Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
 

Vilmar Pacheco: histórias e saudades

02 de agosto de 2014 Comentários desativados

Há dois anos e tres meses acabava de visitar dr. Vilmar Pacheco no Hospital de Caridade. Escrevi, postei então um depoimento, que reproduzo agora, em homenagem ao querido amigo Pitanga, com as sinceras condolências a todos os familiares e amigos, e já com grande saudades do grande catarinense. Transcrevo:

“Quando Gustavo Kuerten conquistou pela primeira vez o Torneio de Tênis de Roland Garros, advogado Vilmar Pacheco lá estava na arquibancada torcendo aos gritos mais do que todos os franceses. O juiz pedindo silêncio, o narrador comentando baixinho e, lá no fundo, o advogado catarinense, conhecido como Dr. Pitanga, repetindo o nome do manezinho mais famoso do Brasil. Compareceu em todos os jogos decisivos e empurrou aquele que viria a ser o maior ícone do esporte catarinense em todos os tempos para as grandes e decisivas vitórias.

Paris e Roland Garros não serão mais os mesmos depois daquelas históricas conquistas de 1997. Para Guga, para o Dr. Pitanga e para a história do tênis.

Quando a Assembleia Legislativa realizou, onze anos depois, sessão solene para homenagear Gustavo Kuerten, já tricampeão de Roland Garros, quem fez a entrega da placa que materializava a iniciativa parlamentar? Ele mesmo, o Dr. Vilmar Pitanga, uma das figuras mais queridas na comunidade de Florianópolis.

Internado há duas semanas no apartamento 3007 da Ala Ana Néri do Hospital de Caridade, fala pouco sobre estes seus feitos extraordinários, testemunho de sua humildade e prova de quanto é estimado por todos os que o conhecem. Mas visita-lo é receber uma injeção de alegria, alto astral e muito otimismo. O homem continua imbatível em tudo: presença de espírito, memória descritiva, excelente humor, contador de histórias, generoso e um coração muito maior do que o corpo franzino.

Ali realiza tratamento para retornar ao lar em companhia da inseparável esposa Nadia, com quem está casado há 27 anos. Um casal que tem uma história de amor digna de uma telenovela da Globo. Ele diz – com inteira razão – que ela é única. E ela – de igual bem fundamentada – que, como Pitanga só existe um.

Ele é só alegria, mesmo dentro do Imperial Hospital. Suas histórias sobre Florianópolis são imperdíveis. Não apenas pela forma hilária, bem humorada, as vezes picante com que as descreve. Sobretudo, pela privilegiada memória que permite chegar a detalhes impressionantes.

Ademir Arnon, presidente da Associação Catarinense de Imprensa, esteve visitando o Dr. Pitanga esta semana. Tive o prazer de acompanhá-lo. Nunca me diverti tanto num quarto de hospital. Se tivesse agenda mais folgada iria toda tarde só para me divertir. Era um relato melhor do que o outro. Arnon, ajudando a lembrar casos e fatos raros da Ilha de Santa Catarina, incluindo aqueles em que o advogado raquítico esnobava coragem para enfrentar os Golias de seu tempo de juventude. E o dr. Pacheco narrava tudo como se tivesse exibindo um filme das décadas de 1960, 1970 ou 1980.

Dias atrás tinha visitado o estimado Pitanga, então no apartamento 326 da Ala Senhor Passos. Soube, então, que já tinha o diagnóstico da doença e que iria começar tratamento. Sempre otimista, sem perder o seu requintado bom humor. O homem é uma pérola até quando se solta e larga um palavrão inofensivo. Soube, então, que ali estiveram Esperidião Amin e José Carlos Soares, no mesmo horário em que também compareceu o colunista Cacau Menezes. O trio e mais as histórias do Pitanga transformaram o ambiente numa sessão de humor permanente. Cacau relatou depois na coluna que nem as enfermeiras e os profissionais de enfermagem conseguiam trabalhar sem a alegria contagiante do paciente.

É raro encontrar uma personalidade tão marcante, tão espirituosa, tão sensível e tão querida como o Procurador Vilmar Pacheco. Ele mesmo faz questão de lembrar suas gloriosas realizações do passado, das amizades, dos políticos, dos governantes. E até das “ousadias” da juventude.

Uma de suas marcas: a elegância. Sempre magrinho, mas na rua sempre de terno bem passado, camisa engomada e gravata brilhando. Apesar da origem humilde, nunca deixou de cuidar da aparência. O terno preço, o bigode preto escuro sempre bem aparado, a forma de gesticular, tudo o transformava numa espécie de “lorde inglês”, a fina flor da representação do manezinho da Ilha.

Estudioso, ex-diretor do Arquivo Público, conquistou o título de Bacharel em Direito, entrou no serviço público, atuou como Procurador Fiscal e exerceu outras funções relevantes. Sempre absolutamente leal a todos os seus amigos. E, sobretudo, um ser apaixonado pela esposa, pelo filho e pela cidade, que adora.

Quem vai ao Hospital de Caridade e visita o amigo Pitanga participa, na verdade, de verdadeiras sessões de boa conversa sobre a história catarinense, de bom humor, de espirituosidade e de uma confraria que só Florianópolis pode se orgulhar de destacar entre seus cidadãos.

Na visita do presidente do ACI quem lá esteve, na saída, foi o padre Pedro Koehler, capelão do Imperial Hospital, dedicação exemplar aos pacientes ali internados. Entrou rindo e saiu chorando de rir. Ademir Arnon teve que fechar logo a porta para não perturbar os outros doentes.

Quando recebeu a placa da Assembleia das mãos de Vilmar Pacheco, Gustavo Kuerten afirmou: “Esta homenagem significa a minha história. Percorri Santa Catarina no início da carreira, conquistei amigos e tenho muitos admiradores e fãs até hoje.”

Pitanga lembra daquela noite inesquecível como se ele tivesse recebido o troféu. Orgulha-se dos amigos que fazem sucesso com mais alegria e ternura, como se fosse ele o detentor das vitórias.”

Comentários

comments

Não é possível comentar.