!”