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O 18o. Ato Institucional

31 de julho de 2013 9

Do presidente da Associação Catarinense de Medicina, Aguinel Bastian Junior, sobre o desprezo do governo federal para com o setor saúde, em artigo intitulado “O 18. Ato Institucional”:

“O Brasil, que vive o apagão da saúde, caminha a passos largos para a escuridão.

Dezembro de 2011 foi um mês sombrio para a saúde dos brasileiros. Começou com a saúde perdendo os 10% do PIB e chegou ao Natal com a prorrogação da desvinculação orçamentaria da união até 2015, uma manobra ardilosa do governo e sua base aliada para gastar o dinheiro da seguridade social (saúde, previdência e assistência social) em coisas mais convenientes ou, como afirmou o governo na época, em áreas que podem se tornar prioritárias, como as obras de infraestrutura urbana para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Pouco se vê hoje de infraestrutura urbana mas muito dinheiro foi derramado em estádios milionários de cadeiras vermelhas.

Agora assistimos com profunda tristeza o governo federal declarar guerra aos médicos, movido por interesses eleitoreiros e pela tentativa de angariar algum apoio político no meio da gritaria da nação. Distorce números, apresenta mentiras oficializadas e despreza a agonia da saúde com frieza e calculismo.

Execrado por seus pares ao ser anunciado como “persona non grata” da sociedade pelas Entidades Médicas, o ministro enviesa seus compromissos com a saúde e, por ser médico, lamentavelmente empresta aos seus desatinos uma falsa aparência de fundamento. A medicina tem enorme responsabilidade com a cidadania e nesse momento insiste, em defesa da sociedade, que os remendos improvisados impostos ao povo são invenção do ministro, não do médico que outrora jurou, numa alusão milenar a Hipócrates, não fazer o mal e ser fiel aos preceitos da arte de cuidar e da ciência.

Se as medidas autoritárias e sem base na ciência agora anunciadas para a saúde não impedirem a mistanásia (morte por falta de recursos e assistência) na nação, fica a sugestão ao governo federal de investir os 62 bilhões desvinculados do orçamento de 2013 na saúde, fazer aprovar o projeto de iniciativa popular das entidades medicas que resgata os 10% amputados da emenda constitucional 29 e criar a carreira de estado para os profissionais da saúde. Ainda, como medida de contingência, um esforço conjunto das entidades médicas e do Ministério da Saúde na criação de uma força tarefa de médicos brasileiros financiada com a verba gasta na copa do mundo pode ser uma solução muito mais eficiente e atrativa do que obrigar estudantes de medicina a assistir a desassistência. Um projeto dessa natureza poderia revezar médicos e estudantes inscritos em períodos de 6 meses que, acompanhados pelos demais profissionais da saúde chegariam aos cantos mais remotos da nação levados pelo exército brasileiro portando um kit básico de medicamentos, equipamentos portáteis e logística de transporte. E nem precisaria medida provisória para isso. Bastaria conversar com as Entidades Médicas.

Ao longo dos anos e dos partidos o governo federal economiza o que pode na saúde e faz de conta que não sabe que o Brasil é um dos países que menos investe nesta área. Agora, com o grito das ruas por acesso igualitário a uma saúde estruturada e eficiente, tenta, num misto de perversidade e oportunismo, se livrar da culpa por pouco ter feito, jogando nos médicos a responsabilidade pela falta de tudo e nos prefeitos a missão de pagar as contas. Nosso país é rico, mas os municípios pequenos não. E a perversidade é ainda maior quando se analisa a proximidade do cidadão com as esferas do poder. O doente mora ao lado do gestor municipal e cobra dele todas as carências de que padece. Sem saída o município investe na saúde o que não tem, penalizando investimentos na educação e em infraestrutura. O desgoverno federal dá de ombros porque lá de Brasília não dá para ver os pobres do Brasil. Não dá para escutar seu choro e nem assistir seus lutos. Mas dá para ouvir os gritos das ruas. Tanto dá, que rapidamente soluções simplistas surgem sopradas por marqueteiros e carreiristas do partido.

Como num extemporâneo Ato Institucional (houve 17 na época da ditadura) esse governo, que se diz portador de cicatrizes da malfadada ditadura brasileira, apresenta medidas autoritárias e criadoras de uma cortina de fumaça para encobrir sua real intenção: trazer de volta ao país os patrícios que enviou ao conveniente regulamento de Fidel Castro em Cuba para aprender uma medicina duvidosa, burlando os referenciais de qualidade da medicina brasileira. A ditadura militar parou no décimo sétimo Ato Institucional. Quarenta e quatro anos depois essa versão mutante do PT, que a corrupção no poder criou e nutriu, inventou o décimo oitavo.

Responder ao grito do povo com improvisos mostra despreparo, e as canetadas e bravatas revelam cacoetes aprendidos com a ditadura. Acanhada visão a dos perversos e oportunistas inventores dessa nova saúde do Brasil, descartável, falaciosa, de papelão. Esse é o momento que o Estadista de verdade aproveitaria para acabar com mordomias e inverter o fluxo viciado do clientelismo e da corrupção que apodrecem nossa jovem democracia.”

Comentários

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Comentários (9)

  • Osni Dutra diz: 31 de julho de 2013

    Brilhante e de profundo conhecimento das maracutaias governamentais contra o sofrido e doente povo brasileiro.
    Lendo o texto, fiquei indignado com nossos representantes em Brasília por aceitarem tais situações sem “espernearem” contra tal absurdo.
    Só espero e, estou esperando a anos, que os eleitores não reelejam tais políticos nas próximas oportunidades eleitorais.
    Vamos expurgar todos os profissionais da política do toma lá dá cá ou os “no meu bolso primeiro”.

  • Alexandre S. diz: 31 de julho de 2013

    Que dramatico…

  • Sérgio diz: 31 de julho de 2013

    Será que o Diretor do Hospital Governador Celso Ramos está sabendo que o hospital não dispõe de água quente há 4 dias? Doentes reivindicão condições humanas de tratamento.Aliás,estão pedindo somente condições dignas sobrevivência.Mas se isso,for impossível, que deem condições dignas para que possam morrer.É deprimente ver tanta incompetência!

  • Giffoni diz: 31 de julho de 2013

    Desaponta-me sobremaneira a mesquinhez do “raciocínio” do referido doutor. Mistura alhos com bugalhos tentando extrair arrazoado sem pé nem cabeça. Ou não entende nada de administração público, ou, pior, está sendo apenas e tão somente corporativista ao extremo. Menos, doutor, muito menos. Aliás, gostaria de que tais associações médicas estivessem – sempre e sempre – antenadas para o descalabro dos hospitais públicos (estaduais, municipais, filantrópicos), para a baixa assiduidade dos médicos, para o descaso dos médicos que “praticam” 5 a 6 consultas por hora; para os médicos que nem ao menos olham para os pacientes; para os médicos que “benevolentes” distribuem atestados de saúde; por aí já teriam assunto pra mais de “metro”. Também, que desenvolvessem políticas-médicas-públicas junto aos seus “doutores”, visando arguí-los em relação à necessidade de suas presenças nos mais remotos rincões e, ainda – mas não menos importante, cobrar das prefeituras e dos governos estaduais a efetiva implantação da visão médico-paciente nos municípios e regiões (investir em hospitais, equipamentos, pessoal etc e tal). Reclamar dos médicos estrangeiros é, em si, mero chororô de mauricinhos. Haja paciência.

  • roberto schmidt diz: 31 de julho de 2013

    Caro Moacir,
    Não tiro a razão do presidente da Associação Catarinense de Medicina, Aguinel Bastian Junior. Mas acho que ele mistura alhos com bugalhos e mostra que POUCO SABE DOS INTERESSES COOPERATIVOS DOS MÉDICOS BRASILEIROS.
    Sim, a saúde está na UTI, mas se o culpado número um é o governo (federal e estadual), o culpado número dois são os médicos.
    Médico não quer atuar no combate a doença, quer atuar onde dá dinheiro, mas só onde dá muito dinheiro.
    Não temos médicos generalistas, não temos médicos pediatras, não temos médicos que se interesse em ir ao interior. E médicos especialista em gente? esse está quase extinto.
    Há médicos e “médicos” é claro. Não dá para colocar todos no mesmo saco. Mas é fato que a elite social brasileira (os endinheirados) é formada por médicos, advogados e empresários.
    Com relação à saúde pública. Os hospitais estão nas mãos dos médicos que usam a estrutura pública para fazer suas cirurgias particulares.
    E se o problema é recurso, o governo deveria primeiro acabar com a dedução no imposto de renda dos gastos com saúde. São bilhões de reais, dinheiro público, que financia a saúde privada e isso os médicos não falam.
    Os médicos não querem atender pelo SUS (a tabela de procedimentos precisa ser reajustada, é verdade), mas também não querem atender pelos planos de saúde. Tente marcar uma consulta pela UNIMED para ver (leva até dois meses). Muitas vezes fica a impressão que o “médico” quer mesmo dificultar as coisas para ver crescer as consultas particulares, para elas sempre tem horário em suas agendas (R$ 400 no bolso).
    Por isso digo: para a máfia de jaleco, quanto pior a saúde melhor para eles.
    Quem venham médicos do mundo todo, queremos oferta de médicos. Pois os médicos brasileiros só querem saber ganhos milionários em curso prazo.
    E outra coisa, se é a sociedade que paga a formação de um médico nas universidades públicas, esses médicos tem que dar o seu retorno, indo para o interior para começar.

  • Paulo diz: 31 de julho de 2013

    A praga é que não sabemos mais quem é lobo e quem é cordeiro, se é que ainda existem cordeiros. Esse governo, que se dizia governo do povo, que usa os lemas, Brasil um pais de todos e país rico é país sem pobreza, ignora propositalmente que, a pobreza de uma nação é não poder contar com saúde, não poder contar com educação, não poder contar com segurança. Esquece o governo, e claro que de propósito, pois tem que honrar os compromissos com a copa do mundo que, as maiores riquezas de um país, dentre outras, é proporcionar aos seus governados saúde e educação, pois é só assim que as pessoas crescem, é só assim que as pessoas saem da indigência.

  • Curió diz: 31 de julho de 2013

    Vi aqui do meu poste avançado passar um gato que comeu o meu comentário, bicho trite! Parece aquele profeta que comeu todo o pergaminho, credo em crux! que praga! Moacir! tenha dó do velho!

  • Luiz Fernando diz: 31 de julho de 2013

    Os que atacam o Dr Aguinel desconhecem seu caráter reto, seu humanismo exemplar e sua competência médica.
    Deviam, primeiro conhecê-lo, depois questioná-lo, se ainda pudessem!
    Pudéssemos, ter mais “Aguinéis” exercendo tão nobre profissão.
    Calem-se difamadores baratos, provavelmente patrocinados pelo que há de pior na política brasileira!

  • Serviço Civil para formandos do ensino superior público ou com recursos públicos diz: 1 de agosto de 2013

    Um ano de serviço civil para todos os que cursarem universidades públicas, ou privadas com bolsa pública, nas respectivas áreas, na forma de um estágio obrigatório em local designado e com direito a uma bolsa equivalente àquela dada a estudantes de Mestrado, sendo a regra fixada antes da inscrição para o próximo vestibular. Assim, quem não quiser encarar alguma variante de Projeto Rondon, pode optar por uma universidade privada, isenta da exigência, mas mantendo-se a opção aberta a todos que queiram participar do programa. Ficam dispensados os que cumprirem serviço militar. Havendo contingente de formandos superior ao número de vagas, faz-se uma seleção e dispensa-se os demais, assim como no serviço militar. Diploma provisório até a conclusão do ano de serviço sob supervisão de outro profissional com maior experiência. Ao governo federal cabe montar os programas, podendo-se prever vagas em determinados editais de licitações públicas, ajudando a reduzir custos e criando oportunidades de amadurecimento profissional aos recém formados. Médicos, engenheiros, advogados, professores, futuros profissionais de todas as áreas, à disposição para serem encaminhados para suprir demandas onde o país mais estiver precisando, com apontamento das necessidades pelos estados e municípios, que também podem ajudar a pagar as bolsas. É uma contrapartida mais do que justa aos impostos da sociedade investidos na formação superior. E como prêmio a todos que desempenharem bem os seus trabalhos, isenção de imposto de renda nos três primeiros anos da carreira (até algum teto).

    Provavelmente a ideia possa ser aprimorada, mas as linhas gerais acima são um bom ponto de partida.