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A Ufsc, o Reitor Ferreira Lima, a ditadura e a Escola de Engenharia

31 de março de 2014 4

O professor e engenheiro José João Espíndola, um dos notáveis do Centro Tecnológico da Ufsc e que transformou as engenharias com outras celebridades e homens de valor dedicados ao ensino, a pesquisa e extensão, retoma capítulos da história para relatar episódio envolvendo o reitor João David Ferreira Lima. Vale a pena acompanhar seu relato:


“Nos primórdios da UFSC era diferente. As pessoas assumiam suas responsabilidades de ofício. Hoje imperam as mais despudoradas omissões e subserviências.

O curso de Engenharia Industrial, hoje em dia Engenharia Mecânica, oferecido pela UFSC, através da antiga Escola de Engenharia Industrial, “cellula mater” do Centro Tecnológico de hoje, corria normalmente.

Mediante convênio com a UFRGS, professores catedráticos, devidamente escolhidos, fundavam as várias Cadeiras (esta era a terminologia de então) e as tocavam com seus auxiliares, recém contratados. Estes, não raro, eram antigos alunos dos Catedráticos,- aqueles que melhor se haviam destacado.

A cada ano repetia-se o processo de contratação de novos auxiliares para as novas cadeiras.

Até que eclodiu a Redentora e o presidente de plantão, Castelo Branco, proibiu a contratação de novos servidores, a qualquer título, para o serviço público federal.

Pronto, estava vedada, por Decreto, a continuação do curso de engenharia industrial, modalidade mecânica, já que ficavam proibidas as contratações de novos auxiliares de ensino.

Sem novos auxiliares, não haveria novo ano letivo.

Era o fim da Escola de Engenharia Industrial.

Ou seria o fim, não tivéssemos, na época, um Ferreira Lima como Reitor.

Ferreira Lima, como poucos hoje sabem, foi o idealizador, criador e consolidador da Universidade Federal de Santa Catarina.

Naquela época, os grandes jornais brasileiros avaliavam, anualmente, os reitores das universidades federais e Ferreira Lima figurou, mais de uma vez, como o melhor e mais produtivo dentre todos.

Pois este Reitor Magnífico (inverto a ordem, aqui, de propósito, para que Magnífico soe mais como adjetivo e não apenas como título honorífico) não se conformou com o decreto presidencial. Afinal, os alunos haviam prestado vestibular, isto é, tinham feito um concurso público e, ao serem aprovados, adquiriram um direito que o Decreto parecia lhes retirar.

Ferreira Lima mandou redigir uma série de considerandos, vazados nos argumentos acima, para concluir que certamente não teria sido intenção do governo sequestrar o direito adquirido pelos alunos.

Concluía os considerandos contratando todos os auxiliares para as novas cadeiras.

Tempos depois o ministro da educação telefonou. Ferreira lima atendeu e o ministro foi logo perguntando: “Como vai o meu Reitor subversivo?”

“Vou bem, obrigado e Vossa Excelência?”

“Pois é, Reitor, levei ao Presidente seus considerandos e a sua Portaria, contratando os auxiliares, em franca desobediência ao Decreto presidencial”.

“Muito bem, Ministro, e daí?”

“Bom, Reitor, o Presidente leu as peças com muita atenção, sorriu e exclamou: É de homens assim que este País precisa”.

O curso de engenharia teve sequência sem mais sobressaltos.

Ontem era assim, mesmo em plena ditadura.

Conto esta breve passagem relativa ao “Homo Faber”, João Davi Ferreira Lima, como uma expressão de saudade da época em que homem se escrevia com agá maiúsculo e significava pessoa com elevado ideal de servir, com discernimento e coragem na defesa do ideal, do interesse público, mesmo que no outro lado estivesse alguém com poderes discricionários para demitir, prender, aniquilar ou até fazer desaparecer”.

Comentários

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Comentários (4)

  • PAULO AFONSO MARIOT diz: 31 de março de 2014

    Iniciei minha vida acadêmica no curso de Direito da UFSC quando ainda era Reitor o professor João Davi Ferreira Lima, tendo concluido meu curso quando então já era Reitor o não menos ilustre professor Ernani Bayer, exemplares homens que engrandeceram, de maneira inestimável, o ensino superior catarinense, detentores de qualidades que, lamentavelmente, não voltam mais à nossa querida Universidade.

  • Mané Estrangeiro diz: 31 de março de 2014

    É de homens assim que o Brasil precisa. E eu diria, é de reitores assim que a UFSC sente falta. Que a atual reitora se digne ao menos a ler a biografia dos que a antecederam. Quem sabe encontrará alguma inspiração para entender, um pouquinho que seja, do significado de ser uma reitora de Universidade. Até aqui, só demonstrou que não tem a menor idéia de qual o seu verdadeiro papel.

  • Gilmar Moretto diz: 31 de março de 2014

    Prezado Moacir,

    Nossa querida UFSC foi e é uma instituição de excelência graças a homens como o Reitor Ferreira Lima.
    Isso não quer dizer que não tenha seus erros e dificuldades, mas é sim uma instituição que nos orgulha.
    No entanto, a condução da atual Reitora diante dos últimos fatos, especialmente neste levante de uns poucos que acham que a Universidade deve ser um lugar livre para festas e nada mais, demonstra que lhe falta muitas das características dos homens e mulheres que construíram a honrosa reputação que nossa querida UFSC tem.
    É premente que a atual Reitora reveja sua atuação e, em honra a tudo o que foi construído até o presente, retome um ambiente propício ao ensino e pesquisa.
    A Reitora na última assembléia com estudantes manifestou que não autorizaria uma operação policial que colocasse em risco alunos e crianças. A pergunta que me fica é: “Ela nunca pensou que permitir que as crianças vejam os alunos da graduação usar drogas é muito mais prejudicial a sua formação?” Sim, porque o local onde se usa drogas é de acesso aos alunos do Colégio de Aplicação.
    Será que um policial também precisa pedir autorização para a Reitora para prender em flagrante os ladrões da carros, assaltantes e os molestadores que continuamente frequentam o campus universitário?
    Se para isso não precisa pedir autorização, porque pedir autorização para prender usuários e traficantes de drogas?
    Também a atual Reitora prefere conversar com os que se dizem alunos e que entraram com coquetel molotov na Reitoria, sabendo que os mesmos são tão perigosos e violentos que ameaçam os alunos do CTC e CCS quando estes pedem mais segurança, apenas por considerá-los filhos de uma ‘elite burguesa’. Será que este pequeno grupo é o dono da UFSC?
    Eu não conheço a atual Reitora e nem sua história, mas diante disso tudo me pergunto:
    Será que essa Reitora tem altura moral para continuar conduzindo a nossa querida UFSC?
    A resposta me parece muito óbvia.

    Agradeço a bela recordação de um trecho da história da nossa querida Universidade.

  • Giffoni diz: 1 de abril de 2014

    A UFSC adota para ingresso no Colégio de Aplicação os mesmos critérios de cotas que utiliza para a universidade?